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sábado, 29 de dezembro de 2012

UM CONTO PARA O FIM DE SEMANA


(Do livro A coleira no pescoço, editado pela Bertrand Brasil)
         Alice e o Violoncelo

Um quarto só, quartinho, espremido entre uma claridade suja de outono e o cheiro forte de suor que a cama exalava: o lar. Um quarto atravancado de sons e objetos absurdos, sem lugar para a vida doméstica - o cubículo possível. Quando a noite começava a entrar pela janela, o quarto encolhia ainda mais - seu parco espaço encoberto pelas sombras. Nos dias em que não havia concerto nem ensaio, era a hora de Alice ocupar a cadeira ao lado da cama com a cintura do violoncelo presa entre os joelhos de calos grossos. 
Num acesso de ciúme, Heitor apertou os olhos e escondeu a cabeça debaixo do travesseiro, fingindo que dormia. Sem aquela música a cama seria intolerável, o quarto uma prisão infecta. Se tinha que suportar tantos exercícios enervantes durante o dia, era seu direito adormecer embalado pela música. Não tocava para os outros, sedutora? Ninguém com mais direitos sobre Alice do que ele, seu marido. Mas o modo como a mulher enlaçava o instrumento parecia-lhe despudoradamente sensual.