Voltamos às "Cartas a um jovem poeta", escritas por Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas do século XX.
23 de dezembro de 1903
Meu caro senhor Kappus,
O senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o
Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas
se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a
si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma
solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as
horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais
banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância
com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam
justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é
doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera.
Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão,
uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante
horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança,
quando os adultos passavam para lá e para
cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de
estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.
E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas,
que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que
não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, a partir da
profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma
um trabalho, um cargo e uma profissão?
Por que se desejaria trocar o sábio não-entendimento de uma
criança pela atitude defensiva e pelo desprezo, uma vez que o não-entendimento
é estar sozinho, mas a atitude defensiva e o desprezo são participações naquilo
de que, com esses recursos, as pessoas querem se afastar?
Pense, meu caro, no mundo que o senhor leva dentro de si,
então dê a esse pensamento o nome que quiser; pode ser lembrança da própria
infância ou anseio do próprio futuro - apenas
preste atenção no que surge a partir de dentro e eleve-o acima de tudo o que o senhor percebe
em torno. Se um acontecimento mais íntimo é digno de todo o seu amor, é nesse
acontecimento que o senhor deve trabalhar de algum modo, sem perder muito tempo
nem muito esforço para esclarecer sua posição em relação aos outros homens.
Quem é que lhe diz que o senhor tem uma posição? Eu sei, a sua profissão é dura
e cheia de contradições que o afetam, e eu previa as suas queixas, já sabia que
elas viriam um dia. Agora que vieram, não posso tranquilizá-lo, posso apenas
aconselhar que pondere se todas as profissões não são assim, cheias de exigências,
cheias de animosidade contra o indivíduo, repletas do ódio daqueles que se conformaram,
resignados e rabugentos, com sua obrigação insossa. O cargo com o qual o senhor
tem de viver agora não é mais carregado de convenções, preconceitos e enganos do que todos os outros cargos; se há alguns que
revelam uma liberdade maior, mesmo assim não existe nenhum que seja amplo e
espaçoso, que se relacione com as grandes coisas de que a verdadeira vida é
constituída. Apenas o indivíduo solitário é como uma coisa submetida às leis
profundas, e quando alguém sai de casa durante uma manhã que se inicia, ou olha
para fora ao entardecer carregado de acontecimentos, quando sente o que
acontece lá fora, qualquer cargo se desprende dele como de um morto, por mais
que se encontre no meio da vida em sua plenitude. O que o senhor precisa
enfrentar agora como oficial, caro senhor Kappus, é algo que seria sentido em qualquer
outra profissão, até mesmo caso, sem qualquer cargo, tivesse procurado sozinho
um contato leve e independente com a sociedade, não seria poupado desse sentimento
opressor. - É assim em toda parte; mas isso não é motivo
para medo ou tristeza; se não há nenhuma comunhão entre os homens e o senhor, procure estar próximo
das coisas, que não o abandonarão; ainda lhe restam as noites e os ventos que passam
pelas árvores e sobre muitas terras; entre as coisas e os animais, tudo ainda é
pleno de acontecimentos em que se pode tomar parte; e as crianças ainda são
como o senhor era quando criança, igualmente tristes e igualmente felizes.
Quando pensar em sua infância, viva de novo entre elas, de modo que os adultos
não sejam nada e suas virtudes não tenham valor algum.
Se é algo angustiante
e perturbador pensar em sua infância, na simplicidade e na quietude que a
envolvem, porque o senhor não pode mais acreditar em Deus como o via antes,
pergunte a si mesmo, caro senhor Kappus, se perdeu realmente Deus. O que ocorre
não é que não chegou jamais a possuí-lo? Pois quando isso teria acontecido? O senhor
acredita que uma criança pode sustentá-lo, se os homens só o suportam com esforço,
se seu peso esmaga os anciãos? Acredita que alguém, caso realmente o possua, pode
perdê-lo como se perde uma pedrinha
qualquer, ou não percebe também que quem o tivesse só poderia ser perdido por
ele? -
Contudo, se o senhor reconhece que ele não se encontrava em sua
infância, nem antes, se intui que Cristo foi iludido por sua nostalgia e Maomé
foi enganado por seu orgulho - e se o senhor sente com temor que Deus também
não existe agora, neste momento em que falamos dele -, então de que lhe vale sentir falta dele,
que nunca existiu, como de algo passado, e procurá-lo como se o tivesse
perdido?
Por que não pensar que ele é aquele que está por vir, aquele
que se encontra diante da eternidade, o futuro, o derradeiro fruto de uma
árvore cujas folhas somos nós? O que o impede de projetar seu nascimento nos
tempos por vir, de modo a viver sua vida como um dia doloroso e belo na
história de uma grande gravidez? O senhor não percebe como tudo o que acontece
é sempre de novo um começo? E não poderia ser o começo dele, já que todo início é sempre tão belo? Se ele
é o mais perfeito, o que há de pequeno não tem que estar antes dele, de maneira
que ele possa se escolher a partir da plenitude e da superabundância? Ele
não tem de ser o último, a fim de abarcar tudo? E qual sentido teríamos
nós se aquele pelo qual ansiámos já tivesse existido? Assim como as abelhas juntam o mel, reunimos o que há de mais doce em tudo
e o construímos. É com o que há de menor, com o que há de insignificante (caso
resulte do amor) que começamos, em seguida recorremos ao trabalho e ao
descanso, a um silêncio ou a uma pequena alegria solitária, a tudo aquilo que fazemos sozinhos, sem
participantes e colaboradores, assim damos início àquele que não
presenciaremos, do mesmo modo que nossos antepassados não nos puderam
presenciar. E no entanto eles, que se foram há muito tempo, se encontram em
nós, como projeto, como carga pesando
sobre o nosso destino, como sangue que corre em nós e como um gesto que
desponta das profundezas do tempo.
Alguma coisa pode tirar a sua esperança de estar um dia
nele, no mais distante, no mais extremo?
Caro senhor Kappus, festeje o Natal com esse sentimento
piedoso de que talvez ele precise exatamente dessa angústia por parte do
senhor, para começar. Esses dias de transição talvez sejam justamente o tempo
em que tudo no senhor trabalha nele, como no passado, quando er a criança, o
senhor trabalhou nisso, sem fôlego. Seja paciente, sem má vontade, e pense que
o mínimo que podemos fazer é não dificultar sua vinda mais do que a Terra
dificulta a chegada da primavera quando ela se anuncia.
Fique alegre e seja confiante.
Seu,
Rainer Maria Rilke
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