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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

RASCUNHO REGISTRA PREMIAÇÃO DE MENALTON


O jornal rascunho registra premiação de ALÉM DO RIO DOS SINOS em texto que reproduzimos a seguir.

Menalton Braff vence Prêmio Machado de Assis de melhor romance

Concurso da Biblioteca Nacional ainda destacou obras de Jarid Arraes (Conto), Adriana Falcão (Infantil) e Maria Fernanda Elias Maglio (Poesia); vencedores recebem R$ 30 mil


(28/11/20)

A Biblioteca Nacional divulgou os vencedores de seu prêmio literário. Cada um vai receber R$ 30 mil. O gaúcho Menalton Braff ganhou o prêmio Machado de Assis da categoria romance por Além do rio dos sinos (Reformatório).

Ao site da Biblioteca Nacional, o escritor, que vive há 50 anos no interior de São Paulo, disse que ao receber a notícia chorou e, após o impacto, iria “encher a cara de vinho”.

“É uma emoção muito grande, tinha pouca esperança porque vi que nomes conhecidos estavam inscritos. Pensei logo que ia perder para alguém muito bom. Agora, parei de trabalhar e vou encher a cara de vinho.”

Já a cordelista e poeta cearense Jarid Arraes venceu na categoria de Contos por Redemoinho em dia quente (Alfaguara). Na Poesia, Maria Fernanda Elias Maglio, autora de 179. Resistência (Patuá), foi a escolhida.

Entre os livros infantis, Adriana Falcão venceu com Lá dentro tem coisa (Salamandra). Já o melhor juvenil foi Um lençol de infinitos fios (Gaivota), de Susana Ramos Ventura.

A melhor tradução foi a de As flores do mal (Penguin), do francês Charles Baudelaire, feita por Júlio Castañon Guimarães.

O prêmio deste ano foi marcado por muita confusão e reclamação de autores e editoras pelo que consideraram excesso de burocracia da organização da BN. Muitas obras foram desclassificadas, mas após recurso, o número de livros habilitados a concorrer saltou de 512 para 1.151, em um total de 1.376 obras inscritas.

Veja alguns dos vencedores do prêmio:

ROMANCE
Além do rio dos sinos (Reformatório), de Menalton Braff

CONTOS
Redemoinho em dia quente (Alfaguara), de Jarid Arraes

POESIA
179. Resistência (Patuá), de Maria Fernanda Elias Maglio

INFANTIL
Lá dentro tem coisa (Salamandra), de Adriana Falcão

JUVENIL
Um lençol de infinitos fios (Gaivota), de Susana Ramos Ventura

TRADUÇÃO
As flores do mal (Penguin), do francês Charles Baudelaire, feita por Júlio Castañon Guimarães

MENALTON CONQUISTA O PRÊMIO MACHADO DE ASSIS

O romance "Além do Rio dos Sinos", lançado este ano pela Editora Reformatório,  deu ao escritor Menalton Braff o prêmio Machado de Assis, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional ao vencedor da categoria romance. 

"Além do Rio dos Sinos" é o 26º livro de Menalton Braff e conta a história de uma família do Rio Grande do Sul que foi morar no alto de um morro, no Vale do Rio dos Sinos, abandonados, quase sem contato com o mundo.

O Prêmio Literário Biblioteca Nacional é um dos mais importantes do país e foi criado em 1994 e premia anualmente, autores, tradutores e projetistas gráficos brasileiros. Outros sete prêmios foram concedidos nas categorias contos, poesias, traduções, ensaios sociais e literários e obras voltadas às literaturas infantil e juvenil. Conheça os outros vencedores:

I. CATEGORIA CONTO – PRÊMIO CLARICE LISPECTOR  - "Redemoinho em dia quente", de Jarid Arraes; Editora Alfaguara.

II. CATEGORIA ENSAIO LITERÁRIO – PRÊMIO MÁRIO DE ANDRADE - " Agudezas seiscentistas e outros ensaios", de João Adolfo Hansen; Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna (orgs.); Editora da Universidade de São Paulo.

III. CATEGORIA ENSAIO SOCIAL – PRÊMIO SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - "De quem é o comando?: O desafio de governar uma prisão no Brasil", de Eduardo Matos de Alencar; Editora Record.

IV. CATEGORIA LITERATURA INFANTIL– PRÊMIO SYLVIA ORTHOF - "Lá dentro tem coisa, 
de Adriana Falcão; Editora Salamandra.


V. CATEGORIA LITERATURA JUVENIL – PRÊMIO GLÓRIA PONDÉ - "Um lençol de infinitos fios", de Susana Ramos Ventura; Editora Gaivota.

VI. CATEGORIA POESIA – PRÊMIO ALPHONSUS DE GUIMARAENS - "179.Resistência", 
de Maria Fernanda Elias Maglio; Editora Patuá.

