Conto publicado na Antologia Solidária Barretos.
A prenda
(Marcos Diamantino)
O que se passou me foi dito por uma avó, portanto não acrescentarei pontos fictícios nesse relato. Seria mais didático se me colorissem a tenra idade com aventuras de Peter Pan, mas não teria experimentado, logo cedo, o pavor que uma história pode causar.
Vó Mariana relatava o fato com tal imersão que fazia supor esconder-se atrás de seu magistério uma excelente narradora.
Era um sétimo dia de janeiro daquele ano mais ou menos remoto. Nem os aguaceiros da temporada serviam para deter a realização da festa na frente da igreja. A previsão de tempestade para aqueles dias talvez impedisse algo, mas as beatas incluíam, em suas rezas no genuflexório, o pedido de não pingar uma gota sequer durante o período da quermesse em louvor ao padroeiro.
Tudo foi organizado com esmero na intenção da renda ser revertida à paróquia para a pintura da igreja, a mesma que me acolhe aos domingos e que, como uma velha árvore, vive descascando.
Fazendo as vezes de coreto a laje que cobria os mictórios enterrados recebia a apresentação da banda. Naquela temporada já sem o magnífico Realindo que havia trocado a tuba pela harpa celestial.



