AO ESCAPAR ESCOLHEU
Pág. 33 - "Aconteceu então o episódio da granada. Foi assim.
Um grupo de soldados chegou e pediu comida. (...) A comida demorou a chegar. Já rareava e não havia boa vontade, então eles só nos conhecem quando têm fome? Nem deu tempo para comerem.
Outro grupo entrou pela aldeia aos tiros."
(...) Ulume disse, temos de fugir daqui, vamos para o palmar. (...) Correu para a direita, se enfiou numa vala."
Pág. 34 _ Foi então que viu aquele bocado de pau com um ferro na ponta rodopiar no ar e começar a descrever o movimento de descida. Tinha aprendido com os visitantes anteriores, era uma granada chinesa. Caiu a dois metros dele (...) Se colou mais à terra, olhou o céu azul, vou morrer, e o rosto de Munakazi se recortou nítido no azul intenso, porque não me tiveste? A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte.(...) O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios de tarde, não sentia angústia."
"Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. (...) Então decidiu, Munakazi tem de ser minha."
(...)
"O tempo passou e só o notou porque o frio da noite nele entrou."
Pág. 35 - "Mesmo o amanhecer foi diferente, pois os galos estranhamente não cantaram. Mas a vida retomou os seus direitos, com os insectos escarafunchando entre as folhas, os pássaros esvoaçando ainda sonolentos, o sol se erguendo timidamente entre nuvens. Todo o corpo doía pela imobilidade e o frio."
"Ficou sentado muito tempo, ganhando coragem. (...) Não tinha dúvida, a Muari estava viva. Desapareceu por momentos e depois regressou ao ângulo de visão. "
"Desceu o morro ... (...) Os soldados já lá não estavam, era evidente."
Pág. 36 - "Mande e Abílio foram vistos a ajudar os soldados no transporte de todas as galinhas e cabritos que puderam. Ana e Chisole também. Mas faltava Catarina, uma jovem filha de Epole. Não tinha participado no transporte, devia andar perdida por aí. Ou morta."
"(...) Os soldados deixaram o milho, não tinham braços que chegassem para carregar tudo e por isso escolheram o mais precioso."
"Durante o dia encontraram o corpo de Catarina, atravessado pelas balas, e com sinais de ter sido violada."
"Discutiram no njango durante muito tempo se deviam mudar a aldeia. Alguns achavam sim, vamos mais para dentro, onde haja água. Este é um lugar de passagem, com muitos caminhos, até os carros podem chegar, vêm sempre nos incomodar."
Pág. 37 - "Foi um grupo à frente fazer exploração. Encontraram um bom sítio a um dia de marcha, era bem no meio da Munda, ali ninguém que chegava. Carregaram toda a comida que puderam, foram com as famílias."
"Foi nessa altura que Ulume aproveitou contar à Muari o seu desejo de casar com Munakazi. Ela não o contrariou. Disse apenas esse é o teu direito, eu aceito, mas talvez não seja a melhor altura. Não tinham cabritos para oferecer à família de Munakazi, muito menos cobertores ou vinho. Como pagar o alembramento? (...) Mas o motivo principal deixou ele para o fim. Contou então a cena da granada e o rosto de Munakazi recortado contra o céu azul. Muari concordou, razão forte demais. Versada nos conhecimentos antigos, o olhar perdido nas chamas da fogueira, ela disse cumpre o teu destino, o sinal é demasiado evidente para o ignorares, algum antepassado falou através da granada. E Munakazi vai nos dar muitos filhos. "
Para quem não se recorda. Logo após a independência de Angola, em 1975, com o MPLA apoiado pelos soviéticos no poder, os Estados Unidos incitaram um líder de oposição, Jonas Savimbi, a iniciar a guerra contra o governo, luta que serve de pano de fundo para a história de Ulume, Muari e Munakazi.
Glossário:
alembramento - dote oferecido pelo noivo à família da noiva
Pág. 33 - "Aconteceu então o episódio da granada. Foi assim.