VII. CATEGORIA ROMANCE – PRÊMIO MACHADO DE ASSIS - "Além do Rio dos Sinos", 
de Menalton Braff; 
Editora Reformatório.

VIII. CATEGORIA TRADUÇÃO – PRÊMIO PAULO RÓNAI - "As flores do mal, de Charles Baudelaire", traduzida por Júlio Castañon Guimarães; Editora Penguin Classics Companhia das Letras.

Para mais informações, acesse o site da Biblioteca Nacional

sábado, 17 de outubro de 2020

RETALHOS 2020 - ALÉM DO RIO DOS SINOS

RETALHOS 2020 é uma série de vídeos gravados por Menalton Braff para apresentar os seus 26 livros já publicados (existem inúmeros outros ainda inéditos). A obra que Menalton apresenta hoje é "Além do Rio dos Sinos", lançado pela Editora Reformatório, em 2020.



domingo, 21 de junho de 2020

FRASE

A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff.



terça-feira, 16 de junho de 2020

NOVO ROMANCE GANHA RESENHA NO BLOG ACRÓPOLE REVISITADA


Acesse a publicação original

TODOS ELES ENTRARAM, SEM COMBINAR, NUM RITMO DE TREINO PARA A VIDA

(Luigi Ricciardi)
Lugares ermos, com pouca conexão com o mundo exterior, são, quase sempre, um bom espaço para grandes romances. O desbravar, de terras inóspitas, também. Junte a tudo isso uma grande carga de cultura popular em uma narrativa bem construída praticamente do começo ao fim. O resultado é Além do Rio dos Sinos, novo romance de Menalton Braff que saiu há pouco pela Reformatório, em mais um belo trabalho de capa e edição.
            O protagonista, durante boa parte do livro, é Nicanor, um homem de poucas palavras que desde a tenra idade precisa trabalhar na terra para tirar seu sustento. Mora em um morro no Vale do Rio dos Sinos, um lugar distante dos grandes centros e até mesmo de pequenos vilarejos. A solidão parece ser a única companheira desse homem.
            No início do romance, Nicanor é ainda apenas um rapaz que se viu sozinho no morro em que mora após a morte do pai. A memória já começa a se perder, o rosto dos familiares mortos são apenas sombras na sua cabeça. Um por um foram todos morrendo, a mãe, o irmão, a irmão. Agora o pai. Nicanor está sozinho e precisa aprender rápido a tirar leite de pedras daquele lugar inóspito onde mora.
            Pensando em negociar a terra com um investidor, acordo que acaba nunca acontecendo, Nicanor vai ao cartório do vilarejo mais próximo. Aproveita o momento e passa ali o final de semana, conhecendo assim Jesualdo, um rapaz, oposto dele, de conversa fácil e animada. A partir desse encontro a vida do protagonista vai mudar, pois com o estreitamento da amizade, ele conhece Marialva e Florinda, as duas irmãs do amigo, mulheres que marcarão sua vida.
            Entremeada à história da juventude de Nicanor vemos também sua história de casado. Capítulo sim, capítulo não, vemos o protagonista, agora com sua esposa Florinda e seus filhos, voltando a morar no morro de sua propriedade. Deduz-se que Nicanor havia deixado o morro e alguma coisa muito ruim aconteceu para que ele voltasse para aquele fim de mundo.
            Falando em fim de mundo, o espaço da narrativa é um lugar ao qual chegam, de maneira esparsa, notícias do país. Sabe-se que o país entrara em guerra, depois que o presidente se matou, depois que há militares no poder. Nesse meio tempo, pouca coisa chega da cidade grande para o Morro da Caipora, a não ser personagens que ali viveram suas vidas e voltam para visitar a protagonista da última parte do livro: Florinda.
            Essa também é uma das grandes personagens do livro. Em um momento histórico no qual só cabia às mulheres a obediência e subserviência, Florinda, contrariando a família, escolhe seu próprio destino. Luta, nesse meio opressor, para manter sua dignidade e pela sobrevivência em meio a tantos espinhos.
            Uma das forças do romance é retratar o cotidiano desses personagens, a lida diária com a terra, desde a aragem, colheita, que é pouca, passando pelo trato com os animais, ordenha, exploração das redondezas, a refeição modesta que beira a fome. O livro também retrata muito bem as relações pessoais, comportamentos da gente do interior, as leis não assinadas mas cumpridas.
            A vida desses personagens é cheia de infortúnios, restando apenas a esperança de que aquela difícil terra possa dar a eles sustento para que não morram de fome. Outra esperança, que toca pouco a pouco os filhos de Nicanor e Florinda, é deixar aquela terra para ter finalmente uma vida digna longe daquele lugar que parece até amaldiçoado.
            Além do Rio dos Sinos é um livro sobre a passagem do tempo, sobre memória, sobre pobreza, traição, fidelidade e esperança. Fala de tantas outras coisas que é difícil enumerar. Rico e convidativo à leitura, o romance mostra um pedaço diferente do Brasil, mas semelhante a tantos outros lugares esquecidos onde a dureza chega bem antes da alegria e da fartura.
Compre o livro AQUI
TÍTULO: Além do Rio dos Sinos
AUTOR: Menalton Braff
EDITORA: Reformatório
GÊNERO: Romance
ANO: 2020
PÁGINAS: 280
TRECHOS:
“Mais para o fundo, para perto do pé do morro, ele viu a cabeça de algumas sepulturas. Era o cemitério dos outros, os que não frequentavam a igreja, onde toda sua família estava enterrada. Primeiro de todos, pelo menos que se lembrava, a terra tinha engolido a Tininha. Não conseguia mais se lembrar da imagem da irmã. Também, ele era muito novo quando ela se foi”.
“Dez, doze meses sem o pai, a memória deste começava a desmanchar-se, principalmente a memória dos dois mais novos. Começaram então a comportar-se como se um Nicanor jamais tivesse existido. Todos eles entraram, sem combinar, num ritmo de treino para a vida, que faz parte do instinto de sobrevivência. Além do mais, luto nenhum é eterno, e perda, por maior que seja, não sendo da vida, em algum tempo é preenchida com alguma compensação. A tristeza cansa e pede trégua, é impossível chorar vinte e quatro horas todos os dias”.

