
Conto publicado originalmente na Antologia Solidária Barretos.
BARRETOS, EU ESTAVA LÁ
(Fatima Simamura)
Sempre brinquei com Carol, minha filha caçula, que gostaria de escrever uma carta para ela ler quando estivesse bem velhinha. Em envelope lacrado, a missiva ficaria guardada e ela só poderia abrir quando eu estivesse “quase” caducando, mas não a ponto de não saber mais quem eu fui.
Entretanto, ocorreu-me ideia melhor: por que não escrever sobre minhas melhores lembranças, numa espécie de evolução da vida?
De lá pra cá, venho registrando tudo que me brota de lembrança. Claro, começando pela minha infância em Barretos. A continuar assim, acho que a carta poderia virar um livro. Mas, como aqui só há espaço para contar pequenas aventuras e traquinagens, então vamos aos antecedentes.
Posso me considerar uma pessoa de sorte, pois nasci numa família linda, rica de caráter e bastante numerosa. Nada a ver com as famílias reduzidas de hoje em dia.
Sendo a quinta numa série de dez, podem imaginar que a emoção rolava solta em tudo que fazíamos.
Nossa primeira casa era bem pequena para tanta gente, mas nosso quintal era grande demais e nos possibilitava muitas brincadeiras.
Neste período, ainda não frequentava a escola, mas adorava ficar no portão esperando meus irmãos e olhando os outros alunos que vinham do “3º Grupo”.
Vivia sonhando acordada esperando minha vez de ir à escola!
Certo final de tarde, quase já numa cegueira crepuscular, estava eu sozinha no fundo do quintal brincando num balanço. Bem distante dali, pelo menos uns 20 metros na diagonal, ficava nossa casa, começando pela cozinha.
Minha mãe estava preparando nosso jantar.
Foi então que, pelo portão grande na frente do quintal e na direção do balanço, entra uma mulher de baixa estatura e um pouco gorda.
Não era nossa conhecida, entrou sem bater e foi direto ao coradouro que minha mãe deixava as roupas para melhor clarear da noite para o dia.
A tal mulher pegou uma roupa molhada e a colocou por baixo da blusa.
Não tive coragem de abordá-la e corri pelo fundo do quintal sem que ela me visse.
Cheguei à cozinha e avisei minha mãe. Corremos para alcançá-la, quando já estava saindo pelo mesmo portão. Claro, ninguém revistou a tal mulher, mas insistíamos pra que ela dissesse o que fazia no nosso quintal.
Finalmente ela se justificou: precisava da roupa; acabamos por sentir pena. Minha mãe deixou que ela levasse a peça escolhida, mas só depois da promessa que não faria mais aquilo e, se precisasse novamente, bateria à nossa porta.
Se eu não estivesse no fundo do quintal, a peça teria sumido “milagrosamente” e ninguém poderia explicar. Nunca mais a vimos, mas a lembrança está latente em minha memória.
Eu devia ter por volta de seis anos quando isto aconteceu. Com certeza, tive muitos momentos de alegria ainda nesta casa, antes de mudar para outra que ficava na mesma rua, meia quadra acima.
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