Mostrando postagens com marcador Mini contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mini contos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

UM CONTO RELÂMPAGO


Camuflado do azul, um ponto mínimo finge estar imóvel. Mas não resiste à volúpia de abrigar-se por trás de uma nuvem branca para sumir inteiramente. Corpos pesados em poltronas macias não se dão conta da própria insignificância.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

SHORT STORY

O costume de Isaura

Isaura costumava chorar durante o trabalho. Ela era uma caixa bastante jovem e muito bonita, por isso nem precisava daquilo, mas, como gostava de agradar aos fregueses do restaurante, ela chorava, porque, deste modo, as pessoas saíam aliviadas de seus pesares, pensando que não eram tão infelizes assim.
  
Na última terça-feira, entretanto, Isaura sentia-se muito bem fisicamente e por isso exagerou. Chorou tanto, mas tanto, que acabou molhando todo o dinheiro que tinha guardado na registradora, e a salada, ao chegar da cozinha, já vinha cozida de tanto sal.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

MINICONTO

Tesouro no jardim

 
 Todos os dias Nicanor levanta da cama, mas sua cabeça continua grudada no travesseiro, e a primeira coisa que faz é desenterrar seu tesouro guardado no jardim. À noite, sua última providência, antes de deitar-se para dormir, é levar o baú até o gramado e ali enterrá-lo novamente. Ele é feliz porque sabe que sua vida tem sentido.  

quarta-feira, 11 de abril de 2012

MINI-CONTOS (3)

   Um leito macio
                                                          Arnaldo ofegava ao depositar as compras da padaria na calçada. Já sinto o peso do corpo, ele pensou enquanto batia as mãos nos bolsos da calça e do paletó para descobrir o molho de chaves.

Depois de abrir a pesada porta de ferro com vidros em caixilhos, juntou da calçada as compras e olhou os trinta e dois degraus de escada até o primeiro andar. Teria outro tanto até chegar a seu apartamento.

Subia contando os degraus e de vez em quando se atrapalhava na contagem por causa da respiração. O suor empastara o cabelo, inundava os olhos - visão precária. Tentou por algum tempo atingir cada degrau primeiro com a perna direita. Mas cansou. A esquerda era mais fraca, mas teve de sacrificá-la. Parou. Ficou com medo de que as compras caíssem na escada: não as sentia mais nas mãos.
    Esboçou um pedido de ajuda. O pedido não se completou.
    Um bando de aves passou levando-o para as nuvens, onde o depositaram num leito macio.
                                                  

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

MINI CONTOS

Infância
Uma noite, ao chegar do serviço em cima de suas pernas dormentes, a cunhada a segurou na cozinha e com a voz escurecida de aspereza disse que assim não dava mais: reclamações dos vizinhos por causa de estrepolias dos dois meninos, a reforma da casa interrompida há mais de um ano, e as despesas excedentes, que vinham pesando muito no orçamento.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MINI CONTOS

Ricardo não ri


O tio do Ricardo é rico, não ele, filho de uma viúva de funcionário público. Só não morriam de fome porque se contentavam em comer arroz com feijão todos os dias. Apesar da extrema pobreza, o Ricardo ria muito e era quase feliz. Quase, pois lhe faltava o amor.
Na idade de trabalhar, o Ricardo foi trabalhar. E ele, acostumado com as durezas da vida, conseguia rir no serviço. Por isso todos gostavam do Ricardo.
Um dia, contudo, o Ricardo encontrou seu amor e casou. Ele não entendia bem essas questões familiares, mas a mãe, criada em família tradicional, exigiu que seu irmão fosse convidado. O tio rico do Ricardo foi ao casamento, mas antes, dois dias, um caminhão estacionou em frente ao futuro lar e dez homens ou mais ajudaram a descarregar a imensa geladeira que o tio lhe mandava de presente.
O amor de Ricardo, transformado agora em esposa, no dia seguinte ao do casamento abriu a geladeira e começou a planejar o aproveitamento dos espaços.
Hoje o Ricardo não ri mais, pois tem de trabalhar o dobro para não dar aquela impressão de pobreza, que são os espaços vazios de uma geladeira.