sábado, 13 de junho de 2020

"ALÉM DO RIO DOS SINOS" RECOMENDADO PELO "RASCUNHO"

O mais novo romance de Menalfon Braff, "Além do Rio dos Sinos", lançado em março pela Editora Reformatório, acaba de ser resenhado pelo jornal literário "Rascunho", na coluna "Rascunho Recomenda":

"Com mais de 35 anos de vida literária, Menalton Braff volta ao romance após a publicação de Amor passageiro (Contos, 2018). Além do Rio dos Sinos acompanha a vida de Nicanor e Florinda - duas figuras que sofrem com as dificuldades de se viver em um terreno hostil e repleto de adversidades, no Rio Grande do Sul, sendo a principal delas o embate entre os moradores do morro (infértil, solitário) contra os da várzea, que promete uma sobrevivência mais amena, com suas terras férteis e a possibilidade de se ganhar a vida com as próprias mãos. Entre o período da Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar, a narrativa - em dois tempos - se desdobra em uma espécie de crônica familiar, explorando a jornada dura de um casal que deseja se libertar das amarras de um Brasil obscuro e ignorado pelos que habitam grandes cidades, tentando dar o melhor aos filhos e lidando constantemente com a natureza e os animais."

O jornal Rascunho é uma publicação voltada para a Literatura, que reúne ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poesias, crônicas e trechos de romances) e ilustrações. Foi criado em 2.000, em Curitiba, pelo jornalista e escritor Rogério Pereira, e entre seus colunistas fixos, estão autores como Affonso Romano de Sant’Anna, Alberto Mussa, José Castelo, Fernando Monteiro, João Cezar de Castro Rocha, Luiz Bras e Raimundo Carrero. Sua versão impressa é distribuída para todo o Brasil.

domingo, 31 de maio de 2020

FRASE

A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 



sábado, 30 de maio de 2020

'ALÉM DO RIO DOS SINOS' NO JORNAL "ESTADO DE MINAS"

Novo romance de Menalton Braff aborda as agruras da vida rural

Autor foi o vencedor do prêmio Jabuti em 2000 (pelo livro À sombra do cipreste) e já escreveu outros 25 títulos
Um casal e uma penca de filho sobem o morro. Porque chove, a tarefa não é fácil, estão numa carreta puxada por um par de bois. No alto do morro, em outro tempo, o rapaz precisa enterrar o pai e decidir a vida. Pequenos proprietários de uma terra ruim e pedregosa, são habitantes de uma encosta no povoado de Pedra Azul.


O contraste entre morro e várzea será narrativamente refletido na alternância entre tempos, o sujeito que volta casado e com filhos e o jovem que um dia decide sair dali para se aventurar, além do rio que parece demarcar a passagem de um território a outro e que dá nome ao livro. São a mesma pessoa, em diferentes tempos, o mesmo Nicanor e o outro, mais velho, com diferentes decisões a tomar.


É a partir dessa bifurcação que o plano de Além do rio dos sinos começa a estabelecer o projeto narrativo de Menalton Braff, vencedor do prêmio Jabuti em 2000 (pelo livro À sombra do cipreste) e autor de outros 25 títulos, incluso este mais recente. 

Trata-se de um Brasil antigo, mas não muito, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. As notícias de fora, quando chegam, servem para ajudar o leitor a se situar no tempo histórico. Num nível mais reduzido, o tempo da narrativa, a alternância é que dá o tom entre o jovem, que perdeu o pai e cogita vender as terras, e Nicanor, que volta para ela casado e com quatro filhos. 


