Crepuscular
(Mara Senna*)
Poentes: já vi tantos,
e de tantos encantos vestidos.
O lusco-fusco a brincar comigo
como olhos fugitivos
que ora me alumiam,
ora me deixam só,
no prenúncio da escuridão.
Poentes: já vi tantos,
e não me canso dos seus tons quentes
de paixão, de cores indizíveis.
O fugaz encontro do dia e da noite,
Poentes: já vi tantos,
o fogo do dia a queimar os últimos
pavios,
antes de a noite embarcar, absoluta,
em seus negros navios.
Nada vai ser igual quando a escuridão
chegar.
Nada será tão intenso quando o sol
raiar.
Nada se compara à plenitude desse
momento,
intenso e crepuscular.
Poentes: já vi tantos,
essa hora que é ao mesmo tempo,
beleza e incerteza,
chegada e partida.
E me pergunto, entre tantos
desenganos:
quantos ainda hei de ver
da janela imprevisível da vida?
*Poema que recebeu o terceiro lugar no
Prêmio Mário Sérgio Cortella 2016
da 16ª. Feira Nacional do Livro de
Ribeirão Preto

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