É ASSIM QUE PEGA
(Cláudio Willer)Blog de Literatura do escritor Menalton Braff, autor de 26 livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2000.
Páginas
- ALÉM DO RIO DOS SINOS
- AMOR PASSAGEIRO
- Noite Adentro
- O Peso da Gravata
- Castelo de Areia
- Pouso do Sossego
- Bolero de Ravel
- Gambito
- O fantasma da segundona
- O casarão da Rua do Rosário
- Tapete de Silêncio
- À sombra do cipreste
- Antes da meia-noite
- Castelos de papel
- A coleira no pescoço
- Mirinda
- A Muralha de Adriano
- Janela aberta
- A esperança por um fio
- Na teia do sol
- Que enchente me carrega?
- Moça com chapéu de palha
- Como peixe no aquário
- Copo vazio
- No fundo do quintal
- Na força de mulher
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
PERSONAGENS
(Ruth do Carmo)
Por caminhos da memória,
você bate portas, pai.
E eu, criança, procuro-te no escuro
das ruas onde tudo já está fechado.
A mão da mãe põe forças em mim,
enquanto te procuramos e é meia-noite.
Era uma vez noites assim...
Hoje há verdades maiores no músculo vermelho.
E talvez alguma espécie de perdão.
Já passou. Já passou...
E já parecemos personagens.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
(Carlos Bueno Guedes)
ali estava meu corpo entre cordas
como se estivesse num chiqueiro do poder,
pago para apanhar
o cinto de ouro de meu rival
tinha o brilho do ódio,
olhava fundo,
sacudia as luvas ,
no primeiro round
um golpe na minha nuca,
os covardes se escondem atrás do poder,
a plateia delira,
me seguro nas cordas,
as pernas bambas,
no segundo round procuro dançar,
prolongar o ritual,
abro as guardas
uma pancada no nariz,
senti que o sangue escorria
a plateia aplaudia
encostei no corner
o batedor escapava escarnio,
senti minha fragilidade
de ser apenas humano,
o corpo ainda suportava,
perdi o equilíbrio
cai e me levantei
no corpo os golpes duros da opressão fotografias de um tempo
vivido sofrido angustiado
no terceiro round
algodão eram como neves de meus sonhos,
a dignidade me mantinha em ser resistência,
meus golpes não atingiam
eram danças no vazio do ringue,
ali estava assombrados dos golpes,
agarrava o adversário, dançava de pernas cansadas,
até o quarto round
quando a plateia urravam
o fim
ainda pude sentir
que toda resistência saia de meu equilíbrio,
ainda pude saber que estava caindo
dentro de um negro abismo
em que o poder me enviou,
para sofrer na carne
uma queda que nunca terminaria !
* (poesia imaginada dentro de um hospital, o poeta tem que estar dentro de seu tempo, poesia a pensar em todos os grandes poetas que convivem comigo e ao grande autor meu irmão do longe Afonso Valente Batista , grande escritor português, brevemente a ser editado no Brasil ! As palavras vieram como golpes e fico desacertado de tombar entre elas ! Escrito em 14/9/2020
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
Tocaia ou a cidade e seu nome
(domingos moreira)Tropeiros e jagunços se foram
coronéis permanecem do poder local ao Palácio do Planalto
Querem ver a cidade crescer e dividir suas desigualdades
Personagens obscuras trancadas em seus mundos
sem nada permitir ou partilhar
que não seja dor e ódio
Ficção e realidade
uma não é a outra
Mulheres fortes e livres
ou melhor mulheres
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
O voo dentro do ovo
(Mara Senna*)Há uma luz no fim do túnel
e não é um trem em direção contrária.
Há uma canção em meio ao caos,
e não é um acaso.
São vozes que entornam suavidade
nesses dias maus.
Encosta teu ouvido no chão e escuta os passos,
cada vez mais próximos.
Há um caminho novo que pulsa,
como se fosse o voo dentro do ovo,
Há um bater de asas, inédito,
como se fosse o céu a ser inaugurado
dentro do pássaro.
* in O quarto da memória, Editora Patuá, 2019
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
Gosto das imensidões que brotam das pessoas. Outro dia chovia um verso tímido na boca de uma mulher. Pensei em lhe emprestar um sol que carregava no bolso. Pouco entendo de sol. Mas acendo palavras quando me sinto sozinho. Daí o sol no bolso, o medo de anoitecer como uma ausência.
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
A CRIAÇÃO DE ADÃO
(a Michelangelo)
Raquel Naveira
Fascinante a imagem
Do primeiro homem,
Pura manifestação,
Sujeito e objeto
Das mãos de Deus.
No afresco da capela,
Do lado direito,
O Velho,
De barba e cabelos brancos,
Peito aberto,
Entronizado ao centro de uma concha,
Um crânio,
Um cérebro perfeito:
Glândula partida ao meio,
Recheada de anjos,
Miolos,
Nervos.
Sobre seu ombro,
Os olhos de uma mulher ruiva
Na expectativa
De vir a ser Eva.