Para vender as terras, é necessário primeiro resolver as burocracias para registro de terras e por isso Nicanor desce o morro e vai até a sede do distrito. É tempo de relembrar da família, os irmãos mortos, depois a mãe, por fim o pai, tudo misturado com a memória da infância. “Por que eu?”, ele se perguntava. “Com que finalidade continuei vivo? Só eu! Um gosto amargo na boca podia significar raiva por ter permanecido o restolho de uma família, os Teixeira do alto do morro, ou júbilo e orgulho por continuar resistindo, apesar de só.” Continuar a existência parece uma premissa cuja força se sobrepõe.


No cartório, vai ter que esperar até segunda-feira para resolver todos os trâmites. Em vez de voltar para o morro, decide ficar lá por baixo, onde vai ter um baile no sábado. Arruma hospedaria e percebe que o mundo está de alguma maneira se abrindo diante de seus olhos. Enquanto isso, a família – Florinda e os meninos – sente o cansaço da longa subida, desanimada pelo chuvisco e, no caso da mulher, com o agravante do mau humor. Ela não quer estar ali, é contra a vontade que aceitou a decisão desse retorno, que para ela não quer dizer muita coisa.


Enquanto aguarda o baile, Nicanor conhece outro rapaz, Jesualdo, que lhe dá dicas de como se comportar na hora de convidar uma moça para a dança e lhe chama a atenção para a égua, que está no cio. Oferece um cavalo de estirpe para cruzar com a égua, de graça. No dia seguinte ao baile, vão até a fazenda da família de Jesualdo. Então Nicanor conhece o pai e as irmãs, Marialva, que parece bem interessada nele, e a mais nova, Florinda.


Toda vez que olha para Marialva, recebe um olhar e um sorriso em retribuição. “Aquilo como uma reação química com pressa de querer bem: uma síntese.” Um namoro se engata. No outro plano, a viagem que culminará na subida prossegue, Nicanor, a mulher Florinda, os quatro filhos. A alternância da narrativa tem propósito claro, despertar no leitor curiosidade para saber o que aconteceu entre o interesse pela irmã mais velha e o casamento seguido de quatro filhos com a mais nova. 

O namoro com Marialva se desenvolve com encontros quinzenais, até virar noivado. Sempre que vai até a fazenda da namorada, passa a noite num galpão. Um dia, comparece ao aniversário de 17 anos da cunhada, momento para uma grande reunião familiar. À noite, a jovem Florinda invade sua cama e o inevitável acontece. A revelação nos meses seguintes da gravidez se dá junto com a decisão de uma viravolta familiar. Agora será preciso se casar com a mais nova, mas a ruptura com os irmãos, Marialva e Jesualdo, é inevitável: a amargura de ambos não concede perdão. Antero, o pai, lhes empresta uma fazenda logo ao lado para que toquem a vida. Alguma dignidade será mantida, ele supõe. Algum restauro da ordem. 


Por fim, Marialva também se casa, a vida parece seguir, os filhos chegam para aumentar a família, as coisas se conformam em novas configurações, apesar de tudo. Modesto é o mais velho. Depois Breno, Ernesto, uma escada, quase uma escala. O velho Antero morre, o que deixa margem para que o rancor de Jesualdo mostre a nova face, nem sempre os novos modelos são benéficos.


Ele passa a praticar atentados contra a propriedade da família da irmã, depois de se oferecer para comprar a terra e ser recusado. Por fim, nasce Zuleide, a caçula. Tiros contra a casa, fogo em pastagens, a execução de um cachorro. A decisão vem então. Nicanor quer voltar para o Morro do Caipora, ainda sua propriedade. Florinda não quer, mas termina submetida. 

A nova fase da vida da família, no alto do morro, não é simples. A terra é árida, o trabalho vasto. Quando Nicanor negocia mais uma vez a venda do morro, agora é Florinda quem recusa. Ela não queria subir o morro, mas agora está decidida a nunca mais descer. Como o casamento é em comunhão de bens, a recusa dela implica que a terra não será mesmo vendida, mas o conflito entre eles abre uma nova frente. Amuados, com dificuldade de comunicação, agarram-se às próprias crenças e silêncios. Um dia, quando Nicanor vai até a cidade, descobre que Marialva ficou viúva. Volta em casa, faz a mala, vai embora. Nem conversa direito. Sai de cena como personagem de uma peça teatral.

Aqui há outro ponto de inflexão. Porque em vez de seguir a trajetória de Nicanor, que parecia personagem central para a narrativa, o que acontece é que o foco permanece na sobrevivência a duras penas da família desmembrada. Florinda e os quatro filhos. Ou três, porque Ernesto morre depois de uma febre. A família convive com a precariedade e a perspectiva de que as coisas não vão melhorar, antes o contrário. Florinda educa como pode, à noite, os filhos, o que significa pouco e mal. A vida, no entanto, como acontece, prossegue do jeito que dá. Do mundo exterior, as notícias às vezes comparecem. Mudaram a capital. Falam em trazer luz para o povoado, os meninos crescem.

