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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (10)

Paris,
dia posterior ao Natal, 1908

O senhor deve saber, caro senhor Kappus, como estou alegre por ter
em mãos esta sua bela carta. As notícias que me dá, reais e explícitas como são desta vez, parecem-me boas, e quanto mais considero o assunto, mais as percebo como sendo boas de fato. Na verdade, pretendia lhe escrever isso para a noite de Natal, mas, em função do  trabalho variado ao qual dedico minha vida ininterruptamente neste inverno, a velha festa chegou tão depressa que mal tive tempo para tomar as providências necessárias, muito menos para escrever.
Entretanto pensei no senhor muitas vezes nesses dias festivos e fiquei imaginando como devia estar em seu forte solitário, entre as montanhas isoladas, sobre as quais se precipitam aqueles grandes ventos do sul, como se quisessem devorá-las.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (9)


Na vila de Furuborg - Sweden
Furuborg, Jonsered, Suécia,
4 de novembro de 1904

Meu caro senhor Kappus,

Nesse período que passou sem carta alguma, ora eu estava em viagem, ora tão ocupado que não pude escrever. Mesmo hoje me é penoso fazê-lo, porque já precisei escrever muitas cartas, de modo que minha mão está cansada. Se pudesse ditar, lhe diria muitas coisas, mas por escrito aceite poucas palavras em resposta à sua longa carta.

domingo, 8 de setembro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (8)


Flädie Hotels - Sweden
Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,
12 de agosto de 1904
Quero conversar de novo com o senhor por um momento, meu caro Kappus, embora não possa dizer quase nada que o ajude, quase nada de útil.
O senhor teve muitas e grandes tristezas que passaram. E diz que mesmo esta passagem foi  difícil e perturbadora. Mas, por favor, avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se
transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste. Só são ruins e perigosas as tristezas que
carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se acumulam no íntimo e  constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (7)

Roma,
14 de maio de 1904

Meu caro senhor Kappus,

Passou muito tempo desde que recebi sua última carta. Não me guarde rancor; primeiro foi o trabalho, depois uma perturbação e finalmente uma doença que me impediram de dar uma resposta que partisse (assim eu queria) para o senhor de dias calmos e agradáveis. Agora me sinto novamente um pouco melhor (o início da primavera, com suas transições cruéis e geniosas, também foi difícil por aqui) e venho cumprimentá-lo, caro senhor Kappus, e lhe dizer (o que gosto muito de fazer) uma ou outra coisa sobre sua carta, da melhor maneira que posso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (6)

Voltamos às "Cartas a um jovem poeta", escritas por Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas do século XX. 

23 de dezembro de 1903
Meu caro senhor Kappus,

O senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas  uma  solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para  cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas,  porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.

terça-feira, 16 de julho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (5)

Florença
As cartas já percorreram praticamente todo ano de 1903, e Rilke, um dos maiores poetas do século XX continua o mesmo tratamento cortês para com Franz Xaver Kappus, o jovem poeta. A carta de hoje é a de número 5.

Roma, 29 de outubro de 1903
Caro e prezado senhor,
Recebi sua  carta de 29 de agosto em Florença, e só agora  -  depois de dois meses  -  falo dela. Perdoe-me essa lentidão, mas não gosto de escrever cartas durante as viagens, porque para fazê-lo preciso de algo além dos apetrechos indispensáveis: um pouco de quietude e  solidão e uma hora que não seja de completa estranheza.

sábado, 29 de junho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (4)

Continuemos a leitura das "Cartas a um jovem poeta", daquele que foi um dos maiores poetas do século XX.

Temporariamente em Worpswede,
perto de Bremen,
16 de julho de 1903

Há mais ou menos dez dias deixei Paris, bastante indisposto e cansado, e viajei para uma grande planície nórdica, cuja amplidão e tranqüilidade e céu deveriam me restituir a saúde. Entretanto me deparei com um longo período de chuva, que só hoje começa a clarear um pouco sobre esta terra em que o vento não pára de soprar; e eu faço uso do primeiro instante de claridade para
saudá-lo, meu caro.

sábado, 1 de junho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (3)

E continuamos com as palavras daquele que foi talvez o maior poeta do século XX, em seu livro Cartas a um jovem poeta.

Viareggio perto de Pisa (Itália),
23 de abril de 1903

Fiquei muito alegre, caro e prezado senhor, com sua carta de Páscoa,
pois ela diz muitas coisas boas a seu respeito. O modo como o senhor falou da grande e amável arte de Jacobsen demonstrou que não me enganei ao encaminhar sua vida e suas várias questões em direção a essa abundância.

Agora o senhor descobrirá  Niels Lyhne,  um livro das glórias e das
profundezas; quanto mais a gente  o lê, parece que tudo se encontra nele, do mais leve perfume da vida até o gosto pleno e carregado de seus frutos mais pesados. Ali não há nada que não tenha sido entendido, apreendido, experimentado e reconhecido nas ressonâncias vibrantes da lembrança; nenhuma vivência foi ínfima demais, e o menor acontecimento se desdobra como um destino, o próprio destino é como um tecido maravilhoso, amplo, no qual cada fio é conduzido por dedos de uma delicadeza infinita, posto ao lado de outro fio, ligado a centenas de outros que o sustentam.

sábado, 25 de maio de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (2)

Viareggio perto de Pisa (Itália),

5 de abril de 1903
É preciso que me perdoe, caro e prezado senhor, por só lembrar agora, com gratidão, de sua carta de 24 de fevereiro: passei todo esse tempo indisposto, não  exatamente adoecido, mas como que oprimido por um abatimento parecido com o da  influenza,  que me deixou prostrado, incapaz para tudo. Por fim, já que não melhorava, viajei para este mar do sul, cujo efeito benéfico já me ajudou uma vez. Mas ainda não estou saudável, escrever ainda é algo difícil, sendo assim o senhor deve considerar estas poucas linhas como se fossem muitas.

Deve ter certeza de que sempre me alegrará com cada carta, só tem de ser indulgente em relação à resposta, que talvez venha a deixá-lo muitas vezes de mãos vazias. Pois, no fundo, e justamente quanto aos assuntos mais profundos e mais importantes, estamos indizivelmente sozinhos, de modo que muita coisa precisa acontecer para que um de nós seja capaz de aconselhar ou mesmo ajudar o  outro, muitos êxitos são necessários, toda uma constelação de acontecimentos tem de se alinhar para que isso dê certo alguma vez.

sábado, 18 de maio de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (I)

A carta aqui transcrita é de Rainer Maria Rilke, poeta tcheco que escreveu em Alemão. As cartas foram endereçadas a Franz Kappus, um jovem indeciso entre seguir a carreira militar ou a literária.

Cartas a um jovem poeta (Primeira carta)
Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.