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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

O conto que segue pertence ao livro À sombra do cipreste, editado pela Global Editora em 2011 (6ª ed.)

Elefante azul
O imenso dorso dobrado sobre a bacia de alumínio, dentro da qual, calada, prende meus pés cobertos de barro, ela me esconde os olhos úmidos e vermelhos, bem os vi há pouco, de relance, quando foi à porta me chamar e me recebeu resmungando contra a vida miserável que se leva por causa de crianças que passam o dia a chafurdar na terra do quintal. Não chegava a ser uma repreensão, me parece, aquela voz inusitadamente grave, talvez rouca, livre, entretanto, de qualquer aspereza, e a suavidade do gesto com que me fez entrar, embora o rosto esquivo, como se não me visse, apenas mais uma das sombras que, à noite, costumam vir esconder-se aqui dentro de casa.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

O conto abaixo é do livro À sombra do cipreste, cuja 6ª edição saiu pela Global Editora em 2011.

Elefante azul

O imenso dorso dobrado sobre a bacia de alumínio, dentro da qual, calada, prende meus pés cobertos de barro, ela me esconde os olhos úmidos e vermelhos, bem os vi há pouco, de relance, quando foi à porta me chamar e me recebeu resmungando contra a vida miserável que se leva por causa de crianças que passam o dia a chafurdar na terra do quintal. Não chegava a ser uma repreensão, me parece, aquela voz inusitadamente grave, talvez rouca, livre, entretanto, de qualquer aspereza, e a suavidade do gesto com que me fez entrar, embora o rosto esquivo, como se não me visse, apenas mais uma das sombras que, à noite, costumam vir esconder-se aqui dentro de casa.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

FRAGENTOS DE CONTOS: DO LIVRO À SOMBRA DO CIPRESTE


Terno de Reis
"Em que poderia a vida ter sido diferente? Estremeço com essa pergunta, e meus olhos secos e abismados não encontram resposta, porque é noite, há muito tempo que é noite."
Relógio de Pêndulo
"Quando a manhã, azulada de orvalho, vem bater à janela da cozinha, ainda sinto o cheiro forte de estrada que ficou na cadeira vazia."

No Dorso do Granito
"Quando a lua se desprende dos galhos do mais alto açoita-cavalo e põe-se no céu a flutuar, Solano abre todos os sentidos, engatilhado e tenso, a partir de agora a qualquer momento."

Elefante Azul
"É fraca, muito fraca mesmo, esta luz amarela que, silenciosa, desce do teto e escorrega pelas paredes nuas, ricocheteando sem alvoroço nos ângulos mais salientes de nossos parcos móveis de cozinha."

Crispação
"O relógio, o elefante azul de gesso, o guardanapo, a pilha de pratos por trás da vidraça. Há mais de duas horas a vã procura do que se dizerem. A vida comum em descomunhão. Em dez anos atingiram a solidão, feriram de morte o sortilégio dos desvendamentos."

Adeus, meu Pai
"Portas e janelas mantêm-se fechadas desde o início da noite: o frio lá fora, rondando a casa, silencioso, enquanto na sala enfumaçada de vez em quando alguém abafa a tosse com a mão, pede um copo dágua, tenta espantar o sono."