Um grupo de soldados chegou e pediu comida. (...) A comida demorou a chegar. Já rareava e não havia boa vontade, então eles só nos conhecem quando têm fome? Nem deu tempo para comerem.
Outro grupo entrou pela aldeia aos tiros."
(...) Ulume disse, temos de fugir daqui, vamos para o palmar. (...) Correu para a direita, se enfiou numa vala."
Pág. 34 _ Foi então que viu aquele bocado de pau com um ferro na ponta rodopiar no ar e começar a descrever o movimento de descida. Tinha aprendido com os visitantes anteriores, era uma granada chinesa. Caiu a dois metros dele (...) Se colou mais à terra, olhou o céu azul, vou morrer, e o rosto de Munakazi se recortou nítido no azul intenso, porque não me tiveste? A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte.(...) O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios de tarde, não sentia angústia."
"Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. (...) Então decidiu, Munakazi tem de ser minha."
(...)
"O tempo passou e só o notou porque o frio da noite nele entrou."
Pág. 35 - "Mesmo o amanhecer foi diferente, pois os galos estranhamente não cantaram. Mas a vida retomou os seus direitos, com os insectos escarafunchando entre as folhas, os pássaros esvoaçando ainda sonolentos, o sol se erguendo timidamente entre nuvens. Todo o corpo doía pela imobilidade e o frio."
"Ficou sentado muito tempo, ganhando coragem. (...) Não tinha dúvida, a Muari estava viva. Desapareceu por momentos e depois regressou ao ângulo de visão. "
"Desceu o morro ... (...) Os soldados já lá não estavam, era evidente."
Pág. 36 - "Mande e Abílio foram vistos a ajudar os soldados no transporte de todas as galinhas e cabritos que puderam. Ana e Chisole também. Mas faltava Catarina, uma jovem filha de Epole. Não tinha participado no transporte, devia andar perdida por aí. Ou morta."
"(...) Os soldados deixaram o milho, não tinham braços que chegassem para carregar tudo e por isso escolheram o mais precioso."
"Durante o dia encontraram o corpo de Catarina, atravessado pelas balas, e com sinais de ter sido violada."
"Discutiram no njango durante muito tempo se deviam mudar a aldeia. Alguns achavam sim, vamos mais para dentro, onde haja água. Este é um lugar de passagem, com muitos caminhos, até os carros podem chegar, vêm sempre nos incomodar."
Pág. 37 - "Foi um grupo à frente fazer exploração. Encontraram um bom sítio a um dia de marcha, era bem no meio da Munda, ali ninguém que chegava. Carregaram toda a comida que puderam, foram com as famílias."
"Foi nessa altura que Ulume aproveitou contar à Muari o seu desejo de casar com Munakazi. Ela não o contrariou. Disse apenas esse é o teu direito, eu aceito, mas talvez não seja a melhor altura. Não tinham cabritos para oferecer à família de Munakazi, muito menos cobertores ou vinho. Como pagar o alembramento? (...) Mas o motivo principal deixou ele para o fim. Contou então a cena da granada e o rosto de Munakazi recortado contra o céu azul. Muari concordou, razão forte demais. Versada nos conhecimentos antigos, o olhar perdido nas chamas da fogueira, ela disse cumpre o teu destino, o sinal é demasiado evidente para o ignorares, algum antepassado falou através da granada. E Munakazi vai nos dar muitos filhos. "
Para quem não se recorda. Logo após a independência de Angola, em 1975, com o MPLA apoiado pelos soviéticos no poder, os Estados Unidos incitaram um líder de oposição, Jonas Savimbi, a iniciar a guerra contra o governo, luta que serve de pano de fundo para a história de Ulume, Muari e Munakazi.
Glossário:
alembramento - dote oferecido pelo noivo à família da noiva

Nossa eu amei a historia, ,ais eu queria a continuação essa historia é tão linda!
ResponderExcluirBeijos
Raquel