O texto que segue é o primeiro capítulo do romance Castelos de papel, editado pela Nova Fronteira no ano de 2002.
Capítulo I
Capítulo I
Levantou os olhos do jornal e inundou a cidade num indiferente olhar azul,
seu olhar vidrado, quase aborrecido. De uma forma vagarosa e distraída, como
quem já não tem mais pressa de chegar,
porque já não tinha mais pressa de chegar. Nem aonde. Ecoava ainda no interior
de seus ouvidos o desconforto de um chamado ou sua impressão, e era impossível
ter certeza. Tentando concentrar-se para descobrir que apelo poderia ser
aquele, seu pensamento perdeu-se por alguns instantes em coisas miúdas que lhe
entulhavam os olhos, como o motorista manobrando o carro para ocupar uma vaga menor
do que o carro, seu modo brusco de gesticular, o avião que passou e se escondeu
atrás de uns edifícios, a felicidade do cachorro ao voltar com o bastão entre
os dentes. Não chegou a formular uma síntese do que via ou sentia. Não eram
propriamente pensamentos, mas sucessão de imagens descosidas: o instante.
Estivera lendo, bem sabia, e a prova disso eram as palavras que ainda boiavam
em seus olhos. Abertos ou fechados. Mas eram palavras, apenas, sem qualquer
ligação entre si. Negras e oscilantes, voavam sem formar fila: bando caótico.
Não chegavam a compor uma frase. Por isso, não sabia, não conseguia lembrar o
que estivera lendo antes de levantar os olhos do jornal. E inundar a cidade com
seu olhar azul.

