Blog de Literatura do escritor Menalton Braff, autor de 26 livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2000.
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- Gambito
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- À sombra do cipreste
- Antes da meia-noite
- Castelos de papel
- A coleira no pescoço
- Mirinda
- A Muralha de Adriano
- Janela aberta
- A esperança por um fio
- Na teia do sol
- Que enchente me carrega?
- Moça com chapéu de palha
- Como peixe no aquário
- Copo vazio
- No fundo do quintal
- Na força de mulher
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sábado, 10 de outubro de 2020
RETALHOS 2020 - A COLEIRA NO PESCOÇO
RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "A Coleira no Pescoço", lançado pela Bertrand Brasil, em 2016 e finalista do Prêmio Jabuti, em 2017.
domingo, 5 de abril de 2020
FRASE
domingo, 26 de janeiro de 2020
FRASE
Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. Para hoje, escolhemos uma de Anita, personagem de um dos contos da coletânea A coleira no pescoço, de Menalton Braff, lançada pela
Bertrand Brasil.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA,
O conto desta sexta é do próprio menalton e está publicado em seu livro A COLEIRA NO PESCOÇO.
Toda uma noite: o prêmio
Entra meio empurrado para o quarto e senta-se com a beirada do corpo sobre seu cansaço na cama estreita. Um peso. O mundo ali, com todos aqueles disfarces, quase impossível arrastar-se por inteiro até o centro do cenário. Sentado fundo, à espera, primeiro aquela mão de Humberto, ainda um pouco estúpida, explorando o edredom: tecitura e dobras, seu relevo. Os olhos, então, já menos assustados, percebem as grandes flores da cortina e o nicho com a vela acesa sobre a penteadeira. Um recorte de revista enfeita a porta do roupeiro. Tudo simples entrando por seus olhos já menos assustados. Está então a ponto de sentir-se em profundo bem-estar. A mulher que lhe destinaram, arrumando-se no banheiro, cerimoniosa, deferente. Ele sentado, sem medo de cair, só esperando. Não há o que temer. As narinas, entretanto, as narinas recém-chegadas e sensíveis, mas inexperientes, querem saber de que espécie e origem aquele cheiro meio morno insosso, um tanto orgânico, como de vida que não chegou a vingar. Um cheiro que está grudado nas paredes, que parece subir das entranhas da cama. Sua intuição lhe diz que é o próprio cheiro do tempo e isso volta a inquietá-lo.
Com a porta fechada, agora, mal se ouvem as pancadas mais fortes da bateria, que ainda há pouco, no salão, ameaçavam ensurdecê-lo sem motivo aparente. Tudo que vem de fora chega de maneira abafada, mesmo as lembranças mais recentes. Apesar de assim protegido, começa a se incomodar com o suor que lhe poreja no buço e na testa, um desconforto.
Depois de o instalar sentado na cama, a Ruiva, a mulher que lhe destinaram, saiu dizendo que demorava um instantinho só. Fosse tirando a roupa e se arrumando, enquanto isso. E bateu atrás de si
sexta-feira, 5 de julho de 2019
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Esta coluna reúne contos de Menalton Braff. O escolhido para hoje foi hoje foi extraído do livro "A coleira no pescoço", editado pela Bertrand Brasil.
Homens magros
Os olhos abertos de Serafim investigavam os silêncios da longa noite. Olhos parados, sem pestanejar, abertos até às lágrimas. Experimentou afastar-se das fartas carnes de Alzira e percebeu que o inverno finalmente havia chegado. Então era inverno, como já sabiam suas pernas finas e treinadas. Mesmo assim manteve-se distante, disposto ao sofrimento. Precisava agora ter certeza de que sobreviveria sem o calor da mulher. Era o que vinha pensando ultimamente porque a vida com tantas manchas escuras a contornar ia-se tornando uma tormenta, sem muito prazer. E o passado não se deixava apagar. Por mais que esfregasse, não desaparecia, cicatriz que se carrega para sempre.
