Apesar da ideia de que pouco se faz fora de São Paulo e Rio,
Porto Alegre, Curitiba, Belém e Campo Grande têm produção literária intensa.
Por Menalton Braff
por Menalton Braff —
publicado 28/07/2013 13:45,
última modificação 28/07/2013 13:59

É quase consensual, entre os órgãos da mídia, sobretudo da grande mídia, que fora do eixo Rio-São Paulo pouca coisa se faz no Brasil. A vida inteligente nasce nessa faixa do País ou para ela migra. Algumas vezes, mas não muitas, e quase sempre inadvertidamente, noticia-se um evento fora do eixo. Claro está que estamos falando de cultura. Uma das marcas de tal pensamento, e marca reforçada pelo mundo acadêmico, é o modo como são classificados os escritores do Brasil. Se mora em São Paulo ou no Rio, é apenas escritor, quando muito escritor urbano. Saiu daí, não evita a adjetivação um pouco pejorativa de regionalista. Certo: Rio e São Paulo não são regiões, são o Brasil. O resto, os outros estados, bem, são os consumidores do que se faz “no Brasil”. Segundo o que pensam, somos todos periféricos e devedores das metrópoles.
O que motivou o assunto foi minha viagem recente a Campo Grande, onde se realizou o Literasul – 1º Encontro Estadual de Literatura em Mato Grosso do Sul. Lá estivemos o Cláudio Willer – falando de poesia, o Menalton Braff – falando de conto, e o Marçal Aquino – discorrendo sobre roteiro de cinema e literatura. Professores, alunos, escritores novos e antigos interagindo em alto nível com os convidados. Foi realmente uma festa da literatura.
O evento, idealizado pelo escritor Samuel Medeiros,
presidente da União Brasileira de Escritores local, teve a parceria da Fundação
de Cultura do Mato Grosso do Sul, dirigida por Américo Calheiros.
E se alguém duvida de que se possa construir alguma coisa
relevante de cultura no interior, pergunto se conhece o Manoel de Barros,
pantaneiro que hoje vive em Campo Grande. Se não o conhece, tampouco reconhece
seu valor no cenário literário brasileiro, bem, então não adianta conversar.
Entre os escritores presentes, estavam Elias Borges, da
diretoria da UBE, Arlindo Fernandez, Samuel Medeiros, Reginaldo Costa de
Albuquerque e Henrique Pimenta. Esses e muitos outros autores compareceram ao
evento, todos eles muito atentos ao que se faz hoje dentro do “eixo”, mas
fazendo também à sua moda literatura de alta qualidade.
Voltei impressionado com a efervescência cultural de Campo
Grande e a tomei por tema principal desta crônica. Mas conheço muitos outros
centros onde a vida cultural em geral e em particular a vida literária são
intensas. Porto Alegre, Curitiba, para citar duas praças de farta produção
artística, e Belém do Pará, onde estive há alguns anos e descobri que os
autores do Norte publicam por editoras paraenses, uma das quais estava lançando
a obra completa de Dalcídio Jurandir, um dos grandes romancistas brasileiros do
século XX, que muito pouca gente no eixo conhece.
Dizia-se, quando da construção de Brasília, que nosso País
precisava parar de viver como caranguejo. Falava-se em hora da interiorização.
Cinquenta e tantos anos depois, alguma coisa mudou, mas ainda mudou muito
pouco. O Brasil é muito maior do que o eixo.
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