terça-feira, 17 de setembro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (9)


Na vila de Furuborg - Sweden
Furuborg, Jonsered, Suécia,
4 de novembro de 1904

Meu caro senhor Kappus,

Nesse período que passou sem carta alguma, ora eu estava em viagem, ora tão ocupado que não pude escrever. Mesmo hoje me é penoso fazê-lo, porque já precisei escrever muitas cartas, de modo que minha mão está cansada. Se pudesse ditar, lhe diria muitas coisas, mas por escrito aceite poucas palavras em resposta à sua longa carta.

Penso com frequência no senhor, e com tal concentração em meus votos, que isso certamente o ajudaria de alguma maneira. Mas duvido muito que minhas cartas possam servir de auxílio. Não me diga que sim, que elas são uma ajuda. Receba-as com tranquilidade, sem muitos agradecimentos, e
permita-nos esperar o que está por vir.
Talvez não adiante eu examinar palavra por palavra a sua carta, pois não há novidade  no que poderia dizer acerca de sua tendência para a dúvida ou de sua incapacidade de harmonizar a vida interior e a exterior, ou acerca de tudo mais que o atormenta: é sempre o que eu já disse, sempre o desejo de que o senhor descubra em si mesmo paciência  o bastante para suportar e simplicidade o bastante para acreditar. Que o senhor ganhe mais e mais confiança para aquilo que é difícil, para a sua solidão em meio aos outros. De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os
casos.
Quanto aos sentimentos: são puros todos os sentimentos que o senhor acumula e eleva; impuro é o sentimento que abrange apenas  um  lado de seu ser e assim o desfigura. Tudo o que o senhor pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo o que faz do  senhor  mais  do que foi até agora em suas melhores horas é correto. Toda a intensificação é boa, caso esteja em  todo  o seu sangue, caso não seja embriaguez, nem obscuridade, mas alegria da qual se enxerga o fundo. Entende o que quero dizer?
Sua tendência para a dúvida pode se tornar uma boa qualidade se o senhor a educar. Ela precisa se tornar  saber,  precisa se tornar crítica. Pergunte a ela, a cada vez que quiser estragar algo seu,  por que  algo é feio, exija provas dela, teste-a, e o senhor talvez a  deixe indecisa e confusa, talvez revoltada. Mas não desista, reivindique argumentos e aja assim, de modo atento e coerente, a cada vez. Dessa maneira chegará o dia em que sua dúvida se converterá de uma destruidora em sua melhor colaboradora  -  talvez a mais esperta no meio de tudo aquilo que trabalha na construção de sua vida.
Isso é tudo o que sou capaz de lhe dizer hoje, caro senhor Kappus. Mas lhe envio junto uma cópia de um pequeno poema que foi publicado no  Deutsche Arbeit  de Praga. Nele continuo a lhe falar sobre a vida e a morte, sobre o quanto ambas são grandes e magníficas.
Seu,
Rainer Maria Rilke

(CONTINUA)

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