Romance
- 2011 - Os Hungareses
(Fonte: Wikipedia)
Abaixo, segue o conto A Roda do Mundo, que a Suzana nos enviou.
A RODA DO MUNDO
SUZANA MONTORO
Edna entrou no carro chorando e eu
comecei a falar devagar, a tentar contar como tinha sido, as palavras saindo de
maneira desconexa, nesses momentos parece que pouco importa o que se diga. Já
pela manhã ao telefone bastou dizer o nome dele, bastou dizer Lúcio e Edna já
intuiu o que eu iria falar, nada perguntou por que não poderia, mas percebi que
continuava me escutando, ouvi o muxoxo que traduziu seu espanto e logo vieram
os soluços, eu disse que passaria para pegá-la e quando entrou no carro continuava
chorando. Se pudesse, ela me pediria para contar como foi que aconteceu. Olhei
para aqueles olhos espantados por onde transbordava sua mudez e fui dizendo palavras
soltas, entrecortadas, faltou coragem para a verdade nua e crua, as bochechas
dela úmidas, eu não chorava, mas compartilhávamos a mesma incredulidade teimosa
e óbvia diante da morte. Num momento em que parei de falar, olhei a expressão
consternada de Edna e, mesmo sendo muito amigo de Lúcio, me perguntei como era
possível que ela continuasse tão encantada por ele depois de tudo. Poderia ter
colocado a mão no seu ombro, poderia ter dado um lenço para que enxugasse as
lágrimas, poderia abraçá-la e dizer tudo o que sempre quis, mas não fiz nada
disso, dei partida no motor e deixei que a atenção na estrada nos conduzisse ao
cemitério. Eu calado, ela chorando. Tínhamos um longo trajeto a percorrer,
horas de viagem que de uma maneira ou de outra seriam preenchidas.
Era
um dia claro de inverno, um sol ameno que poderia nos aquecer não fosse o vento
frio. Edna fez menção de abrir a janela, depois mexeu no console e colocou um
CD. Aumentei o volume, Lúcio gostava de ouvir música bem alta, escutar baixo
para quê, nada o deixava mais irritado do que conversar enquanto escutava música.
Ele era assim, definitivo e arrogante em suas preferências, o que os outros
queriam não lhe dizia respeito. Nós os amigos já estávamos acostumados com seus
hábitos extravagantes, convivíamos a tanto tempo que pouco importava como cada
um era, apenas nos divertíamos quando ele determinava que o mundo sairia da
órbita sem a sua presença. Coisas de amigos, que se nutrem das excentricidades
de um e de outro e vão até o limite das brincadeiras sem saber onde a piada
deixou de ser piada e então o que antes era motivo de gozação já não podia mais
ser ridicularizado porque Lúcio passou a nos olhar com estranhamento cada vez
que falávamos da sorte que ele tinha por despertar paixões arrebatadoras e ser
um cara tão atraente. Lúcio era belo, o mais belo dos homens, como dizia sua
mãe, e talvez por isso Edna tenha se apaixonado, por aquela beleza indiscutível
de formas e proporções perfeitas, ela, que tinha sido uma mulher quase tão bonita
quanto, estava agora pele e osso, parecia não se alimentar de nada desde que
fora rejeitada por Lúcio. Olhei-a com ternura sentada ao meu lado, a cabeça
recostada no banco, os olhos fechados, reclusa numa mudez em que ecoava apenas
o amor que nutria por Lúcio. Tantas paixões despertadas e a nenhuma ele
retribuiu. Mais uma de suas extravagâncias a que não fizemos caso.
Na
metade do caminho paramos para um café. Eu sabia que não tínhamos muito tempo,
mas meu desejo era de ficar naquele lugar para sempre, olhando os carros
passando e conversando com quem chegasse, entregue a uma vida alheia só para
não ter de enfrentar a cadência asfixiante daquela viagem, Edna e eu, juntos e calados.
Estávamos
de volta à monotonia da estrada. Eu ia entretido nos pensamentos quando Edna
cutucou meu braço e olhou interrogativa, a mudez era compensada por uma
precisão de gestos e expressões que traduziam de maneira inequívoca seus
pensamentos: queria saber como tudo tinha acontecido. Como contar a ela. Como
revelar aquela verdade tão íntima de Lúcio. Talvez eu não quisesse contar nem
mesmo a mim o que nós nunca dissemos um ao outro, o que nenhum amigo disse nem
no momento mais licencioso da raiva, éramos todos de alguma maneira culpados,
cúmplices de uma beleza tão resplandecente quanto inútil. O entorpecimento do
amor que Lúcio nutria por si mesmo nos tornou passíveis e lânguidos e, na
camaradagem da amizade, não nos demos conta de que há muito ele extrapolava os
limites do amor próprio admirando unicamente o espelho de si mesmo. Lúcio
afogara-se na noite anterior, deixando uma carta em que revelava a falta de
entusiasmo para viver num mundo em que não amaria ninguém que não fosse ele
mesmo.
Quando
chegamos ao cemitério, a cerimônia do enterro já havia terminado. Não tivemos
dificuldade de encontrar o local em que o corpo de Lúcio estava sepultado, a
terra recém-mexida, o cheiro das flores e a atmosfera de pesar que se demora um
pouco mais. Eu não tinha contado a verdade a Edna, mas ela parecia saber.
Afastou-se por alguns minutos e voltou trazendo nas mãos um buquê de flores
amarelas e brancas que carinhosamente ajeitou naquele pedaço delimitado de
grama. A mudez do gesto simples traduzia a sina do amado.
Na
viagem de volta, Edna e eu permanecíamos atentos à estrada. Um trecho que
estava sendo recapeado resultou em congestionamento e ficamos parados por longo
tempo. O cansaço da viagem, o atordoamento da emoção e o estado de torpor
diante do susto da morte deixaram-nos tão exaustos quanto inertes. Não foi
preciso mais do que uma troca de olhares para que eu entrasse na bifurcação que
levava a um hotel. Era uma espécie de resort, caro para nossas possibilidades,
mas estávamos num ponto em que não há escolhas a serem feitas, apenas deixar-se
conduzir pelo que se apresenta, uma maneira de seguir com soltura o unicamente
agora. Uma festa de casamento lotava o hotel. Recebidos como convidados, fomos
presenteados com um cartão de boas vindas dos noivos e encaminhados para o
quarto. Sem surpresa nem constrangimento, fomos direto para a cama e nos
abraçamos. A roda do mundo seguia girando em sua órbita.

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