(Do livro A coleira no pescoço, editado pela Bertrand Brasil)
Alice e o Violoncelo
Um quarto só, quartinho, espremido entre uma claridade suja de outono e o
cheiro forte de suor que a cama exalava: o lar. Um quarto atravancado de sons e
objetos absurdos, sem lugar para a vida doméstica - o cubículo possível. Quando
a noite começava a entrar pela janela, o quarto encolhia ainda mais - seu parco
espaço encoberto pelas sombras. Nos dias em que não havia concerto nem ensaio,
era a hora de Alice ocupar a cadeira ao lado da cama com a cintura do
violoncelo presa entre os joelhos de calos grossos.
Num acesso de ciúme, Heitor apertou os olhos e escondeu a cabeça debaixo
do travesseiro, fingindo que dormia. Sem aquela música a cama seria
intolerável, o quarto uma prisão infecta. Se tinha que suportar tantos
exercícios enervantes durante o dia, era seu direito adormecer embalado pela
música. Não tocava para os outros, sedutora? Ninguém com mais direitos sobre
Alice do que ele, seu marido. Mas o modo como a mulher enlaçava o instrumento
parecia-lhe despudoradamente sensual.
