a liberdade de nunca mais sair daqui
quando a vida se condensa em um movimento
é igual àquela outra vez, há tanto tempo, havia um enorme luminoso
no topo do prédio perto do cais do porto piscando vermelho,
iluminando e apagando-se em sucessões de claro-escuro na água-furtada
do casarão, pé direito alto, passei a noite toda com ela, é
claro que pelo
prazer, também pelo vento fresco de mar entrando pelos enormes vitrôs, por ser
desproporcional o espaço todo, hipnótico com aquelas luzes vermelhas
fazendo-nos brilhar em intervalos de segundos ao rebaterem sobre nossos corpos
no êxtase animal reencontramos a parcela do divino em nós
lençóis, segmentos da eternidade
sentimos sede, é quase meia-noite
confundimo-nos, a nós e o sonho
eu me lembro dos rios, do seu olhar, das montanhas que derretem como
manteiga ao sol,
eu me lembro da hora do relâmpago e do trovão, dos cálices, das caras,
da planície desarvorada,
eu me lembro dos doces arpejos da poesia do inconsciente,
eu me lembro de tumultos atrás de portas semicerradas
- marcar um novo encontro, na próxima quarta-feira

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