A seu lado, solta redonda em todo o peso, Alzira ressonava as profundezas da vida. Serafim, por um instante, pensou tê-la ouvido falar: aquela respiração forte e sonora. Apurou seu ouvido no vazio, o nada. Com que sonhos dormia Alzira para que dormisse tão completamente? Esperou mais algum tempo, inteiro aberto, em silêncio, o pigarro a custo engolido. Ergueu a cabeça pouco mais de meio palmo, investigativo. Ela não se manifestava como um ser que vive, um ente. Era ali apenas um volume, peso e altura com a respiração forte e sonora.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Esta coluna reúne contos de Menalton Braff. O que escolhemos para hoje está publicado no livro "A coleira no pescoço".Homens magros
Os olhos abertos de Serafim investigavam os silêncios da longa noite. Olhos parados, sem pestanejar, abertos até às lágrimas. Experimentou afastar-se das fartas carnes de Alzira e percebeu que o inverno finalmente havia chegado. Então era inverno, como já sabiam suas pernas finas e treinadas. Mesmo assim manteve-se distante, disposto ao sofrimento. Precisava agora ter certeza de que sobreviveria sem o calor da mulher. Era o que vinha pensando ultimamente porque a vida com tantas manchas escuras a contornar ia-se tornando uma tormenta, sem muito prazer. E o passado não se deixava apagar. Por mais que esfregasse, não desaparecia, cicatriz que se carrega para sempre.
A seu lado, solta redonda em todo o peso, Alzira ressonava as profundezas da vida. Serafim, por um instante, pensou tê-la ouvido falar: aquela respiração forte e sonora. Apurou seu ouvido no vazio, o nada. Com que sonhos dormia Alzira para que dormisse tão completamente? Esperou mais algum tempo, inteiro aberto, em silêncio, o pigarro a custo engolido. Ergueu a cabeça pouco mais de meio
sábado, 2 de março de 2019
CARNAVAL LITERÁRIO 2
Para o segundo dia da série de postagens CARNAVAL LITERÁRIO temos um conto extraído do livro "A coleira no pescoço", editado pela Bertrand Brasil.Homens magros
Os olhos abertos de Serafim investigavam os silêncios da longa noite. Olhos parados, sem pestanejar, abertos até às lágrimas. Experimentou afastar-se das fartas carnes de Alzira e percebeu que o inverno finalmente havia chegado. Então era inverno, como já sabiam suas pernas finas e treinadas. Mesmo assim manteve-se distante, disposto ao sofrimento. Precisava agora ter certeza de que sobreviveria sem o calor da mulher. Era o que vinha pensando ultimamente porque a vida com tantas manchas escuras a contornar ia-se tornando uma tormenta, sem muito prazer. E o passado não se deixava apagar. Por mais que esfregasse, não desaparecia, cicatriz que se carrega para sempre.
A seu lado, solta redonda em todo o peso, Alzira ressonava as profundezas da vida. Serafim, por um instante, pensou tê-la ouvido falar: aquela respiração forte e sonora. Apurou seu ouvido no vazio, o nada. Com que sonhos dormia Alzira para que dormisse tão completamente? Esperou mais algum tempo, inteiro aberto, em silêncio, o pigarro a custo engolido. Ergueu a cabeça pouco mais de meio palmo, investigativo. Ela não se manifestava como um ser que vive, um ente. Era ali apenas um volume, peso e altura com a respiração forte e sonora.
A ele somente competiam as asperezas da insônia. Somente a ele, que um dia pensara no passado como escura mancha que esponja e água fazem desaparecer. Foi o que disse para Alzira, naquela noite, à beira de uma grande paixão. Teu passado não me interessa. A vida para nós dois começa
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Na última terça postamos aqui um estudo acadêmico sobre o conto A coleira no pescoço, publicado no livro que tem o mesmo título. Chegou a hora de saborear o conto.
