terça-feira, 15 de novembro de 2016

ESPIANDO POR DENTRO

Esta coluna reúne análises literárias escritas por Menalton Braff e publicadas originalmente em seu site

Livro Analisado: Memorial do Convento
Autor: José de Sousa Saramago

A obra

Memorial do Convento

Duas histórias que se entrelaçam. De um lado, conta-se a história de D. João V e sua esposa Dna. Maria Ana Josefa, que não podiam ter filhos.

Para que isso acontecesse, o rei promete construir, para os franciscanos, um Convento, em Mafra, como jamais houvera outro. O Convento é construído e o príncipe herdeiro nasce.

> Rei, rainha e D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor - formam o trio principal do grupo de personagens que representam o poder: - temporal (trono) e espiritual (cruz).

> A outra história tem como protagonistas:
- Baltasar Mateus, o Sete-Sóis = o homem e suas tragédias.
- Blimunda = o homem e sua inteligência.
- Padre Bartolomeu Lourenço = o homem e seus sonhos.

O Padre Bartolomeu Lourenço (brasileiro, por sinal=Bartolomeu de Gusmão, nascido na Bahia em 1685, o padre voador) sonha com a liberdade, quer dizer, com a possibilidade de voar. 


A Passarola, alegoria desse sonho de liberdade (anti-inquisição) precisa de algo que ele não entende. Procura uma feiticeira, mas esta não chega a lhe dizer o de que precisa e é morta. Sua filha, Blimunda, tem também poderes mágicos (vê o interior das pessoas) é quem acaba servindo àquilo de que precisa o padre. Finalmente, na procissão em que a mãe de Blimunda desfila pela cidade, antes de morrer, o Padre e Blimunda encontram Baltasar, que na guerra, a serviço do rei, havia perdido a mão esquerda.

Baltasar e Blimunda unem-se como marido e mulher e são contratados pelo padre Bartolomeu, para quem trabalham durante seis anos na construção da Passarola.

Terminada a Passarola, em sigilo, por causa dos inquisidores, os três voam, praticamente atravessando Portugal. O padre some, depois de tentar o suicídio, incendiando a passarola. Se tenho de morrer queimado, diz ele, pelo menos que seja por este fogo. Blimunda e Baltasar evitam o acidente, mas nunca mais vêem o padre.

Viajam dois dias até Mafra, terra de Baltasar, de seus pais. Os trabalhos de construção do convento vão adiantados, e Baltasar consegue emprego nas obras. Periodicamente, ele e Blimunda vão até a montanha onde deixaram a passarola camuflada.

O rei força o povo de várias maneiras a trabalhar praticamente de graça na construção do convento. Milhares de pessoas são arrastadas à desgraça para que o capricho real se realize. Muitos morrem (transporte de uma pedra monstruosa) outros são mutilados, todos são miserabilizados.

Um dia, finalmente, em visita à passarola, Baltasar some. Blimunda empreende uma viagem de nove anos (sul a norte, leste a oeste) por todo o território português, atrás de seu amor. Já desanimada, sem esperanças mais de encontrá-lo, vai a Lisboa. Estranha o movimento nas ruas e fica sabendo de uma fogueira (espetáculo com que os inquisidores presenteiam a população de Lisboa). Aproxima-se, então, e pasmada reconhece um dos homens que estão sendo queimados vivos: é Sete-Sóis.

O autor

Filho e neto de camponeses, nasceu no concelho da Golegã, na Azinhaga, província do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922.
• mudança para a Capital (2 anos de idade)
• estudos (liceal e técnico)
• profissões: serralheiro mecânico, desenhador, funcionário público (saúde e previdência social), editor, tradutor, jornalista, crítico literário - escritor (1976)
• primeiro romance: Terra do pecado (1947)
• publicação de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e exílio voluntário em Lanzarote, Espanha (Ilhas Canárias).
• Prêmios: 1o. - Prêmio Cidade de Lisboa, 1980 - Levantado do chão Penúltimo - Prêmio Camões, 1995 - Conjunto da obra Último - Prêmio Nobel da Literatura, 1998 - Conjunto da obra.
• Em 1969 filia-se ao Partido Comunista Português, declara-se ateu.

Conjunto da obra

Poesia - Crônica - Viagens - Teatro - Diário - Conto - Romance
• Terra do Pecado
• Manual de Pintura e Caligrafia
• Levantado do Chão
• Memorial do Convento *
• O Ano da Morte de Ricardo Reis
• A Jangada de Pedra
• História do Cerco de Lisboa
• O Evangelho Segundo Jesus Cristo
• Ensaio sobre a Cegueira
• Todos os Nomes

O estilo

• Pontuação particularíssima: fluência, ritmo.
• Construção sintática: Barroco > hipérbatos; construções anafóricas; palavras coesivas;

Levantado do chão Então chegou a república. Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e
as mulheres menos de metade, como de costume. Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos. A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de boca em boca, que sempre foi o mais fácil. O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem.

Viva a república, Viva. Patrão, quanto é o jornal agora, Deixa ver, o que os outros pagarem, pago eu também, fala com o feitor, Então quanto é o jornal, Mais um vintém, Não chega para a minha necessidade...

• Matéria: realismo fantástico, mundo onírico, ironia, o homem e suas perplexidades.


Um comentário:

  1. BRaff, Memorial do COnvento é muito bom. Amei ler esse livro e concordo com sua análise da obra. Há momentos hilários e sarcásticos e momentos de intensa tragédia na construção dessa obra "elefante branco" (hoje a achamos bela!) que dizimou tanta gente... construtores anônimos, como dizia BRechet!

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