Do lado esquerdo,
Um jovem,
O corpo dobrado,
Mergulhado
No verde de um prado,
Lânguido,
Estendendo a mão fraca.
Entre os dedos indicadores
De Deus
E do moço
Há um espaço,
Um vazio,
Uma trinca,
A falta de um osso.
Um toque
E haverá dom,
Conhecimento,
Linguagem,
Visão,
Energia,
Modelação de argila,
Vísceras,
Espírito,
Lampejos da mente,
Adâmica criação.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
IX
(João Augusto)“Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.”
(Fernando Pessoa, por Bernardo Soares, em O livro do desassossego)
Escutei que alguns lugares se movem
dentro de nós.
Vou me desfazendo de mim,
enquanto escrevo.
Para que o que tenha que passar, passe.
Mas guardo o que se prende em cada instante,
por medo de que me falte a sorte da eternidade.
Sou o mar irrompendo entre as fases da lua:
ao passo que cresço, minguo e recomeço.
O amor suspenso no peito do poeta.
No amor, em qualquer posição,
estamos sempre suspensos.
A vida a lavar o seu destino,
o meu destino, como Pessoa varria
as folhas da calçada,
nas manhãs portuguesas.
Não há nada que dure
nesses tempos estranhos.
Teu nome à sombra da paz e
dos pássaros.
Escrevo o fruto seco da poesia.
Ouve a voz dos sinos antigos.
Sigo, mesmo hoje,
o zepelim que sobrevoou
o meu passado.
Do que me é são,
tenho por certo que
minhas fadas envelheceram.
E estou tão velho
que já me ameninei de novo.
Traducere, do latim: conduzir,
pela mão, a algum lugar.
Onde há o verbo, um poeta é deus,
mesmo em seu ridículo universo.
Onde há gravidade, um aviador é deus,
mesmo que dentro de uma máquina.
Onde há a fantasia de amar,
qualquer um pode ser deus,
e fazer com que novos lugares se encontrem,
ainda que perdidos, no meio de nós.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
Soneto da casinha verde
(Lincoln Campos de Carvalho)
Quando estavas
aqui, te via de um jeito moleque,
moleca que tu eras, de ar serelepe,
de roupas alegres e meninice escaldante,
bochecha rosada e olhos brilhantes.
Levavas no rosto um sorriso estampado,
brincavas de roda de cabelo trançado,
de pernas magras na areia macia
tocavas os que vinham com tua alegria.
Choravas baixinho, querias subir no telhado,
parecias mais um menino a correr no cerrado
descalça com tuas sardinhas, a brincar por aí.
Eras a mais arteira e a mais bonita,
moravas numa casinha verde, esquisita,
a mais pobre, a mais rica... a mais bela que já vi!
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
MANTEIGA
(Jared F. Baungartner)
Temos apenas doze dias,
desgastem suas expectativas.
Não há segredos.
Do outro lado
tudo é igual
As mesmas pandemias (e pendências)
mostrando aos monstros
que conduzem o racional,
quantos fins do mundo
teremos que viver
para compreender
que o homem
é mais a rasura
do que a evolução.
DEVERIA SER?
Sou manteiga derretendo
sem pretensão.
Sou apenas ebulição.
Manteiga derretendo no chão...
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
NOIVA*
(Raquel Nveira)
Casei-me com um ipê branco,
Suas raízes fincaram-se em meu sexo,
Suas ramagens
Se espalharam pelos meus seios,
Formaram guirlandas
No meu pescoço
E um véu sobre meus ombros.
Penetrei passiva
Num mar de leite
E lavandas.
A noite era de lua,
De bruma
E de glacê.
* Poema do livro ALMA DE IPÊ - Ia PARTE: IPÊS BRANCOS
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
PREPARO
(Ruth do Carmo)
O vestido de minha mãe
suavemente dança
no varal envelhecido.
Daqui observo as flores amarelas
que vieram ontem
fazer companhia às vermelhas.
Recém-chegadas, prometem vida.
A cada dia, aos poucos,
minha mãe esvai-se de mim,
na lentidão que anuncia partidas.
Sei que me prepara para quando serei,
de mim mesma,
absolutamente,
meu pai e minha mãe.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
dandaras
quarta-feira, 22 de julho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
SALDO
(Ernane Catroli)Herdei - intacta - a casa
Um latejar
Mil culpas
Carrego a casa
e o que se equilibra
sob os ecos
de outras distâncias
Toda a tua ausência
quarta-feira, 15 de julho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.”(Charles Baudelaire, em A uma passante)
quarta-feira, 8 de julho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
É ASSIM QUE PEGA
(Cláudio Willer)1
Um hotel pode ser o navio fantasma.
Uma árvore, xamânica.
O que dizer de corpos estranhos? Estão aí, sempre.
E dos milagres da síntese?
Não, não é viajar no sentido de deslocar-se de um lugar a outro ou de estar em uma
cidade, um lago, enseada, montanha – porém do estado alucinatório que sobrevém e a
mais íntima sensação de não estar aqui e haver ido além.