Nenhum dos dois conseguia disfarçar os danos da velhice, que suportavam em silenciosas e mútuas acusações. O velho parecia fazer um esforço muito grande para puxar o cão ladeira acima. A sola seca de seus sapatos esfolava o ladrilho da calçada arrancando-lhe um ruído ríspido, áspero, como de alguma coisa que se arrasta, e isso irritava o cão, cuja cabeça se mantinha o tempo todo virada para fora, o focinho apontando para o lado da rua. Seu corpo todo era uma recusa tensa e escura e ele tinha o olhar aborrecido de quem não pode esperar mais nada da vida além daquela coleira no pescoço, na ponta de uma corrente.
Uma língua de vento gelado passou rente ao chão, levantando em revoada, vida efêmera, folhas mortas de magnólia e de plátano, que se misturavam a outros detritos da rua. Com seu grosso boné de lã na mão direita, o velho cobriu o rosto e pensou que uma das maneiras de se morrer pode ser assim mesmo: sufocado pelo cheiro da própria cabeça, um cheiro de suores noturnos e pesadelos.
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terça-feira, 15 de janeiro de 2019
ARTIGO ACADÊMICO ANALISA CONTO DE BRAFF

Acesse a publicacão original
UMA ANÁLISE DO CONTO
A COLEIRA NO PESCOÇO DE MENALTON BRAFF
Gleiton Candido de Souza (UFMS)1
RESUMO: O
presente trabalho tem por finalidade analisar o conto A coleira no pescoço, do
escritor Menalton Braff publicado em obra homônima no ano de 2006. Apresenta-se,
neste trabalho, a visão de alguns teóricos a respeito do que seja o conto e sua
importância enquanto gênero literário. Também, serão abordadas algumas teorias
que contribuem para o estudo e análise de contos, dentre as quais a teoria de
Poe sobre a unidade de efeito e a de Piglia quando este afirma que um conto
sempre conta duas histórias. Tais teorias são utilizadas na análise do conto A
coleira no pescoço do escritor contemporâneo Menalton Braff. O conto A coleira
no pescoço retrata um episódio da vida de um velho e seu cão, ambos vivendo
arrastados, um pelo cansaço da idade e o outro por uma corrente presa ao
pescoço. Um não suporta o outro, mas nada podem fazer para modificar essa
realidade. O conto retrata uma situação de solidão, desprezo, raiva e tédio,
vividas cotidianamente pelo velho e seu cão. Essa temática, da solidão, do
conflito consigo mesmo e nos relacionamentos esta muito presente no conto, que
já nas primeiras frases evidencia uma situação em
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Toda sexta-feira tem conto no Blog do Menalton. Quando é de outro autor, seu título é "Contos correntes". Quando o conto é de sua autoria, a coluna tem o nome de "Um conto para seu fim de semana".O Gorro do Andarilho*
- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.
Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.
Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo, foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.
Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se julgar
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terça-feira, 2 de outubro de 2018
RETALHOS
A partir de hoje, publicaremos trechos de livros de Menalton Braff lidos pelo próprio autor. O Retalho de hoje foi retirado do conto que dá nome ao livro "A coleira no pescoço".
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
CARNAVAL LITERÁRIO 6
Hoje é o último dia do nosso CARNAVAL LITERÁRIO. Desde sexta-feira estamos postando contos de Menalton Braff para os que não caíram na folia e também para os carnavalescos que conseguiram reservar um tempinho para ler entre uma farra e outra.O conto desta quarta integra o livro A COLEIRA NO PESCOÇO.
O caso das digitais perdidas
sábado, 10 de fevereiro de 2018
CARNAVAL LITERÁRIO 2
Desde ontem estamos postando contos de Menalton Braff para os que não vão cair na folia e também para os carnavalescos que tiverem um tempinho entre uma farra e outra.
O conto escolhido para hoje está no livro
A COLEIRA NO PESCOÇO.
