
Este é um poema do jovem poeta Bruno Nascimento de Abreu
Retiro minhas calças molhadas
Tiro as calças molhadas depois da chuva,
e as canelas frias ensurdecem
desprevenidas,
desprovidas do peso dos panos,
da umidade.
Fisgadas
por sua própria magreza.
As canelas reveladas, as canelas intactas,
desimpedidas
são muito claras e finas
distintas do frio que as revestia
cobertor negro, de agua espessa
que as protegia,
despidas
da lona que as açoitava
com a chuva em câmera lenta.
Não ficam nem mais quentes nem mais frias
mas detidas, mirradas
colunas de si mesmas,
cujo telhado que sustentavam
acima foi surrupiado
II
As pancadas de água que escorreriam rápidas
mudaram-se no afago lento e sufocante
da umidade, mão que encostando se represa:
a chuva ganhando dedos, ganhando palmo
feito uma pessoa presa às minhas pernas
corpo muito leve, todo peso
estanque só até os pulsos
com que me ganhava
III
As canelas escuras das calças,
assim encharcadas, ficaram
incomensuravelmente mais
escuras, como se túrgidas
da sombra que nao puderam
lançar na ausência de sol
Um tanto mais largas, meio palmo,
do que minhas
canelas, se tornaram
um recôndito, um lar. Frio
e pegajoso, mas abrigo
para as canelas gélidas, abrigo
feito da laceração do caminho para casa,
a laceraçao agitada da pele, que ficava sendo
uma substituição encapotada do calor
proprio do que se mantém
seco e parado.
IV
Arranco as calças como se arrancasse
minha própria sombra, ou uma noite
precoce que me tivesse alcançado
as duas e meia da tarde
Acendo a lâmpada e sinto a luz na pele
como toda noite, este solzinho
racionado
durante o dia escasso,
que me mostre um teto ao menos
como uma nuvem fixa, amena, uma
que não desabe.
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