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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Toda sexta-feira tem conto no Blog do Menalton.  Quando é de outro autor, seu título é "Contos correntes". Quando o conto é de sua autoria, a coluna tem o nome de "Um conto para seu fim de semana".


O Gorro do Andarilho*



- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.

Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.

Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo, foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.

Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se julgar

terça-feira, 11 de julho de 2017

O GORRO DO ANDARILHO

Publicamos, a seguir, o conto analisado pelas pesquisadoras Karla Ribeiro Santos  e Vera Lucia Rodella Abriata, em artigo publicado na revista acadêmica RECORTE, que postamos ontem aqui no blog.

O Gorro do Andarilho

- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.

Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.

Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo, foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.

Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se julgar

segunda-feira, 10 de julho de 2017

TRABALHO ACADÊMICO ANALISA CONTO DE BRAFF

O conto “O gorro do andarilho”, que integra o livro A coleira no pescoço, foi analisado em artigo acadêmico publicado por  Flavia Karla Ribeiro Santos  e Vera Lucia Rodella Abriata na revista RECORTE, do Mestrado em Letras: Linguagem, Cultura e Discurso / UNINCOR V. 13 - N.º 1.

ACONTECIMENTO EM “O GORRO DO ANDARILHO” DE MENALTON BRAFF
(Flavia Karla Ribeiro Santos1 Vera Lucia Rodella Abriata2) 

RESUMO: Analisamos neste trabalho o conto “O gorro do andarilho”, que integra o livro A coleira no pescoço, coletânea de contos de Menalton Braff, a partir do referencial teórico da semiótica francesa. Nosso objetivo é demonstrar o modo como um acontecimento irrompe no texto e altera a rotina do ator protagonista, um andarilho que, sentindo-se espoliado de condições dignas de vida, tem essa sensação intensificada com o roubo do gorro que o protegia do frio, único objeto-valor de que dispunha. Para isso, aplicamos ao texto pressupostos teóricos da semiótica da ação e da semiótica tensiva. Utilizamos na análise o conceito de acontecimento, primeiramente formulado por A. J. Greimas em Da imperfeição, e posteriormente sistematizado por Claude Zilberberg em suas últimas obras.

PALAVRAS-CHAVE: Semiótica Francesa; Rotina; Acontecimento.

RÉSUMÉ: Nous examinons dans cet article le conte littéraire “O gorro do andarilho”, qui fait partie intégrante du livre A coleira no pescoço, d'une série de contes de Menalton Braff, à partir du cadre théorique de la sémiotique française. Notre objectif est de démontrer comment un événement éclate dans le texte et modifie le exercise de l'acteur protagoniste, un errant qui en se sentant spolié des conditions de vie décentes a ce sensation intensifiée avec le vol de son bonnet qui protégeait-t-il du froid et il était le seul objet de valeur qu’il possédait. Pour cela, appliquons-nous au texte postulats théoriques de la sémiotique de l’action et de la sémiotique tensive. Nous employons dans l'analyse le concept de l'événement, tout d'abord formulé par A. J. Greimas dans De l’imperfection et plus tard systématisé par Claude Zilberberg dans ses dernières oeuvres.
MOTS-CLÉS: Sémiotique Française; Exercise; Événement.

Introdução

Preocupada com o sentido, ou, mais precisamente, com o parecer do sentido, a teoria semiótica francesa tem suas bases nos estudos do semioticista lituano Algirdas Julien Greimas que, nos anos 1960-1980, desenvolveu

sexta-feira, 7 de março de 2014

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

Conto da coletânea A coleira no pescoço, Editora Bertrand Brasil, 2006.

O Gorro do Andarilho


- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.
Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.
Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo, foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.
Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se julgar um maioral. Pois apesar da ojeriza pelo companheiro, não era a primeira vez que partilhava com ele seu almoço debaixo daquela mesma gameleira.
Pedia muito mais com os olhos e as mãos, parados de tão duros, do que com as palavras, em cujo manejo vinha destreinando nos acostamentos. Os olhos, principalmente, raiados por estrias amarelas e vermelhas, eram tristes e úmidos, um modo remoto de continuar com sua humanidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM CONTO PARA SEU FIM DE SEMANA

       O Gorro do Andarilho

- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.
Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.
Seu gorro de lã, como um sol colorido na cabeça do Gordo, foi a primeira coisa que viu quando acordou. Então pediu uma primeira vez, a mão teimosa estendida. Era seu gesto antigo, de sete anos, repetido desde a perda do emprego e da família, quando se viu sem lugar onde dormir, senão os ninhos que fazia com a noite escorregando do céu. Ali mesmo, na beira da estrada, ou debaixo de qualquer ponte, abrigado.
Não gostava do Gordo, porque falava demais com sua boca e contava umas histórias de vida que não poderiam ser dele. Era um mentiroso ocupando lugar nos acostamentos. E andava rápido, com seu tamanho, como se tivesse aonde chegar. Não gostava. Além de mentiroso, era abusador, por se julgar um maioral. Pois apesar da ojeriza pelo companheiro, não era a primeira vez que partilhava com ele seu almoço debaixo daquela mesma gameleira.

quarta-feira, 21 de março de 2012

UM CONTO


       O gorro do andarilho





- Me dá! – repete com voz envelhecida e olhos grisalhos, sem brilho.

Como resposta, uma gargalhada sem dentes e de barba suja, desgrenhada.