Entra meio empurrado para o quarto e senta-se com a beirada do corpo sobre seu cansaço na cama estreita. Um peso. O mundo ali, com todos aqueles disfarces, quase impossível arrastar-se por inteiro até o centro do cenário. Sentado fundo, à espera, primeiro aquela mão de Humberto, ainda um pouco estúpida, explorando o edredom: tecitura e dobras, seu relevo. Os olhos, então, já menos assustados, percebem as grandes flores da cortina e o nicho com a vela acesa sobre a penteadeira. Um recorte de revista enfeita a porta do roupeiro. Tudo simples entrando por seus olhos já menos assustados. Está então a ponto de sentir-se em profundo bem-estar. A mulher que lhe destinaram, arrumando-se no banheiro, cerimoniosa, deferente. Ele sentado, sem medo de cair, só esperando. Não há o que temer. As narinas, entretanto, as narinas recém-chegadas e sensíveis, mas inexperientes, querem saber de que espécie e origem aquele cheiro meio morno insosso, um tanto orgânico, como de vida que não chegou a vingar. Um cheiro que está grudado nas paredes, que parece subir das entranhas da cama. Sua intuição lhe diz que é o próprio cheiro do tempo e isso volta a inquietá-lo.
O conto escolhido para hoje está no livro
A COLEIRA NO PESCOÇO.
Toda uma noite: o prêmio
Entra meio empurrado para o quarto e senta-se com a beirada do corpo sobre seu cansaço na cama estreita. Um peso. O mundo ali, com todos aqueles disfarces, quase impossível arrastar-se por inteiro até o centro do cenário. Sentado fundo, à espera, primeiro aquela mão de Humberto, ainda um pouco estúpida, explorando o edredom: tecitura e dobras, seu relevo. Os olhos, então, já menos assustados, percebem as grandes flores da cortina e o nicho com a vela acesa sobre a penteadeira. Um recorte de revista enfeita a porta do roupeiro. Tudo simples entrando por seus olhos já menos assustados. Está então a ponto de sentir-se em profundo bem-estar. A mulher que lhe destinaram, arrumando-se no banheiro, cerimoniosa, deferente. Ele sentado, sem medo de cair, só esperando. Não há o que temer. As narinas, entretanto, as narinas recém-chegadas e sensíveis, mas inexperientes, querem saber de que espécie e origem aquele cheiro meio morno insosso, um tanto orgânico, como de vida que não chegou a vingar. Um cheiro que está grudado nas paredes, que parece subir das entranhas da cama. Sua intuição lhe diz que é o próprio cheiro do tempo e isso volta a inquietá-lo.
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terça-feira, 11 de julho de 2017
O GORRO DO ANDARILHO
Publicamos, a seguir, o conto analisado pelas pesquisadoras Karla Ribeiro Santos e Vera Lucia Rodella Abriata, em artigo publicado na revista acadêmica RECORTE, que postamos ontem aqui no blog.
O Gorro do Andarilho
- Me dá! – repete com
voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.
Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja,
desgrenhada.
Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo,
foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a
mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a
perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os
ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da
estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.
Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e
contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso
ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se
tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se
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segunda-feira, 10 de julho de 2017
TRABALHO ACADÊMICO ANALISA CONTO DE BRAFF
O conto “O gorro do andarilho”, que integra o livro A coleira no pescoço, foi analisado em artigo acadêmico publicado por Flavia Karla Ribeiro Santos e Vera Lucia Rodella Abriata na revista RECORTE, do Mestrado em Letras: Linguagem, Cultura e Discurso / UNINCOR V. 13 - N.º 1.
ACONTECIMENTO EM “O GORRO DO ANDARILHO” DE MENALTON BRAFF
(Flavia Karla Ribeiro Santos1 Vera Lucia Rodella Abriata2)
RESUMO: Analisamos neste trabalho o conto
“O gorro do andarilho”, que integra o livro A coleira no pescoço,
coletânea de contos de Menalton Braff, a partir do referencial teórico da
semiótica francesa. Nosso objetivo é demonstrar o modo como um acontecimento
irrompe no texto e altera a rotina do ator protagonista, um andarilho que,
sentindo-se espoliado de condições dignas de vida, tem essa sensação
intensificada com o roubo do gorro que o protegia do frio, único objeto-valor
de que dispunha. Para isso, aplicamos ao texto pressupostos teóricos da
semiótica da ação e da semiótica tensiva. Utilizamos na análise o conceito de
acontecimento, primeiramente formulado por A. J. Greimas em Da imperfeição, e
posteriormente sistematizado por Claude Zilberberg em suas últimas obras.
