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terça-feira, 17 de setembro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (9)


Na vila de Furuborg - Sweden
Furuborg, Jonsered, Suécia,
4 de novembro de 1904

Meu caro senhor Kappus,

Nesse período que passou sem carta alguma, ora eu estava em viagem, ora tão ocupado que não pude escrever. Mesmo hoje me é penoso fazê-lo, porque já precisei escrever muitas cartas, de modo que minha mão está cansada. Se pudesse ditar, lhe diria muitas coisas, mas por escrito aceite poucas palavras em resposta à sua longa carta.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (7)

Roma,
14 de maio de 1904

Meu caro senhor Kappus,

Passou muito tempo desde que recebi sua última carta. Não me guarde rancor; primeiro foi o trabalho, depois uma perturbação e finalmente uma doença que me impediram de dar uma resposta que partisse (assim eu queria) para o senhor de dias calmos e agradáveis. Agora me sinto novamente um pouco melhor (o início da primavera, com suas transições cruéis e geniosas, também foi difícil por aqui) e venho cumprimentá-lo, caro senhor Kappus, e lhe dizer (o que gosto muito de fazer) uma ou outra coisa sobre sua carta, da melhor maneira que posso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (6)

Voltamos às "Cartas a um jovem poeta", escritas por Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas do século XX. 

23 de dezembro de 1903
Meu caro senhor Kappus,

O senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas  uma  solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para  cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas,  porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.

sábado, 18 de maio de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (I)

A carta aqui transcrita é de Rainer Maria Rilke, poeta tcheco que escreveu em Alemão. As cartas foram endereçadas a Franz Kappus, um jovem indeciso entre seguir a carreira militar ou a literária.

Cartas a um jovem poeta (Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.