sábado, 6 de outubro de 2012

E LA NAVE VÁ


SOBRE DOUTORES E NOVELÕES

 

Deve ser muito frustrante alguém passar anos e mais anos estudando a história e a teoria de determinada matéria, penetrando todas as fissuras de sua estética e, no final, produzir um texto que seja o resultado de tanto esforço para vê-lo perdido entre papéis velhos, recusado por editoras de algum relevo.

Dá pena, e me parece tratar-se de uma injustiça do mundo editorial.

O resultado dessa situação, geralmente, é uma visão amarga de tudo ou quase do que se publica. A inveja nunca fez bem a ninguém.


Fui, recentemente, vítima de uma dessas diatribes. Alguém que tinha o dever de analisar em profundidade os defeitos de um livro, contentou-se com uma leitura ideológica provavelmente por sentir-se atingido.

Alguns teóricos querem botar camisa de força nos autores, ditando como eles têm de escrever. Coitados, quem faz, vai sempre à frente de quem tenta e não consegue fazer.

Coitado, ele não sabe qual a função da repetição em literatura?

Saramago também foi vítima desses senhores, só que ele entrou para a História.

 

 

Crítica romance

Estereótipos ideológicos debilitam novelão

Apesar de estrutura cuidadosa, novo livro de Menalton Braff se repete ao narrar acerto de contas com o passado

ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA


Como em "Bolero de Ravel" (2010), uma casa é o cerne de "O Casarão da Rua do Rosário".

No trabalho anterior, Menalton Braff traçava o perfil de um protagonista que se recusava a sair da casa paterna para se tornar um "membro produtivo da sociedade".

No novo título da sua prolífica produção, é pelo olhar de um "intruso" que conheceremos o grupo familiar apegado às tradições e à permanência que o imóvel representa; quatro tias solteironas e um tio deficiente mental.

Dois irmãos saíram da casa para trajetórias opostas. Romão, representando o conservadorismo direitista, prolongado pelo filho, Rodolfo.

Já Isaura, a caçula (e a mais bonita), trocará os valores familiares pelo casamento com um ativista político, cujo desaparecimento a força a viver novamente com as irmãs, certamente não de maneira pacífica, trazendo os filhos.

Um deles, Palmiro, é quem -motivado pela morte da matriarca, Benvinda -repassa em sua memória os mesmos acontecimentos, e às vezes até os mesmos trechos, nas cinco partes da narrativa.

A decepção com "O Casarão da Rua do Rosário" é que, apesar do autor à primeira vista manipular uma estrutura cuidadosa, não há razão alguma que justifique as cinco partes do livro.

As duas primeiras (focadas na megera Benvinda e no tio Ataulfo) podem até ser defensáveis; as outras vão progressivamente esboroando o interesse da história e enfraquecendo o texto. A quinta raspa o tacho, já raso.

O SAL DA TERRA

Além da tessitura discutível, Braff mostra-se incapaz de refletir seriamente sobre as opções políticas dos seus personagens sem cair nos mais reles estereótipos.

Todos os personagens identificados com a direita são desprezíveis, reacionários desvairados ou oportunistas, incapazes de afeto ou de alegria (o único que escapa desse círculo infernal é o deficiente mental!).

Já os da esquerda guardam as reservas para a felicidade, os vínculos familiares autênticos, enfim, são o sal da terra (embora nenhum deles nos interesse especialmente).

Ora, ora. Assim é fácil compor um painel romanesco.Palmiro diz a certa altura: "Isso é um trabalho do meu entendimento sobre minha memória porque esta costuma ser caótica e aquele busca dar ordem ao caos".

Parece mais o uso de uma receitinha ideológica, o resto como consequência. O acerto de contas com o passado na forma de um novelão.

ALFREDO MONTE é doutor em teoria literária pela USP e criador do blog MONTE DE LEITURAS (www.armonte.wordpress.com)

O CASARÃO DA RUA DO ROSÁRIO
AUTOR Menalton Braff
EDITORA Bertrand Brasil
QUANTO R$ 39 (350 págs.)
AVALIAÇÃO regular

 

2 comentários:

  1. Menalton, como você é macaco velho, e considerando o suporte da resenha "crítica (?)", sabe muito bem que você está entrando naquela lista invejável de Chico Buarque, Saramago, Jorge Amado (romance-denúncia), Sebastião Salgado... enfim, artistas analisados, ou condenados, por uma leitura política que alguns pseudo-críticos literários fazem da obra.
    Talvez Alfredo Monte prefira ler Mainardi, Vargas Llosa (pela ideologia política, não literária), Gullar (da fase contemporânea, afinal, antes ele não sabia fazer poesia). Sorte, ou competência, de nós que temos olhos dedicados à literatura enquanto arte.

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    1. Pois é, Vitor. Minha resposta está na Carta Capital de amanhã. Ele queria neutralidade? Isso é pensamento ingênuo. Abraços.

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