Modesto vai primeiro, para uma cidade, cumprir a obrigação com o Exército, mas quando volta é para dizer que não volta, que pretende ficar lá embaixo, na cidade, onde arrumou trabalho num frigorífico, e pretende preparar a descida para os outros. Mas Florinda diz que dali não sai. Se isola, resiste. Os outros insistem com ela que aquilo ali já deu, mas ela não quer conversa

As atribulações da sobrevivência persistem, a precariedade se alastra. Breno se vai. Volta para arrastar as duas à festa de noivado de Modesto, onde ficam sabendo que agora existem militares no poder. Depois é a vez de Zuleide, a partida mais dolorida. Florinda então fica só. “Tão sozinha, ela pensa, que chega a ser livre.” Breno retorna para insistir com ela mais uma vez. Pode morar com qualquer um dos filhos, pode escolher. Todos a receberão, se quiser. Mas ela recusa. Fincou raízes e se agarra a elas. 

A solidão e a resiliência, que parecem ser os grandes temas deste livro, tornam-se manchadas apenas pela aparência de que ninguém tem controle sobre o próprio destino ou, se decide ter, paga um preço que é por demais elevado e leva até a ruína inevitável. Parece existir uma força maior, da história, que se contrapõe às forças internas, a nível pessoal. Postos em contraste, o sujeito não é tão dono da própria história, uma vez que está submetido a impactos maiores, às rodas de um comportamento social, de uma rotina que não foi criada por ele, mas a que é preciso se submeter. E por um sentido de resistência que não se sabe bem a quê, resistir pela impossibilidade de reagir a novos cenários, a diferentes situações. A resistência do empedernido. 

Causa certa estranheza esse abandono de um personagem, Nicanor, a meio do caminho, até que o leitor se vê forçado a entender que não é o personagem a força-motriz, mas o enredo das vidas redundantes, da miséria resiliente, das voltas e viravoltas que na verdade desembocam na mesma estrada, da qual, no fundo, ninguém se desvia muito. Menalton Braff desta vez escreveu um romance de desesperança que se disfarça em força. 

* Paulo Paniago é professor na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

Trecho do livro


“Finalmente Modesto espera uma pausa no assunto e se encoraja. 

- Mãe, não quero que a senhora sofra com a notícia. A senhora promete? 

- Que notícia, Modesto? – sua voz treme e trai a ansiedade, talvez medo. 

- A senhora promete?

- Promete o quê, Modesto?

- Que não vai sofrer.

- Deixa de ser bobo, menino. Então como é que posso prometer alguma coisa se nem sei o que tu vai dizer.

Ele paira o olhar sobre a mesa sem ver, pensa um instante e se abre.

- É o seguinte: nesta viagem, do meu lado sentou um homem que me perguntou de onde eu era, e expliquei que tinha nascido aqui, na Pedra Azul, mas que agora trabalhava num frigorífico na cidade. Ele disse que conhecia muita gente em Pedra Azul e perguntou quem era meu pai. Contei assim mais ou menos, que há muitos anos ele tinha desaparecido e a gente nunca mais teve notícia dele. Porém, ele insistiu e eu disse o nome do pai. Então ele me olhou com cara de assustado e disse, mas esse homem é meu amigo. Ele vive com a viúva Marialva, em Jacutinga. 

Tremem os lábios de Florinda, e por eles passam palavras inaudíveis. Seus olhos despacham chispas de ódio na direção do filho por ter trazido tal notícia. Segue-se um longo silêncio que deixa entrarem pela janela aberta os ruídos da noite que, por causa do frio e do vento, não são muitos.”
“Saber por ter notícia é também um modo de saber. Mas um saber que afeta menos, pois formado por palavras, e as palavras são sempre muito voláteis. Deixam menos marcas. E há sempre a possibilidade de que a situação não esteja bem definida, oscilando entre nem tanto ou ainda mais. Às vezes pode nem ser verdade. Era só um modo de falar, uma impressão que não se confirma. Pelo menos, quando necessária, cresce tal esperança. Não passou tudo de um engano, ou era apenas uma mentira, porque as palavras, quem as governa? 



Jesualdo seguiu para casa no trote do cavalo. Voltou ao lado oposto da colina, onde estivera, atravessou uma roça de mandioca, entrou pela estrada do capão na direção do campo. Não sentia o lombo do animal, não comandava sua direção, não via nada do entorno. Ele tinha visto: Nicanor arava uma terra que não era sua, com bois e arado que não eram seus, e sim do sogro. E a imagem, mesmo que borrada pela distância, não saía mais de seus olhos, uma afronta, o descalabro. 
Agora eu vi, ninguém me contou, e Jesualdo seguia aquele pensamento sacudido pelo trote do cavalo. Agora eu vi. E sua raiva, que nos últimos meses vinha arrefecendo, trancou-se em sua garganta para poder crescer até quase o insuportável.”

