quarta-feira, 12 de outubro de 2016

CANTIGAS DE AMIGOS

DUAS VERTENTES DE MINAS
(Anderson Braga Horta*)

I – VISÕES DO ITACOLOMI

Dorme Ouro Preto. A noite chegou. Ainda há pouco
o dia em burburinho era um grito, era um canto.
Já o sono se instalou e vai tomando conta
das coisas. Cala o coro de igrejas, a fala

animada dos rábulas, lundus de escravos,
assomos de garimpeiros e mercadores.
Os sussurros e ais das senhorinhas em flor
tornam-se em anseios que flutuam na sombra.

Já carruagem nenhuma arranca ástreas faíscas
da fria pedra nas ruas íngremes. Já nem

o embuçado de áureas conspirações desliza
na treva. Os mendigos e os aleijados sonham.

Funda noite. Já apenas duas sombras se movem.
Vela o poeta: no lábio um silêncio, no peito
um confuso rumor de anjos que se atropelam.
Um músico bêbedo volta para casa.

No braço o sonoro instrumento, abandonado.
Na cabeça, que bruxuleia e se entorpece,
uma vaga canção de lampiões que se apagam.

Na alma uma convulsão de estrelas se levanta.


II – A MOÇA DE SÃO JOÃO DEL REI

Em São João del Rei,
junto ao jardim da gare,
irrompe,
súbito,
a moça
linda
em seu vestido branco,
simples
no porte de princesa.
Era a beleza eterna
que se plasmava ali
em pura argila
diante de nossos olhos.
Oh! não haver para ela
um Rafael, um Miguel Ângelo
ou uma simples câmara fotográfica.
Nunca saberá que a vi.
Que um desconhecido a admirou.
Beleza assim era para encantar o país,
o mundo, a galáxia.
Mas ela subia imponente
e humilde
a calçada do jardim da estação,
sonhando talvez o sonho modesto
e glorioso
de ser mãe, de comandar suavemente uma família.
Não conhecerá a imortalidade da tela
ou da pedra.
Mas ficará indelével
no sonho do poeta
e restará para sempre
gravada
nas raias do Universo.



Anderson Braga Horta tem cerca de 40 obra publicadas.

Da Wikipedia:

nasceu em Carangola (MG) a 17.11.1934. Fez o Ginásio em Goiânia (GO), e Manhumirim(MG); o Clássico em Leopoldina (MG); a Faculdade Nacional de Direito na Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1959). Encontra-se em Brasília desde 1960, onde fez o primeiro vestibular da UnB, onde iniciou o Curso de Letras Brasileiras. Foi Diretor Legislativo da Câmara dos Deputados, professor de Português, cofundador da Associação Nacional de Escritores, de que foi secretário-geral, do Clube de Poesia de Brasília e de seu sucessor, o Clube de Poesia e Crítica, de que foi presidente, e da Associação Profissional, depois Sindicato dos Escritores do Distrito Federal. É membro da Academia Brasiliense de Letras, de que foi 1.º-secretário, e da Academia de Letras do Brasil, de que foi 2.º-secretário.

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