quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (118)

Popper
Estabilidade e mudança no sistema literário

O sistema literário não surge do nada, não é reinventado ao gosto de cada autor/emissor. Ele tem sua memória, e existe diacronicamente, numa espécie de sequência de vários momentos (sua extensão sincrônica) diferentes entre si, mas que mantêm uma linha de invariância a que os autores devem obedecer.
Transcrevo um parágrafo do livro que vimos acompanhando, em sua página 270:
"A homeostase do sistema semiótico literário representa uma condição indispensável da comunicação literária, pois que sem ela, tornar-se-ia radicalmente aleatória a produção literária, desapareceria o fundamento da intersecção parcial dos códigos dos emissores e dos receptores, careceria de sentido o ensino da literatura, etc. Sem homeostase, em rigor, dissolver-se-ia o próprio sistema semiótico literário."

Ou seja, sem um núcleo invariante, seria impossível entender o que poderia ser literatura.
E neste sentido, levam-se em conta elementos extra-literários, como crenças religiosas, cerimônias rituais, folclore, que se mantêm por séculos, como marcas sêmicas e/ou formais, como por exemplo, alguns tópicos - motivos, temas e esquemas formais que nos chegam de textos gregos, invadem a Idade Média e atingem a contemporaneidade. Tópicos como o bucólico, do neoclassicismo, o das ruínas, no Romantismo, caracterizam períodos da literatura, mas são substituídos.
Mas se há necessidade de um núcleo invariante, é também necessária a ruptura.
Eis o que nos diz o Professor Vítor Manoel na página 271:
"A regularidade homeostática de um sistema literário prolongando-se no tempo, provoca a usura das suas unidades semióticas, a rigidez das normas e convenções do seu código, o exaurimento da sua metalinguagem e a uniformização progressiva das respostas dos receptores aos textos regulados por esse sistema, com o consquente debilitamento das dimensões sintáctica, semântica e pragmática da semiose literária, isto é, com a consequente diminuição da capacidade modelizante do sistema."
E na sequência:
"A contraposição de velhos e novos, de antigos e modernos, ocorrente múltiplas vezes no decurso da história, reflecte o conflito entre a tendência homeostática dos sistemas culturais e a exigência  auto-renovadora..."
E para terminar:
"Mesmo que não se aceite qualquer modalidade forte de determinismo ou qualquer explicação de tipo monista, idealista ou materialista, da fenomenologia cultural, não é possível ignorar a relevância daquele conjunto de factores que Karl Popper designou por 'lógica das siturações' e cujo influxo na mudança ou na estabilidade de um sistema semiótico é analisável quer em termos de acção intersistémica, quer em termos de acção extra-sistémica."

(C0NTINUA)

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