Publicamos, a seguir, o conto analisado pelas pesquisadoras Karla Ribeiro Santos e Vera Lucia Rodella Abriata, em artigo publicado na revista acadêmica RECORTE, que postamos ontem aqui no blog.
O Gorro do Andarilho
- Me dá! – repete com
voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.
Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja,
desgrenhada.
Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo,
foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a
mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a
perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os
ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da
estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.
Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e
contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso
ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se
tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se
julgar