Eu não morri em uma queda de avião
não me arrebentei na estrada
não me afoguei ao atravessar o rio Paranapanema cheio a nado
e aquele barco no canal de Ilhabela não virou nem foi levado pela correnteza
– acho tudo estranho, como foi possível..?
Sobram uns poemas, uma relatos de alucinações sólidas, mapeadas.
O natural é o verdadeiro sobrenatural.
quarta-feira, 1 de julho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
A dor da gente
(Sandra Modesto*)A dor da gente
Um nó no peito em dó maior.
Depois os exames. Não tem mais jeito.
Cenário inesperado...
O sono profundo que enterra. Encerra.
Não há despedidas. Solidão.
Desnorteada. Sem velórios.
Dor de verdade não cabe num noticiário.
Não cabem nos jornais, os choros, gritos, a soma certa.
A estrada infinita do estranho mundo.
Valas. Não há vagas. Há marcas. Rimas perdidas.
Tudo vai passar? A dor de toda a gente, não.
O governo. O desmazelo com o povo.
Nada. O povo é nada.
A dor do mundo não cabe numa poesia.
E daí?
Daí o espasmo.
No próximo domingo
Quantas mães mortas?
Quantas mães arrumando o quarto...
Do filho que já morreu.
Tudo isso eu rasgo em lágrimas.
Eu vou silenciar o presidente.
Deixar de seguir o presidente.
Bloquear o presidente.
E daí? Eu me entrego ao acalanto de um amor:
_ Mãe, perdão. Ele não sabe nada de dor. A gente sabe.
*Mineira de Ituiutaba, professora aposentada precocemente. Graduada em Letras, pós – graduada em Educação. Dois livros publicados: Acenda a luz (prosa poética, editora Kazuá, 2015) e Tudo em mim é prosa e rima (Autografia, 2019). Cronista do CRÔNICA DO DIA e do JORNAL DE CARUARU. Poemas publicados em duas antologias: Elas e as letras, diversidade e resistência, editora Versejar e Ruínas- editora Patuá. Contato: modestosandralucia@gmail.com
quarta-feira, 24 de junho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
O bolo de fubá é minha madeleine proustiana, que convoca o passado e me remete à lembrança da minha MÃE e seu inesquecível bolo.BOLO DE FUBÁ
(Vasco Pereira de Oliveira)Farelos sobre a mesa.
Gosto de erva-doce
como um fundo musical
fluindo fundo da memória.
No abismo do tempo
o cheiro da canela em pó
levemente espalhada com açúcar.
Nossos mortos nunca morrem completamente,
estão guardados em nossa caixa de sapatos.
Habitam fotografias desbotadas
de onde nos olham com olhos baços pelo tempo.
A ausência é uma cadeira vazia à mesa
onde pardais recolhem migalhas
de um bolo de fubá.
quarta-feira, 17 de junho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
MISCIGENAÇÃO
(Shellah Avellar)
Como se fosse uma guerra
O BRANCO,O NEGRO,
O AMARELO E O VERMELHO
Se digladiam...
Entretanto Estas mil faces
Têm ímpetos de céu
E olhos cheios de estrelas...
VOCÊ SOU EU
EU SOU VOCÊ
Talvez não faça sentido...
Quantos pulos são precisos
Para juntos darmos um salto?
E podermos ser
Tudo o que quisermos.
Abrindo a página
Em branco e preto
Para que todas as cores
Pinguem e se misturem.
E os pontos de vista
E acordes dissonantes
Se harmonizem
Em um único e vigoroso SOM
MISCIGENAÇÃO
(Shellah Avellar)
Como se fosse uma guerra
O BRANCO,O NEGRO,
O AMARELO E O VERMELHO
Se digladiam...
Entretanto Estas mil faces
Têm ímpetos de céu
E olhos cheios de estrelas...
VOCÊ SOU EU
EU SOU VOCÊ
Talvez não faça sentido...
Quantos pulos são precisos
Para juntos darmos um salto?
E podermos ser
Tudo o que quisermos.
Abrindo a página
Em branco e preto
Para que todas as cores
Pinguem e se misturem.
E os pontos de vista
E acordes dissonantes
Se harmonizem
Em um único e vigoroso SOM
quarta-feira, 10 de junho de 2020
CANTIGAS DE AMIGOS
(Poema de Luiz Ruffato)Exilado entre as quatro paredes do meu quarto
Tendo por única companhia
O ancestral silêncio dos meus gatos
Acompanho imperturbável
O naufrágio lento do imenso barco
Que outrora eu chamava utopia
Sei que por detrás das cortinas da janela
Há rangidos, gritos, alvoroço
Mas meu corpo se recusa a ir até ela
Pois sondar o insondável
Não traria de volta o meu querê-la
E aguardo calmo a água me alcançar o pescoço
Eu idealizei futuros impossíveis, até quis
Abraçar as multidões, amar o estranho
Mas tudo que aqui finquei, toda raiz
Mostrou-se frágil, inviável
Percebo tarde demais que daquele país
Nada mais resta, nada ficou, nem mesmo o sonho