PALAVRAS-CHAVE: Semiótica Francesa;
Rotina; Acontecimento.
RÉSUMÉ: Nous examinons dans cet article le
conte littéraire “O gorro do andarilho”, qui fait partie intégrante du livre A
coleira no pescoço, d'une série de contes de Menalton Braff, à partir du
cadre théorique de la sémiotique française. Notre objectif est de démontrer
comment un événement éclate dans le texte et modifie le exercise de l'acteur
protagoniste, un errant qui en se sentant spolié des conditions de vie décentes
a ce sensation intensifiée avec le vol de son bonnet qui protégeait-t-il du
froid et il était le seul objet de valeur qu’il possédait. Pour cela,
appliquons-nous au texte postulats théoriques de la sémiotique de l’action et de
la sémiotique tensive. Nous employons dans l'analyse le concept de l'événement,
tout d'abord formulé par A. J. Greimas dans De l’imperfection et plus
tard systématisé par Claude Zilberberg dans ses dernières oeuvres.
MOTS-CLÉS: Sémiotique Française;
Exercise; Événement.
Introdução
Preocupada com o sentido, ou, mais precisamente, com o
parecer do sentido, a teoria semiótica francesa tem suas bases nos estudos do
semioticista lituano Algirdas Julien Greimas que, nos anos 1960-1980,
desenvolveu
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domingo, 7 de maio de 2017
MOTIVOS
A partir de agora, publicaremos periodicamente textos de Menalton Braff nos quais ele expõe os motivos que o levaram a escrever cada um dos seus 23 livros publicados até o momento.
Como sempre me aconteceu, não escrevo contos para um livro. Meus contos, cada um tem sua motivação. Se houver entre eles algum encadeamento, algumas uniformidade, isso é inteiramente casual.
O livro A coleira no pescoço não teve origem diferente do que afirmo acima. O primeiro conto, que dá título ao livro, nasceu de uma cena a que assisti de dentro de um hotel em Poços de Caldas. Sob um vento forte e irritante, um velho, caminhando com alguma dificuldade na calçada do outro lado da rua, vai puxando um cachorrinho com jeito de velho, que se deixa arrastar, mal movendo de quando em vez suas patas.
Imediatamente me lembrei do velho do Camus que perde seu cachorro e lamenta o fato, pois não terá mais em quem descarregar os safanões de sua vida infeliz. Mudei a motivação, dando ao cão a identidade do velho, o modo como convive com dificuldade com sua velhice.
Em Alice e o violoncelo, a ideia do conto surgiu num concerto da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto ao perceber o modo como uma das violoncelistas manuseava seu instrumento. Foi impossível
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domingo, 26 de fevereiro de 2017
PARA LER NO CARNAVAL 1

De hoje até terça, publicaremos contos de Menalton Braff para você ler durante o carnaval. O de hoje foi extraído do livro "A coleira no pescoço", editado pela Bertrand Brasil.
Homens magros
Os olhos abertos de Serafim investigavam os silêncios da longa noite. Olhos parados, sem pestanejar, abertos até às lágrimas. Experimentou afastar-se das fartas carnes de Alzira e percebeu que o inverno finalmente havia chegado. Então era inverno, como já sabiam suas pernas finas e treinadas. Mesmo assim manteve-se distante, disposto ao sofrimento. Precisava agora ter certeza de que sobreviveria sem o calor da mulher. Era o que vinha pensando ultimamente porque a vida com tantas manchas escuras a contornar ia-se tornando uma tormenta, sem muito prazer. E o passado não se deixava apagar. Por mais que esfregasse, não desaparecia, cicatriz que se carrega para sempre.
