O conto que segue pertence ao livro À sombra do cipreste, editado pela Global Editora em 2011 (6ª ed.)
Elefante azul
O imenso dorso dobrado
sobre a bacia de alumínio, dentro da qual, calada, prende meus pés cobertos de
barro, ela me esconde os olhos úmidos e vermelhos, bem os vi há pouco, de
relance, quando foi à porta me chamar e me recebeu resmungando contra a vida
miserável que se leva por causa de crianças que passam o dia a chafurdar na
terra do quintal. Não chegava a ser uma repreensão, me parece, aquela voz
inusitadamente grave, talvez rouca, livre, entretanto, de qualquer aspereza, e
a suavidade do gesto com que me fez entrar, embora o rosto esquivo, como se não
me visse, apenas mais uma das sombras que, à noite, costumam vir esconder-se
aqui dentro de casa.