Além do rio dos sinos: romance
De Menalton Braff
Reformatório
280 páginas
R$ 44 

terça-feira, 26 de maio de 2020

OS 26 LIVROS DE MENALTON BRAFF

Embora nem todos saibam, Menalton já publicou 26 livros. Desses, apenas 24 levam a sua assinatura. Nos dois primeiros, ele usou o  pseudônimo 'Salvador dos Passos'.

O mais recente é o romance "Além do Rio dos Sinos", lançado em março pela Editora Reformatório. Entre aqueles dois primeiros e o último, Braff publicou romances, contos, novelas infantis e juvenis. Recebeu diversos prêmios, entre os quais o Jabuti livro do ano em 2.000 com a coletânea de contos "À sombra do cipreste".

Relacionamos, a seguir, todos os títulos, classificados por público alvo, com links para as páginas deste blog que trazem informações sobre cada um deles.

Boas descobertas e, caso você se anime a conhecer algum deles, boa leitura!!!

Para adultos

ALÉM DO RIO DOS SINOS (Romance lançado pela Editora Reformatório).

AMOR PASSAGEIRO (Coletânea de contos lançada pela Editora Reformatório)

NOITE ADENTRO (Terceiro volume da trilogia "Tempus Fugit")

O PESO DA GRAVATA  

POUSO DO SOSSEGO ( Segundo volume da
trilogia "Tempus Fugit")
TAPETE DE SILÊNCIO (Primeiro volume da trilogia "Tempus Fugit")

À SOMBRA DO CIPRESTE Prêmio Jabuti - Livro do ano  em 2.000)








Juvenis





Infantis
MIRINDA

domingo, 24 de maio de 2020

FRASE

A coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 


domingo, 17 de maio de 2020

FRASE


 Agora, em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. As frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 










domingo, 10 de maio de 2020

FRASE

Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 





domingo, 3 de maio de 2020

FRASE

Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 

domingo, 26 de abril de 2020

FRASE

Em 2020, a coluna FRASE ganhou uma nova perspectiva. Agora, as frases não são mais de autores e sim de personagens da literatura. A que escolhemos para este domingo é do narrador do romance "Além do Rio dos Sinos", o mais novo livro de Menalton Braff. 




sábado, 25 de abril de 2020

"ALÉM DO RIO DOS SINOS" NO PODCAST PÁGINA CINCO

O romance "Além do Rio dos Sinos" foi um dos livros citados por Rodrigo Casarin na edição de ontem do podcast Página Cinco. Ele convidou Menalton a falar um pouco sobre esse romance que é o 26º de sua carreira.

Além da menção ao livro de Braff, Casarin falou sobre a coletânea de contos Amores em quarentena, o romance "Ana de Corona", de Gisele Mirabai, sobre a exposição Ocupação Hilda Hilst, entre outros.Vale a pena  ouvir. 


               

terça-feira, 14 de abril de 2020

MENALTON DÁ VOZ À SUA ESCRITA

A pedido de um leitor, o escritor Menalton Braff decidiu gravar um trecho de seu próprio romance, "Além do Rio dos Sinos", que acaba de ser lançado pela Editora Reformatório.


            

domingo, 12 de abril de 2020

MANIFESTAÇÕES

Recebi o e-mail da Ilda Rodrigues, uma leitora, mensagem emocionada e emocionante.

(de Ilda Rodrigues de Souza
para mim)


Terminei agora a leitura de ALÉM DO RIO DOS SINOS".

Não imaginava essa outra realidade gaúcha.

Como sempre, suas obras me emocionam muito.

Mas, essa me deixou soluçando. Foi uma catarse.

"Vi" minha mãe na personagem Florinda.

Num lugar inóspito lutando para o dia a dia.

Comprávamos somente querosene e sal.O resto tudo era produzido com as nossas mãos. Assim como os filhos de Florinda, com seis anos já cuidávamos dos animais e da roça, já segurei cabo de arado.

Ah, chega de lágrimas.

Gostei da recorrência do pio da coruja.G

Ramos deve ter ficado feliz.

A narrativa desenvolvida simultaneamente  no passado (viagem de Nicanor jovem) e

Presente (regresso com a família para o morro) foi genial.

Abraços para vocês

Ilda

sábado, 11 de abril de 2020

UMA DEGUSTAÇÃO DO NOVO ROMANCE DE MENALTON BRAFF

Para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer o romance "Além do Rio dos Sinos", de Menalton Braff, aqui vai um fragmento do texto.


Boa leitura!