A seu lado, solta redonda em todo o peso, Alzira ressonava as profundezas da vida. Serafim, por um instante, pensou tê-la ouvido falar: aquela respiração forte e sonora. Apurou seu ouvido no vazio, o nada. Com que sonhos dormia Alzira para que dormisse tão completamente? Esperou mais algum tempo, inteiro aberto, em silêncio, o pigarro a custo engolido. Ergueu a cabeça pouco mais de meio palmo, investigativo. Ela não se manifestava como um ser que vive, um ente. Era ali apenas um volume, peso e altura com a respiração forte e sonora.
sexta-feira, 4 de março de 2016
UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA
Caminhos cruzados
"-
Mais imunda do que as cadelas e as fêmeas dos javalis, tu prostituíste aos
pagãos e aos heréticos um corpo que o Eterno fizera para ser um tabernáculo. E
as tuas impurezas são tais que, agora que conheces a verdade, não mais podes
unir os lábios ou juntar as mãos sem que a mágoa de ti mesma te nauseie o
coração."
Anatole France, Taïs.
*** VERÔNICA ***
Morena clara, 22 anos, olhos verdes, 54 kg, 1,60, cabelos
lisos longos, lábios carnudos c/beijo, casta e recatada, porém linda e
carinhosa, pronta para satisfazer suas mais ardentes fantasias e desejos. Um
incêndio esperando por você. Tenho local de classe. Ligue agora para (015) 8228
4635 24h.
O jornal aberto sobre os joelhos e a dúvida zumbindo varejeira em torno
da cabeça. Quente. Pegou o telefone, apreensivo - era um caminho
desconhecido, talvez perigoso. Melhor esquecer o culto daquela manhã. Não
conseguia. O suor de suas mãos molhava o aparelho. Não conseguia esquecer
porque poderia ser acusado de omisso, no dia do juízo: o fogo eterno. Os
sofrimentos do fogo eterno.
Do alto de seu púlpito, impávido e bíblico, um tanto patético, o pastor
Jonas imprecava os pecados
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
DEGUSTAÇÃO 7 - A COLEIRA NO PESCOÇO
A obra de hoje na sessão Degustação é A COLEIRA NO PESCOÇO, editada pela Bertrand Brasil, em 2006. Publicamos, a seguir, o primeiro conto, que leva o mesmo título da coletânea.
Para mais informações, acesse a página do livro aqui no BLOG DO MENALTON.
Amor
é primo da morte,
e
da morte vencedor,
por
mais que o matem (e matam)
a
cada instante de amor.
(Carlos Drummond de Andrade)
A coleira no
pescoço
Nenhum dos dois conseguia disfarçar os danos da
velhice, que suportavam em silenciosas e mútuas acusações. O velho parecia
fazer um esforço muito grande para puxar o cão ladeira acima. A sola seca de
seus sapatos esfolava o ladrilho da calçada arrancando-lhe um ruído ríspido,
áspero, como de alguma coisa que se arrasta, e isso irritava o cão, cuja cabeça
se mantinha o tempo todo virada para fora, o focinho apontando para o lado da
rua. Seu corpo todo era uma recusa tensa e escura e ele tinha o olhar
aborrecido de quem não pode esperar mais nada da vida além daquela coleira no
pescoço, na ponta de uma corrente.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
CONTOS CORRENTES
O caminhão parou na frente da obra e três homens tristes, com suas mãos
grossas, descarregaram as telhas em pouco mais de dez minutos. Eles estavam
suados quando Sebastião chegou com
brilho nos olhos. Repararam no brilho dos olhos de Sebastião, aquela sua
felicidade, nem assim deixaram de chupar as laranjas até se engasgarem com o
bagaço. O patrão parou de pernas muito abertas na frente dos três e disse e
então?, ao que os três se levantaram da sombra e foram cada um para o
cumprimento de sua obrigação. A um homem tão futuro assim não se retruca, eles
pensaram. Era novembro e o sol da tarde arranhava a pele mais do que picada de
formiga.
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