quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

CANTIGAS DE AMIGOS


VICENTINA, VIDENTE: PRIMEIRO TESTEMUNHO


Para Ivo Barroso

Ao tato
são frios, mas nada se compara
ao gelo de quando
nos fixam dentro dos olhos.
Como se nos pedissem
outras vidas outros mundos outras máculas
ou uma nova chance
de morrer. Agora definitivamente.
Ah, por favor, um serviço bem feito,
um serviço profissional. Apenas isso vos rogamos.

Todavia, ficam neste quarto. Aqui se resume
toda a geografia
da posteridade. Às vezes me assediam me tocam
me arranham, sobem-me pelos cabelos em fúria.

Ao tato, vapores frios.
Quase névoa, um terror quase glacial.
Por isso tranco a porta
e evito
este lado submerso da casa.


É pena que aqui tenham ficado
muitos de meus melhores dias.
Neste quarto, com a voz de Dona Germana ao fundo,
com os bordados de Tia Tuca
e os sete solos de flauta
do maestro Pintado da Silveira, que meu pai
sibilava em sigilo.

Ao tato são tumbas,
mas nada se compara ao gelo
de quando
nos miram
bem dentro da íris
e dizem temos sede e imploram temos fome
e gritam estamos cegos
e choram um choro surdo
de fazer doer
o que nos resta do mundo.
Nada se compara a isso. Então
tranco a porta e isolo este lado
da casa. Tudo inútil, pois eu sei
que sob um céu qualquer
de inverno
ou mesmo no verão mais íngreme,
quando queimam na pele mil janeiros em espiga,
faça chuva ou faça sol, em qualquer postigo
do mapa, entre datas para sempre à deriva dos calendários,
eles estarão aqui, neste quarto,
à espera do que jamais
lhes será confiado.




Poema de Iacyr Anderson Freitas, do livro "Viavária"

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