Além do Rio dos Sinos  (fragmento)

O vento, de repente, dá uma rabanada na mudança de direção, e a mulher tem de enxugar com a palma da mão os respingos do rosto. O marido, ocupado na condução dos bois de volta ao meio da estrada, olha de viés para Florinda e supõe que ela esteja mais uma vez chorando. A mulher intui a irritação do marido, seu rosto duro, pois sente-se ele provavelmente acusado pelo que considera as lágrimas da esposa. A decisão de vir morar no alto do morro do Caipora tinha sido tomada depois de muita briga, muito choro, diversas ameaças. Fora uma decisão arrancada com alguma violência. Que outra solução, hein? Houve momentos em que os berros de Florinda diziam que ela preferia morrer a se mudar para aquela beirada de inferno, apenas suposto e às vezes descrito por Nicanor, nunca, porém, imaginado tão feio como agora podia ver.
E ele, com voz muito áspera:
− Tu vai começar tudo de novo?!


PRIMEIRA PARTE

Difícil reconhecer na cara triste do dia o ponto, o tanto, o quanto dele resta. Por causa do chuvisqueiro em que haviam penetrado manhã a meio e que parece ainda agora a dissolução do céu que, renitente, se asperge sobre a terra. Principalmente por cima dos morros em cujos cumes jazem as nuvens. Morros montanhas, escuros, tenebrosos.
Uma pata larga resvala coisa de oitenta centímetros: sulco longo, o mundo marcado. O boi brasino, sem outro nome além do pelo, se ajoelha e arrasta uma braça o hosco seu companheiro, que, pescoço torto a ponto de um gemido, se firma nas quatro patas cravadas no barro e bufa querendo saber, aquele peso, a carreta chacoalha e um dos meninos resmunga. É a hora que Florinda desce os olhos pela vertente do morro mais próximo e examina o interior escuro da carreta. Só olha e pouco vê debaixo da tolda. O chuvisqueiro arranca brilhos escuros das folhas das árvores mais próximas e molha aquelas encostas por onde se vai ao céu. O chuvisqueiro.
Ao virar a cabeça outra vez para a frente, para o mais claro, e encarar a tamanha altura, sente medo de que o alto cume se despenhe por cima da carreta, e reage subitamente encolhendo-se um pouco e mantendo os músculos retesados. O medo. É com raiva que volta a olhar para o alto. Com toda sua raiva. Olha com sentimento de desafio. Então vê uma testa enrugada, as sobrancelhas erguidas, a carantonha aterradora do morro. Uma coisa grandiosa a espreita e ameaça. Desvia os olhos para a estrada a sua frente, as mãos suadas. A antipatia nascida das palavras de Nicanor agora cresce ilimitada com a visão aguada dos morros.
Há muito tinham deixado o Angico para trás, encolhido pelo chuvisco. Debaixo. Percorreram os três quilômetros de casas esparsas na beira da estrada sem uma única palavra. Foi aqui, ela pensou. O passado chegando em forma de notícia. Expulsos da roça pelo chuvisqueiro, homens debaixo de seus chapéus vêm à porta das bodegas com os cálices na mão para se interrogarem sobre uma carreta toldada, quem é que é?, quem é que pode ser?

[...]

− Tu vai começar tudo de novo?!
Em sua voz trovejam ameaças de quem tem o futuro preso entre os dedos, senhor dos destinos. Florinda demora-se um pouco para responder. “Tudo”, uma palavra tão ampla quanto vazia, ela agora vai preenchendo com as brigas do casal, sua recusa de sair aventurando-se por aí para seguir um marido, suas várias recusas, todas muito enfáticas, de se mudar para o alto de um morro apenas conhecido pelas descrições de Nicanor, imaginado como um inferno rente ao céu pela dureza das palavras com que o marido se referia ao lugar onde tinha nascido. Ela sente raiva na pergunta do marido e lhe devolve em ressentimento, além de uma vontade imensa de agredi-lo, sua resposta. Começar o quê? A sensação de estar sendo arrastada por esta mão bruta pelo barro da estrada lodosa sem qualquer possibilidade de retorno, como uma praga, um castigo, com destino marcado, essa sensação, desde a morte do pai, jamais deixara de sentir. Se estava pagando por atos passados, continuaria a pagar até a última gota de vida. Para tanto estava com o coração petrificado.
− E a pior coisa é essa asnice de achar que eu estou chorando. Já chorei tudo que tinha de chorar. Deixei minhas lágrimas na terra que foi do meu pai. Agora a fonte secou. Nunca mais tu vai ver lágrima descendo pelo meu rosto. Então não vê que foi a chuva que me molhou? Por que tanta asnice assim?
A voz de Florinda sobe como do estômago por canal apertado e áspero e não sai pela boca, mas da boca vai caindo aos pedaços.
Zuleide, acomodada sobre um pelego entre dois sacos, solta o berreiro da fome e a mãe, muito brusca, abandona o banco e engatinha por cima de objetos e filhos até a criança. Ainda bem, pensa a mãe enquanto descobre o peito. Ainda bem, porque Nicanor dava sinais de querer continuar a discussão.
A boquinha aberta, a cabeça agitada, não há necessidade de luz para que a menina encontre o mamilo para sugar-lhe a seiva. Percebendo a proximidade da mãe, Breno, o filho de seis anos com voz chorosa, se queixa de fome. Espera tua vez, meu filho. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo. O embalo de ritmo irregular da carreta prossegue e o menino dá a impressão de ter adormecido.
Da posição em que se pôs para amamentar a filha, Florinda pode atravessar com os olhos uma fresta na tolda que protege a traseira da carreta e divisa o cavalo baio que, preso pelo cabresto, segue a passo moroso o andamento dos bois. Seu lombo molhado, as orelhas murchas. Ele, esse cavalo, fez parte dos acertos de contas, somado a outras coisas, umas migalhas, e algum dinheiro. Pouco dinheiro. Um velhaco ganancioso, aquele seu irmão. Que sua vida seja para sempre um inferno. A mãe se esforça por não se irritar ainda mais com aquilo, pois leite de mãe irritada causa dor de barriga na criança. Não é assim? Prefere olhar para cima, procurando furos na lona da tolda. Mas depois de descobrir uns dois ou três sem tamanho que preocupe, ela se cansa e se volta para a filha, que parece insaciável. Por fim, vencida pela impaciência, e com voz abafada que mal chega aos ouvidos de Nicanor:
− Ainda falta muito, Nicanor? As crianças não aguentam mais.


