quarta-feira, 20 de junho de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Estrelar
(Cristina Gama)

Tão cheios de vaidade estes entes humanos, tão perpassados de fatos,
e eu toda branca e pura, como nunca tivesse sido soterrada,
como se nunca tivesse visto um fantasma, socada pelo peso da ternura!
Lá vão eles bravos, inteiros, 
com mil páginas de histórias!


E eu, coágulo, bruma e aço na forma intocada,
anêmona procurando o contato do átomo, da substância!
que páginas limpas tenho sujado de tinta,
ferido o espaço sagrado com desculpas pequenas!

Quero com loucura, com urgência, um elo completo com a Vida,
quero-a o centro do Universo, o berço fantásticos das criaturas,
nomenclatura futura de todas as metafísicas, de toda aparência desnuda!
(Vê-la pesadelo e enterro de caveiras é cegueira absurda)
A vida? uma estufa das estrelas, uma lupa das alturas!
E creiam ou não creiam, ó esterco de desespero, ó abraço de ventura,
nós, os passageiros, não o arame de areia, mas o sangue e a seiva,
desta cósmica estrutura.

terça-feira, 19 de junho de 2018

INÉDITOS

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre cada um de seus livros ainda inéditos.

Tocata e fuga a quatro vozes


Em 2015 fui surpreendido por um convite inusitado: visitar um presídio de Readaptação para a vida em sociedade – um regime bem diferente do que sempre imaginei ser o ambiente nas penitenciárias. Um grupo de vinte e dois detentos, pertencentes a um grupo de leitura, havia lido Que enchente me carrega? e queriam conversar com o autor, que souberam ser da região.

A recepção foi alegre, com os funcionários e o Diretor muito receptivos, uma mesa com salgadinhos e refrigerantes, tudo isso enquanto os detentos passavam conversando e rindo para a biblioteca. Biblioteca, sim. Em um canto observei as mesas de leitura, porque as cadeiras estavam colocadas em fileiras ao rés das paredes e ocupadas pela turma toda com seus uniformes.

O Diretor me pediu que não fotografasse os rostos. Eles não deveriam ser
identificados em uma rede social.

Por mais de uma hora falei sobre o romance, sua gênese, sua estrutura, a técnica narrativa empregada (predominância do fluxo de consciência).

segunda-feira, 18 de junho de 2018

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas inéditas de Menalton Braff.

QUANTO MAIS, PIOR

Uma das maiores ambições do homem desde que se reconheceu como gente e descobriu que isso também significava finitude foi o desejo de descobrir um modo de se tornar eterno. A busca pelo elixir da longa vida gastou anos de experiências de alquimistas; a procura pela fonte da juventude moveu fortunas e vidas em volta do mundo. Tudo valia, até mesmo gerar filhos para neles se eternizar.

Com a invenção da fotografia já se alcançava uma cópia do indivíduo que as futuras gerações reconheceriam como alguém que existiu, guardando, portanto, uma lembrança da imagem do antepassado.

Mas a fotografia conquistou técnicos, artistas, pessoas que, por profissão, aperfeiçoavam a imagem, seja pela escolha de ângulos esteticamente mais desejáveis, seja pela luminosidade escolhida, sua direção, o que iluminar mais, ou menos, tudo isso com a competência profissional, que se desenvolvia.

Então, era prazeroso receber a fotografia de um amigo, aquelas palavras carinhosas registradas em diagonal em cima da foto, “do seu eterno admirador” etcétera e tal. Anos depois, quando a saudade apertava, abriam-se os álbuns e em cada folha uma lembrança, uma alegria renascida, a certeza de que uma amizade pode ser eterna, mesmo que seja nessa metonímia dos seres.

sábado, 16 de junho de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros autores, a maioria deles publicados como orelhas.

