quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

QUESTÕES DE ESTÉTICA DA LITERATURA (124)

Wolfgang Iser

Receptor, destinatário, leitor


Para empregar-se relativo rigor, não se devem confundir receptor e destinatário, sendo que aquele pode ser aproximado do leitor (entidade empírica com capacidade para decodificar a mensagem, quando o faz). 
Todo autor, no momento da enunciação, tem em mira um destinatário ideal. "Flaubert confessa que escreveu em parte L'education sentimentale para Sante-Beuve, paradigma do leitor inteligente; Mallarmé exclui a hipótese de os seus textos poéticos se dirigirem a um público de massas; Valéry aconselha a escrever apenas para o leitor "inteligente" e insusceptível de ser dominado por qualquer modalidade de manipulação; Fernando Pessoa/Alberto Caeiro pensa num leitor que saiba ler pacientemente e com espírito pronto, etc. Este leitor assim configurado é um leitor ideal ou um leitor modelo, uma entidade teórica construída por um escritor."
Mais adiante, o professor Vítor Manuel comenta: "Sob a pressão conjugada dos mecanismos editoriais e de factores económicos, sociais e psicológicos atinentes à sua própria vida de escritor, um autor pode, pelo contrário, adoptar estratégias textuais geradoras de textos facilmente "legíveis" para um número muito alto de leitores empíricos contemporâneos, aproximando assim o seu leitor ideal do tipo de leitor dominante no público potencialmente consumidor dos seus textos (o caso extremo desta aproximação ocorre com a literatura kitsch). 
Outra confusão que se deve evitar é sobre as diversas modalidades de destinatário. Ele pode ser implícito, quando se aproxima do leitor empírico, ou explícito. 
No caso do destinatário explícito, isto é, intratexto, ele pode ser de duas modalidades. Um leitor abstrato, apenas ideal, como aqueles utilizados por Machado de Assis, nos casos de interlocução, um "você, meu caro leitor". Em "Alma minha gentil que te partiste" Camões tem uma destinatária que, todavia, encontra-se ausente. Um diálogo apenas virtual, apenas como componente do texto. Às vezes, contudo, o destinatário pode ser nominado (um ser divino, uma figura da natureza) in presentia ou in absentia. No caso das Cartas Chilenas, de Tomás António Gonzaga, por exemplo, o destinatário está presente, é Doroteu, disfarce para Claudio Manuel da Costa ou Glauceste Satúrnio (seu pseudônimo árcade) para satirizar o governador de Minas Gerais, Luís da Cunha Meneses, que passa a ser chamado de Fanfarrão Minésio. As circunstâncias do poema, contudo, permitem uma fácil identificação do destino de sua sátira, escondendo sob um pseudônimo o destinatário. 
O texto pode ser lido por coevos ou leitores futuros, uma vez que se dê sua continuidade. A este leitor apenas virtual (que pode ser atualizado como leitor, é óbvio), Wolfgang Iser dá a designação de leitor implícito.

(CONTINUA) 

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