Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff, algumas inéditas, outras publicadas anteriormente em seu site ou em revistas.Informação ou encantamento*
Isso tem ocorrido na minha vida e com bastante frequência. Como o público sai depois de uma palestra dessas eu não sei, quanto a mim, saio suando, com vontade de morrer, mas sem coragem para o ato final.
Uma dessas ocasiões me deixou marcado. Bastante gente na plateia, para glória e honra dos promotores e angústia do palestrante, que, com cara de pateta, olhava de um lado para o outro tentando descobrir qual o padrão de linguagem a ser empregado. Apresentações e agradecimentos, lá estava eu de microfone na mão ainda enrolando com alguma graça para conquistar o público, até que não deu mais para segurar e o assunto foi enfrentado. A certa altura, ocorreu a lembrança de que alguns exemplos sempre ajudam, pois dão concretude a conceitos por vezes não familiares. Por isso, chamei a atenção da plateia para o que faria: dois enunciados diferentes. Então parodiei um poema:
“Uma mulher declara que nem se deu conta da passagem do tempo, e está perplexa por não se reconhecer por causa das mudanças”.
Em seguida li, da Cecília Meireles, Retrato, que muitas vezes carrego comigo:
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
Em seguida, a pergunta que me pareceu óbvia:
