Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site.
Autor: José de Sousa
Saramago
A obra
Memorial do Convento
Duas histórias que se entrelaçam. De um lado, conta-se a
história de D. João V e sua esposa Dna. Maria Ana Josefa, que não podiam ter
filhos.
Para que isso acontecesse, o rei promete construir, para os
franciscanos, um Convento, em Mafra, como jamais houvera outro. O Convento é construído
e o príncipe herdeiro nasce.
> Rei, rainha e D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor -
formam o trio principal do grupo de personagens que representam o poder: -
temporal (trono) e espiritual (cruz).
> A outra história tem como protagonistas:
- Baltasar Mateus, o Sete-Sóis = o homem e suas tragédias.
- Blimunda = o homem e sua inteligência.
- Padre Bartolomeu Lourenço = o homem e seus sonhos.
O Padre Bartolomeu Lourenço (brasileiro, por
sinal=Bartolomeu de Gusmão, nascido na Bahia em 1685, o padre voador) sonha com
a liberdade, quer dizer, com a possibilidade de voar.
A Passarola, alegoria desse
sonho de liberdade (anti-inquisição) precisa de algo que ele não entende.
Procura uma feiticeira, mas esta não chega a lhe dizer o de que precisa e é
morta. Sua filha, Blimunda, tem também poderes mágicos (vê o interior das
pessoas) é quem acaba servindo àquilo de que precisa o padre. Finalmente, na
procissão em que a mãe de Blimunda desfila pela cidade, antes de morrer, o
Padre e Blimunda encontram Baltasar, que na guerra, a serviço do rei, havia
perdido a mão esquerda.
Baltasar e Blimunda unem-se como marido e mulher e são
contratados pelo padre Bartolomeu, para quem trabalham durante seis anos na construção
da Passarola.
Terminada a Passarola, em sigilo, por causa dos
inquisidores, os três voam, praticamente atravessando Portugal. O padre some,
depois de tentar o suicídio, incendiando a passarola. Se tenho de morrer
queimado, diz ele, pelo menos que seja por este fogo. Blimunda e Baltasar
evitam o acidente, mas nunca mais vêem o padre.
Viajam dois dias até Mafra, terra de Baltasar, de seus pais.
Os trabalhos de construção do convento vão adiantados, e Baltasar consegue
emprego nas obras. Periodicamente, ele e Blimunda vão até a montanha onde deixaram
a passarola camuflada.
O rei força o povo de várias maneiras a trabalhar
praticamente de graça na construção do convento. Milhares de pessoas são
arrastadas à desgraça para que o capricho real se realize. Muitos morrem
(transporte de uma pedra monstruosa) outros são mutilados, todos são miserabilizados.
Um dia, finalmente, em visita à passarola, Baltasar some.
Blimunda empreende uma viagem de nove anos (sul a norte, leste a oeste) por
todo o território português, atrás de seu amor. Já desanimada, sem esperanças mais
de encontrá-lo, vai a Lisboa. Estranha o movimento nas ruas e fica sabendo de
uma fogueira (espetáculo com que os inquisidores presenteiam a população de
Lisboa). Aproxima-se, então, e pasmada reconhece um dos homens que estão sendo
queimados vivos: é Sete-Sóis.
O autor
Filho e neto de camponeses, nasceu no concelho da Golegã, na
Azinhaga, província do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922.
• mudança para a Capital (2 anos de idade)
• estudos (liceal e técnico)
• profissões: serralheiro mecânico, desenhador, funcionário
público (saúde e previdência social), editor, tradutor, jornalista, crítico
literário - escritor (1976)
• primeiro romance: Terra do pecado (1947)
• publicação de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e
exílio voluntário em Lanzarote, Espanha (Ilhas Canárias).
• Prêmios: 1o. - Prêmio Cidade de Lisboa, 1980 - Levantado
do chão Penúltimo - Prêmio Camões, 1995 - Conjunto da obra Último - Prêmio
Nobel da Literatura, 1998 - Conjunto da obra.
• Em 1969 filia-se ao Partido Comunista Português,
declara-se ateu.
Conjunto da obra
Poesia - Crônica - Viagens - Teatro - Diário - Conto -
Romance
• Terra do Pecado
• Manual de Pintura e Caligrafia
• Levantado do Chão
• Memorial do Convento *
• O Ano da Morte de Ricardo Reis
• A Jangada de Pedra
• História do Cerco de Lisboa
• O Evangelho Segundo Jesus Cristo
• Ensaio sobre a Cegueira
• Todos os Nomes
O estilo
• Pontuação particularíssima: fluência, ritmo.
• Construção sintática: Barroco > hipérbatos; construções
anafóricas; palavras coesivas;
Levantado do chão Então chegou a república. Ganhavam os
homens doze ou treze vinténs, e
as mulheres menos de metade, como de costume. Comiam ambos o
mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos. A república
veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia,
recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que
sempre foi o mais fácil. O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este
reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de
azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.
Viva a república, Viva. Patrão, quanto é o jornal agora,
Deixa ver, o que os outros pagarem, pago eu também, fala com o feitor, Então
quanto é o jornal, Mais um vintém, Não chega para a minha necessidade...
• Matéria: realismo fantástico, mundo onírico, ironia, o
homem e suas perplexidades.

BRaff, Memorial do COnvento é muito bom. Amei ler esse livro e concordo com sua análise da obra. Há momentos hilários e sarcásticos e momentos de intensa tragédia na construção dessa obra "elefante branco" (hoje a achamos bela!) que dizimou tanta gente... construtores anônimos, como dizia BRechet!
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