quinta-feira, 25 de julho de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (6)

Voltamos às "Cartas a um jovem poeta", escritas por Rainer Maria Rilke, um dos maiores poetas do século XX. 

23 de dezembro de 1903
Meu caro senhor Kappus,

O senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas  uma  solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para  cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas,  porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.


E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, a partir da profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma um trabalho, um cargo e uma profissão? 

Por que se desejaria trocar o sábio não-entendimento de uma criança pela atitude defensiva e pelo desprezo, uma vez que o não-entendimento é estar sozinho, mas a atitude defensiva e o desprezo são participações naquilo de que, com esses recursos, as pessoas querem se afastar?

Pense, meu caro, no mundo que o senhor leva dentro de si, então dê a esse pensamento o nome que quiser; pode ser lembrança da própria infância ou anseio do próprio futuro  - apenas preste atenção no que surge a partir de dentro e  eleve-o acima de tudo o que o senhor percebe em torno. Se um acontecimento mais íntimo é digno de todo o seu amor, é nesse acontecimento que o senhor deve trabalhar de algum modo, sem perder muito tempo nem muito esforço para esclarecer sua posição em relação aos outros homens. Quem é que lhe diz que o senhor tem uma posição? Eu sei, a sua profissão é dura e cheia de contradições que o afetam, e eu previa as suas queixas, já sabia que elas viriam um dia. Agora que vieram, não posso tranquilizá-lo, posso apenas aconselhar que pondere se todas as profissões não são assim, cheias de exigências, cheias de animosidade contra o indivíduo, repletas do ódio daqueles que se conformaram, resignados e rabugentos, com sua obrigação insossa. O cargo com o qual o senhor tem de viver agora não é mais carregado de convenções, preconceitos e enganos do que todos os outros cargos; se há alguns que revelam uma liberdade maior, mesmo assim não existe nenhum que seja amplo e espaçoso, que se relacione com as grandes coisas de que a verdadeira vida é constituída. Apenas o indivíduo solitário é como uma coisa submetida às leis profundas, e quando alguém sai de casa durante uma manhã que se inicia, ou olha para fora ao entardecer carregado de acontecimentos, quando sente o que acontece lá fora, qualquer cargo se desprende dele como de um morto, por mais que se encontre no meio da vida em sua plenitude. O que o senhor precisa enfrentar agora como oficial, caro senhor Kappus, é algo que seria sentido em qualquer outra profissão, até mesmo caso, sem qualquer cargo, tivesse procurado sozinho um contato leve e independente com a sociedade, não seria poupado desse sentimento opressor.  -  É assim em toda parte; mas isso não é motivo para medo ou tristeza; se não há nenhuma comunhão entre  os homens e o senhor, procure estar próximo das coisas, que não o abandonarão; ainda lhe restam as noites e os ventos que passam pelas árvores e sobre muitas terras; entre as coisas e os animais, tudo ainda é pleno de acontecimentos em que se pode tomar parte; e as crianças ainda são como o senhor era quando criança, igualmente tristes e igualmente felizes. Quando pensar em sua infância, viva de novo entre elas, de modo que os adultos não sejam nada e suas virtudes não tenham valor algum.

 Se é algo angustiante e perturbador pensar em sua infância, na simplicidade e na quietude que a envolvem, porque o senhor não pode mais acreditar em Deus como o via antes, pergunte a si mesmo, caro senhor Kappus, se perdeu realmente Deus. O que ocorre não é que não chegou jamais a possuí-lo? Pois quando isso teria acontecido? O senhor acredita que uma criança pode sustentá-lo, se os homens só o suportam com esforço, se seu peso esmaga os anciãos? Acredita que alguém, caso realmente o possua, pode perdê-lo como se perde  uma pedrinha qualquer, ou não percebe também que quem o tivesse só poderia ser perdido por ele?  -  Contudo, se o senhor reconhece que ele não se encontrava em sua infância, nem antes, se intui que Cristo foi iludido por sua nostalgia e Maomé foi enganado por seu orgulho  -  e se o senhor sente com temor que Deus também não existe agora, neste momento em que falamos dele  -, então de que lhe vale sentir falta dele, que nunca existiu, como de algo passado, e procurá-lo como se o tivesse perdido?
Por que não pensar que ele é aquele que está por vir, aquele que se encontra diante da eternidade, o futuro, o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos nós? O que o impede de projetar seu nascimento nos tempos por vir, de modo a viver sua vida como um dia doloroso e belo na história de uma grande gravidez? O senhor não percebe como tudo o que acontece é sempre de novo um começo? E não poderia ser o começo dele,  já que todo início é sempre tão belo? Se ele é o mais perfeito, o que há de pequeno não tem que estar antes dele, de maneira que ele possa se escolher a partir da plenitude e da superabundância?  Ele  não tem de ser o último, a fim de abarcar tudo? E qual sentido teríamos nós se aquele pelo qual ansiámos já tivesse existido? Assim como as abelhas juntam  o mel, reunimos o que há de mais doce em tudo e o construímos. É com o que há de menor, com o que há de insignificante (caso resulte do amor) que começamos, em seguida recorremos ao trabalho e ao descanso, a um silêncio ou a uma pequena alegria solitária,  a tudo aquilo que fazemos sozinhos, sem participantes e colaboradores, assim damos início àquele que não presenciaremos, do mesmo modo que nossos antepassados não nos puderam presenciar. E no entanto eles, que se foram há muito tempo, se encontram em nós,  como projeto, como carga pesando sobre o nosso destino, como sangue que corre em nós e como um gesto que desponta das profundezas do tempo.

Alguma coisa pode tirar a sua esperança de estar um dia nele, no mais distante, no mais extremo?
Caro senhor Kappus, festeje o Natal com esse sentimento piedoso de que talvez ele precise exatamente dessa angústia por parte do senhor, para começar. Esses dias de transição talvez sejam justamente o tempo em que tudo no senhor trabalha nele, como no passado, quando er a criança, o senhor trabalhou nisso, sem fôlego. Seja paciente, sem má vontade, e pense que o mínimo que podemos fazer é não dificultar sua vinda mais do que a Terra dificulta a chegada da primavera quando ela se anuncia.

Fique alegre e seja confiante.
Seu,

Rainer Maria Rilke

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