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sábado, 4 de abril de 2020

COMPRE UM E GANHE OUTRO NA REFORMATÓRIO

Começou quarta (1), e vai até terça (7), a promoção compre um e ganhe outro da Editora Reformatório.

O segundo livro é escolhido pela própria editora, mas não se preocupem: eles só editam coisa boa.

Para quem não sabe, Menalton tem dois livros lançados pela Reformatório:

Amor Passageiro, de 2019 (coletânea de contos)

Além do Rio dos Sinos, de 2020 (o mais novo romance do autor, lançado agora em março)

Para acessar a loja e escolher o livro que quer comprar, clique aqui. Para os livros de Menalton, clique diretamente nos nomes dos livros (acima).


segunda-feira, 23 de março de 2020

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff.

Solipsismo


Sempre tive fascinação pelas palavras, que eu me lembre, desde nossas brincadeiras infantis, meu irmão mais velho e eu, disputando a invenção da palavra mais feia, e isso era um modo de brincar com prefixos e sufixos sem saber que eles existiam. Numa segunda-feira pela manhã, minha palavra “pescação”, depois de uma pescaria de domingo, foi a vencedora. Nem “pescatura” me desbancou.

Mas as belas palavras como “libélula”, por sonora, ou “solipsismo” pelo aspecto mais para estranho, também me atraíam.

E por falar em solidão, essa é a ladeira em que deslizávamos sem nenhum controle, sobretudo depois dos computadores e dos celulares.

Não tínhamos mais que desgrudar a bunda da poltrona no sagrado conforto de nosso lar para encontrar os amigos, ou, pelo menos, ouvir suas vozes me alizadas pelos aparelhinhos movidos a eletricidade. As pessoas, a maioria dos jovens, principalmente, perderam o hábito, talvez a aptidão, de olhar para o rosto de um ser de sua espécie, muito menos para os olhos, que antigamente se dizia que eram o espelho da alma. Para os assim chamados viciados em produtos tecnológicos, então, um encontro físico com qualquer dos gêneros tornava-se algo perto do terror.

E eis que do outro lado do oceano nos chega a complicação. Não se trata mais de mero vício em tecnologia, agora é uma questão de sobrevivência.

Fui a São Paulo para o lançamento de meu romance Além do Rio dos Sinos, editado pela Editora Reformatório, deste bravo cavaleiro andante da literatura, o senhor Marcelo Nocelli, e eis que no dia anterior nos chega a notícia de que o local do lançamento, a Casa Tombada, acompanhando o movimento geral dos locais públicos, estará até segunda ordem fechada a qualquer evento em que se encontrem muitas pessoas.

O lançamento de um livro é sempre momento de encontros, amigos que se veem depois de muito tempo, às vezes anos, ou seja, é em geral um momento de confraternização, de alegria de simpatia humana. E nós, que já nos privávamos dos encontros com amigos e conhecidos, fomos intensificados neste solipsismo pelo coronavírus.

Prestes a arrumar as malas para retornar a casa, o Marcelo propõe a inauguração de um lançamento em moldes modernos, dos mais modernos, o lançamento virtual, e assim foi feito. Publicado o link de sua loja eletrônica, todos aqueles que até determinada hora no dia estabelecido para o lançamento, ligassem comprando o romance, receberiam o livro devidamente autografado, sem custo de transporte.

Em resumo, na medida em que a sociedade humana avança, nós ficamos mais distantes uns dos outros. O que é uma pena.