Pelo buraco da fechadura

Em A Cidade Devolvida, como já se anunciava em Coreografia dos Danados, seu primeiro livro de contos, a prosa de Whisner Fraga se caracteriza pela disjunção. Seus contos, quase todos short stories no melhor sentido da palavra, são habitados por seres que se contorcem de dor ou prazer no caminho difícil do existir. Mas que não se espere encontrá-los aqui de corpo inteiro ou posando para uma fotografia. Eles sempre aparecem através de movimentos bruscos e mostrando-se aos pedaços, com os quais o leitor deverá compor os significados. São fragmentos de cenas vistas pelo buraco da fechadura.

Whisner Fraga descende de uma linhagem de autores para os quais a lógica da realidade empírica, com suas verdades absolutas, já não pode dizer mais nada. Quais os limites entre sonho e realidade? As situações vividas pelas personagens vai-se revelando por uma leitura que quase se poderia chamar de vertical. Os fragmentos do real são expressos também por fragmentos de linguagem. O todo não está na linearidade. A linguagem automática, que predomina na grande maioria dos contos, é essa ruptura com a realidade empírica, esta realidade simplesmente dada, mas é o rompimento, em muitos
casos, com a gramática normativa.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CONTOS CORRENTES

O encontro*
(Carlos Herculano Lopes)  

Os seus cabelos eram negros e compridos; os lábios carnudos e os dentes amarelados. Conheci-a por acaso nos muros de uma igreja onde à noite, tocando violão ou olhando para a lua, as pessoas costumavam ficar. Estivemos mais em silêncio do que falamos. Ela fumou vários cigarros, tossia sem parar e às vezes me olhava. Daí a algum tempo disse-me que estava cansada e queria ir andando. Então acompanhei-a até a sua pousada, que ficava de frente para o mar, junto a umas velhas mangueiras. Quando me preparava para despedir, ela me convidou para entrar, mais com gesto do que com palavras. Abriu uma garrafa de vinho e disse para eu ir bebendo, enquanto ela tomava um banho. Depois, ainda com os cabelos molhados, falou-me um pouco de sua vida, de alguns de seus planos e de uma filha, que morava longe. Horas mais tarde os nossos corpos, quentes pela lua e a bebida, se entregaram.

* Do livro Coração aos pulos, Editora Record, Prêmio Especial do Juri da União Brasileira de Escritores.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

INÉDITOS

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de sua autoria que ainda não foram publicados.

Sonata Patética

No meu tempo de Clássico, no Colégio Ruy Barbosa, de Porto Alegre, tive um colega que se transformou em uma de minhas maiores amizades, mesmo depois do Ensino Médio, eu na Faculdade de Economia e ele no Direito. Geralmente nos encontrávamos num escritório de advogado, onde ele já trabalhava.

Então veio a Redentora (1964) e um ano depois fui forçado a deixar Porto Alegre vindo a viver clandestinamente em São Paulo. Durante muitos anos não tive mais notícia de meu amigo. Depois da anistia, me parece que foi em 1974, encontrei um amigo comum numa Feira do Livro em Porto Alegre. Fomos tomar uma cerveja enquanto ele me relatava o que fora a vida nestes mais de quinze anos de meu afastamento. Estávamos, presumo, em 2000, ano em que fui outorgado com o Jabuti –
Livro do ano, e, por isso, convidado para aquela Feira que frequentei quando era apenas umas barraquinhas na Praça da Alfândega.

Mais uma cerveja, mais informações até que me lembrei de perguntar por meu amigo. Meu informante parou, algum tempo ficou quieto, então me contou a história de seu suicídio. Fiquei chocado. Cobrei detalhes da história e meu amigo só pôde informar o que na cidade todos sabiam, que ele fora traído pela esposa por quem era apaixonado e que o fato lhe causara tamanha vergonha que seria impossível encarar as pessoas.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS


FÔLEGO
(Virgínia Finzetto)

minha alma
na caixa torácica
gorjeia em foles
como um pássaro
pego no alçapão

esse alpiste
diário que tenta
me comprar
não serve de alimento
é só um alento
um hálito que engana

a dor dessa prisão