O conto a seguir está na coletânea À sombra do cipreste, 'Livro do Ano' no Prêmio jabuti 2.000.Adeus, meu pai
Portas e janelas mantêm-se fechadas desde o início da noite: o frio lá fora, rondando a casa, silencioso, enquanto na sala enfumaçada de vez em quando alguém abafa a tosse com a mão, pede um copo dágua, tenta espantar o sono. A mulher que até agora vem puxando o terço abre um pouco a janela da frente, respira a noite - sua cabeça escondida atrás da veneziana: não suporta mais o cheiro adocicado e murcho das flores, ela esclarece assim que retorna.

Soltas no regaço, em repouso, as mãos de Ana, ásperas e rugosas, desde a véspera irremediavelmente inúteis, não se movem. Há muito elas já vinham assumindo esta coloração baça de gesso, de maneira imperceptível porém progressiva, até que, esta madrugada, ao fitá-las através da fumaça, seus olhos sujos de pasmo e sono, ela diz para si mesma pois é, e eu continuo aqui, livre e sem razão. E suspira. Apreensiva. Mas, apesar do desconforto de ter a casa devassada por tantos olhos, com os vizinhos vasculhando seus cantos escondidos, ditando as providências, mudando lugares e horários, é um momento em que não gostaria de estar sozinha. E não está.
Pouco antes, um daqueles intrusos encostou-lhe delicadamente o assento de uma cadeira nas curvas das pernas, senta, criatura de Deus, porque ninguém pode ficar assim, de pé parada, a noite toda. E ela sentou-se em silêncio, apalermada, o busto um pouco erguido demais para quem velava desde a




