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segunda-feira, 29 de junho de 2020

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff.Algumas são inéditas e outras foram publicadas anteriormente em seu site, ou em revistas. A escolhida para hoje foi postada pela primeira vez na versão online da revista Carta Capital.

E eu com isso?


Havia acabado de ver o filme do Al Gore a respeito do aquecimento global e decidi escrever a crônica. Ninguém se manifestou. Ninguém acreditou

Ando cada vez mais impressionado com a indiferença das pessoas. Indiferença crônica. O que faz ou não faz o vizinho, mas quem é o vizinho? Um dia desses, não faz muito tempo, disse aqui, com todas as letras, que sua casa está pegando fogo. Você se preocupou?

Não, simplesmente pensou que este cronista estivesse brincando, ou, quem sabe, andasse leso das ideias, prejudicado pelo excesso de trabalho, alguma coisa qualquer que bem poderia ser eufemismo de doido varrido.

Sim porque a grande maioria das pessoas só conhece um tipo de leitura, que a gente pode chamar de referencial, mas que, para melhor entendimento, é a leitura da superfície, as palavras são o que são e se referem a seres determinados, como manda o dicionário.

Por isso, volto a afirmar que sua casa está pegando fogo.

Claro que “sua casa”, acima, é metonímia de planeta Terra. E não é? Eu havia acabado de ver o filme do Al Gore a respeito do aquecimento global e, sob a impressão do que vira, foi que escrevi a crônica. Ninguém se manifestou. Ninguém contestou, ninguém acreditou. Lá se foi minha garrafinha com sua mensagem para sumir nas profundas do oceano desta vida.

Será que tenho sido tomado por um “gozador”, como um dia me disse alguém que andou lendo algumas de minhas crônicas? Uma coisa eu garanto: se o tom às vezes me sai um tanto jocoso, se em meus lábios você pode imaginar um sorriso sardônico, isso é porque já desisti de sentar e chorar e acho que nossa curta existência não fica melhor sob a égide do mau humor.

Então, pessoal, sem sorriso nos lábios e sem metonímia que possa obscurecer a verdade. Combinado? Segundo projeções dos cientistas, você ainda poderá criar alguns filhos e talvez até lamber meia dúzia de netos, mas bisnetos, isso jamais.

Bem antes disso nosso planeta já terá derretido todas as geleiras, as florestas já estarão transformadas em carvão e cinzas, e a raça humana nem na história aparecerá, porque a própria história terá deixado de existir.

Sim, porque há governantes nascidos e criados acreditando que o maior bem do ser humano é o lucro, mas lucro verdadeiro. Não que o lucro moral, por exemplo, não seja verdadeiro, mas por dentro de nosso sistema, é claro que lucro verdadeiro significa monetário, essa coisa que faz a economia girar, que sobra para alguns o que falta para outros.

Pois bem, acho que vocês já me entenderam. Torra-se o mundo, mas não se toca na indústria que proporciona o lucro enquanto lentamente vai torrando nosso planeta.

Mas e o futuro? Ah, o futuro... E aquele senhor de topete nem saiba, talvez, o que significa futuro.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff. A de hoje é inédita.

E eu com isso?


Não me arrogo a competência de psicólogo, filósofo, sociólogo, qualquer um desses ramos do conhecimento humano, minha formação foi um curso de Letras e seus assuntos até hoje são aqueles em que mais gasto meu tempo. A despeito disso, sempre tive o hábito de observar o comportamento das pessoas.

Pois bem, resolvi tratar hoje, sem entrar por terrenos minados sem o mapa das minas, de fatos da minha infância. Meu relato tem tudo a ver com minha experiência pessoal. E apenas isso.

Quando criança e até adolescente, nosso senso de responsabilidade é ainda muito débil. Por isso que muitas vezes os adultos dizem “parece uma criança”. Sim, é muito mais fácil relevar atitudes juvenis que desrespeitem o bom senso, aquilo que é socialmente desejável, pois sabe-se que um caráter ainda em formação tem o direito, quer dizer, direito não, mas a propensão a cometimentos indesejáveis. Comportamentos que não se toleram em adultos, a não ser que tenham mente deformada.

Uma vez, lá pelos meus dez anos de idade, meu pai me fechou na biblioteca, puxou uma cadeira para perto de si, e relatou todas as queixas de um vizinho, que me acusava de ter quebrado com a bola uma vidraça de sua janela. Ele disse que agora teria de pagar a vidraça do vizinho, o que é que eu achava disso. A minha resposta foi “E eu com isso?”

“E eu com isso” pode ter mais de um significado. Não tenho nada a ver com este assunto, não estou envolvido com o que aconteceu, isso não é da minha responsabilidade, isso me é totalmente indiferente. E mais, que aqui não se tem o desejo de esgotar qualquer assunto que seja.

Mas pensando sobre os significados possíveis, afinal, minha profissão me exige a lide com as palavras, descobri que “E eu com isso” pode significar também “E daí?”. Minha descoberta me deixou, de um lado, muito feliz por causa da descoberta, e de outro, não sei se digo infeliz, decepcionado, raivoso, furioso esses sentimentos todos que podem coexistir quando um adulto foge da raia (eita expressãozinha antiga, pois muito pouca gente hoje em dia saberá de que raia se fala), se exime de culpa, de qualquer comprometimento com a realidade.

Fugir da raia também pode significar acovardar-se, desistir de lutar, fingir que não está vendo o que acontece, e muito mais. Felizmente o convid-19 está sendo encarado e tratado não como uma “gripezinha” qualquer, mas como uma pandemia de um vírus extremamente contagioso e letal. Nenhum brasileiro, por mais iletrado que seja, teria coragem de pensar o contrário.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

CARTA CAPITAL| E EU COM ISSO?

Acesse a publicação original

E eu com isso?

Havia acabado de ver o filme do Al Gore a respeito do aquecimento global e decidi escrever a crônica. Ninguém se manifestou. Ninguém acreditou

Ando cada vez mais impressionado com a indiferença das pessoas. Indiferença crônica. O que faz ou não faz o vizinho, mas quem é o vizinho? Um dia desses, não faz muito tempo, disse aqui, com todas as letras, que sua casa está pegando fogo. Você se preocupou?

Não, simplesmente pensou que este cronista estivesse brincando, ou, quem sabe, andasse leso das ideias, prejudicado pelo excesso de trabalho, alguma coisa qualquer que bem poderia ser eufemismo de doido varrido.