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quinta-feira, 9 de abril de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (133)

Marcuse
Para encerrar o capítulo sobre a comunicação literária, transcrevamos os três parágrafos finais:
"A concepção prometaica da comunicação literária, que se desenvolveu na teoria e na praxis sobretudo com o romantismo e, mais acentuadamente, com as literaturas de vanguarda, consubstancia-se paradigmaticamente em textos literários que instituem uma ruptura declarada e violenta com os códigos linguísticos, retórico-estilísticos e semântico-pragmáticos dominantes numa determinada comunidade sociocultural e encontrou a sua teorização mais radical e mais consistente na chamada 'estética da negatividade', defendida por pensadores como Adorno e Marcuse: o texto literário não reflecte nem justifica conformistamente o real estabelecido, mas corrói e anula, pelo seu poder de negatividade, esse mesmo real, manifestando no seu mundo de Schein, de ilusão, a 'verdade subversiva' questionadora da ideologia dominante e antecipando, no plano da utopia, um horizonte de libertação. O efeito social de muitos textos literários de ruptura pode ser intenso, mas relativamente transitório, porque as próprias transformações eventualmente ocorridas na sociedade, ao modificarem o circunstancialismo da recepção literária, determinam a sua exaustão e o seu gradual desaparecimento.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

O conto a seguir integra a coletânea "Gente em conflito" editada pela Ática.


Vento nas bananeiras


Colher de pedreiro na mão, Arlindo namorava sua obra: trabalho feito com esmero, seu trecho de calçada o mais liso, medidas de conhecedor. Tarde mole de sol quente dorminhando a rua quieta. Sossego. No quintal, bem no fundo, bananeiras paradas pedindo socorro. Tarde sem pressa, de férias pela metade. Arlindo alagou com os olhos um céu todo azul: tão cedo não chove, tempo de secar o cimento.

No começo da rua apareceu Marcão. Como nuvem que se aproxima. ao chegar da feira, o vizinho parava sempre no bar da esquina: campeão de bilhar. Subiu lento, crescente e sonado, plantou-se no meio da rua e falou:

– Olha aqui, avisa a dona Idalina que se ela não largar mão de se meter com a vida da minha mulher eu acabo com vocês dois.

Arlindo perplexo. O gosto de ainda há pouco, escorrendo pela sarjeta abaixo, só deixava tremor de frio, tonteira descendo pelo corpo todo. Seus olhos nublados mal retinham a figura enorme.

terça-feira, 29 de julho de 2014

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (106)

Pág. 231 - 3.6.3. Variabilidade diacrónica da relevância do emissor

Numa perspectiva diacrónica, a relevância do emissor no processo da comunicação literária apresenta-se como bastante variável, em estreita conexão com os códigos culturais e, mais particularmente, com o código literário prevalecente nos diversos períodos históricos.

Na literatura medieval, sobretudo na literatura anterior ao século XII, o emissor usufrui de uma débil relevância e a própria noção de autor, como observa Paul Zumthor, parece, por vezes, diluir-se, ou até perder-se, num processo de produção literária em que a tradição funciona como 'verdadeiro a priori da realidade poética' e em que a impositividade do código literário apaga as marcas da origem da enunciação, constituindo-se os textos como realizações sucessivas de um 'modelo nuclear' ou de um 'número limitado de modelos' e privilegiando-se assim um continuum técnico-formal, sémico (p.232) e ideológico.