SOBRE
DOUTORES E NOVELÕES
Deve ser muito frustrante alguém passar anos e mais anos
estudando a história e a teoria de determinada matéria, penetrando todas as
fissuras de sua estética e, no final, produzir um texto que seja o resultado de
tanto esforço para vê-lo perdido entre papéis velhos, recusado por editoras de
algum relevo.
Dá pena, e me parece tratar-se de uma injustiça do mundo
editorial.
O resultado dessa situação, geralmente, é uma visão amarga
de tudo ou quase do que se publica. A inveja nunca fez bem a ninguém.
Fui, recentemente, vítima de uma dessas diatribes. Alguém
que tinha o dever de analisar em profundidade os defeitos de um livro, contentou-se
com uma leitura ideológica provavelmente por sentir-se atingido.
Alguns teóricos querem botar camisa de força nos autores,
ditando como eles têm de escrever. Coitados, quem faz, vai sempre à frente de
quem tenta e não consegue fazer.
Coitado, ele não sabe qual a função da repetição em
literatura?
Saramago também foi vítima desses senhores, só que ele
entrou para a História.
Crítica romance
Estereótipos ideológicos debilitam novelão
Apesar de estrutura cuidadosa, novo
livro de Menalton Braff se repete ao narrar acerto de contas com o passado
ALFREDO MONTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Como em "Bolero de Ravel"
(2010), uma casa é o cerne de "O Casarão da Rua do Rosário".
No trabalho anterior, Menalton Braff traçava
o perfil de um protagonista que se recusava a sair da casa paterna para se
tornar um "membro produtivo da sociedade".
No novo título da sua prolífica
produção, é pelo olhar de um "intruso" que conheceremos o grupo
familiar apegado às tradições e à permanência que o imóvel representa; quatro
tias solteironas e um tio deficiente mental.
Dois irmãos saíram da casa para
trajetórias opostas. Romão, representando o conservadorismo direitista,
prolongado pelo filho, Rodolfo.
Já Isaura, a caçula (e a mais bonita),
trocará os valores familiares pelo casamento com um ativista político, cujo
desaparecimento a força a viver novamente com as irmãs, certamente não de
maneira pacífica, trazendo os filhos.
Um deles, Palmiro, é quem -motivado
pela morte da matriarca, Benvinda -repassa em sua memória os mesmos
acontecimentos, e às vezes até os mesmos trechos, nas cinco partes da
narrativa.
A decepção com "O Casarão da Rua
do Rosário" é que, apesar do autor à primeira vista manipular uma
estrutura cuidadosa, não há razão alguma que justifique as cinco partes do
livro.
As duas primeiras (focadas na megera
Benvinda e no tio Ataulfo) podem até ser defensáveis; as outras vão
progressivamente esboroando o interesse da história e enfraquecendo o texto. A
quinta raspa o tacho, já raso.
O SAL DA TERRA
Além da tessitura discutível, Braff
mostra-se incapaz de refletir seriamente sobre as opções políticas dos seus
personagens sem cair nos mais reles estereótipos.
Todos os personagens identificados com
a direita são desprezíveis, reacionários desvairados ou oportunistas, incapazes
de afeto ou de alegria (o único que escapa desse círculo infernal é o
deficiente mental!).
Já os da esquerda guardam as reservas
para a felicidade, os vínculos familiares autênticos, enfim, são o sal da terra
(embora nenhum deles nos interesse especialmente).
Ora, ora. Assim é fácil compor um
painel romanesco.Palmiro diz a certa altura: "Isso é um trabalho do meu
entendimento sobre minha memória porque esta costuma ser caótica e aquele busca
dar ordem ao caos".
Parece mais o uso de uma receitinha
ideológica, o resto como consequência. O acerto de contas com o passado na
forma de um novelão.
ALFREDO MONTE é doutor em teoria literária pela USP
e criador do blog MONTE DE LEITURAS (www.armonte.wordpress.com)
O CASARÃO DA RUA DO ROSÁRIO
AUTOR Menalton Braff
EDITORA Bertrand Brasil
QUANTO R$ 39 (350 págs.)
AVALIAÇÃO regular
AUTOR Menalton Braff
EDITORA Bertrand Brasil
QUANTO R$ 39 (350 págs.)
AVALIAÇÃO regular

Menalton, como você é macaco velho, e considerando o suporte da resenha "crítica (?)", sabe muito bem que você está entrando naquela lista invejável de Chico Buarque, Saramago, Jorge Amado (romance-denúncia), Sebastião Salgado... enfim, artistas analisados, ou condenados, por uma leitura política que alguns pseudo-críticos literários fazem da obra.
ResponderExcluirTalvez Alfredo Monte prefira ler Mainardi, Vargas Llosa (pela ideologia política, não literária), Gullar (da fase contemporânea, afinal, antes ele não sabia fazer poesia). Sorte, ou competência, de nós que temos olhos dedicados à literatura enquanto arte.
Pois é, Vitor. Minha resposta está na Carta Capital de amanhã. Ele queria neutralidade? Isso é pensamento ingênuo. Abraços.
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