segunda-feira, 23 de abril de 2018

CARTAS DO INTERIOR

Morrer de tédio

A sala dos professores parecia uma colmeia de abelhas pelo rumor contínuo de umas cinquenta pessoas conversando sem parar. Lá num dos cantos da mesa, calado, talvez um pouco macambúzio, apenas assistia aos colegas, mergulhado naquele zumbido.

Uma pausa repentina e sem explicação, num impulso menos explicável ainda, como um grito necessário, quase de desespero, falei para que todos ouvissem: Não aguento mais, vou-me embora para o interior. Alguns me olharam rindo, outros, com olhares enviesados, concluíam estar testemunhando um surto de demência. O colega havia perdido o juízo.

Os assuntos foram retomados, o zumbido de colmeia voltou a ocupar o ar da sala. Apenas uma professora, sentada a meu lado, se ocupou do que teria chamado de suicídio. E passou a me contar sua história. Perto de uns quinze anos antes desta noite, ela e o marido acharam que não aguentavam mais. Venderam o apartamento, alguns trastes de pouca utilidade, e foram morar num sítio à beira de uma pequena cidade do interior. Até me disse que cidade foi, mas já não lembro mais qual era.

As primeiras semanas foram de namoro com a natureza, o silêncio, a disponibilidade e o ócio. O primeiro ano, enfim, cumpriu-se mais ou menos de acordo com o projeto do casal. Era isso que eles

sábado, 21 de abril de 2018

CLUBE LEITURA SERÁ LANÇADO NO DIA 24


A Livraria Leitura lança na próxima terça-feira o ClubeLeitura  – um serviço de assinatura de livros que entregará aos associados até três exemplares a cada mês. Os títulos serão selecionados por uma comissão de consultores literários formada por Ana Maria Machado, Leila Ferreira, Paula Pimenta e Menalton Braff.

Um dos diferenciais do serviço é a inclusão, em seu pacote completo, de livros infantis e juvenis. Segundo Marcus Teles, o presidente da Livraria Leitura, “o Clube Leitura pretende potencializar todo tipo de vivência que um livro pode proporcionar: conhecer autores novos, expandir as fronteiras, os hábitos literários e até mesmo aproximar pais e filhos, por meio do compartilhamento do prazer de ler”.

Inicialemnte, as assinaturas serão feitas apenas pelo site www.clubeleitura.com.br, mas a partir de 5 de maio, os interessados também poderão se inscrever nas lojas da rede Livraria Leitura.

A Livraria Leitura é uma empresa que nascida em Minas Gerais, que hoje já conta com mais de 70 livrarias em todo o país.

Conheça os consultores literários que farão a seleção dos títulos:

sexta-feira, 20 de abril de 2018

CONTOS CORRENTES

Matraca e Carcará 
(Sada Ali)

A matraca açoitava, reproduzindo estalos idênticos e monótonos. O braço musculoso do homem – anos de destreza, cintilava sob as gotículas do suor da faina diária. Sobreviver sangrava, flagelava o mundaréu de ossos desconjuntados do pobre que arrastava pés e pernas já cansados da vidinha-de-meu-deus. Cada passo um esforço; e carregar a matraca agregava outro suplício. Mantê-la na posição vertical, tortura. Acachapa a fraqueza e a arrasta, já sem tanta galhardia. Se roupa rota teria que coser com linha de saco pra rasgo remendar, farrapo de gente nada a reparar – sopesava no resto de miolo bom dum cérebro já cozido pelo quentume do sol.

Meus ouvidos se abriam e a boca salivava. A casquinha de biju era o meu biscoito mais querido. Para infortúnio dos que podiam bancar, sobrava um tanto no chão ainda maior do que o naco retido em suas mãos diria afortunadas, ricas; arriscaria até nobres. Desdito alheio, mas para mim o único tempo de provar daquela gostosura que, como a matraca, reverberava em minha mente petiz. Ribombava. Atordoava. Insistia. Ecoava. Fome. Tinha

quinta-feira, 19 de abril de 2018

INÉDITO

Nesta coluna, Menalton discorre sobre cada um de seus livros inéditos.
Neblina

Neblina foi produzido como resultado de uma diversidade muito grande de ideias, lembranças, e seu início, se não me engano, não teve uma motivação muito clara.

A ideia que já me vinha de longe tentando transformar-se em alguma coisa como narrativa literária era a ideia de um retorno em que tudo parecia menor. Alguém sai de um ambiente tacanho, vê o mundo lá fora e, na volta, tem a impressão de que tudo diminuiu em seu antigo habitat. Mas não só, tudo parece coberto de bruma, tudo está obscuro.

Depois desta ideia geratriz, me pareceu que narrar a luta do herói para transformar seu antigo ambiente vai ser uma luta sem sucesso por causa do conservadorismo meio que suicida de pequenas comunidades. A falta de ligação com o mundo, com seu dinamismo, é provavelmente a causa desse conservadorismo.

Então pensei a estrutura do romance dividida em duas partes. A primeira é a chegada ao ambiente em que estivera ausente, quando se transforma uma espécie de herói; então uma segunda parte, o herói tentando mudar as coisas e encontrando a muralha do pensamento conservador que predomina na comunidade, resultando por fim em sua saída, totalmente vencido.

Progresso x estagnação talvez seja o tema principal do romance. Não sei, como acontece com mais de uma dezena de originais que mantenho em arquivos, se um dia será publicado.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

(Poema de Maria Carpi* )

O cego adentra nas coisas
mais que o olho sadio. O cego
guia-se no vazio pela palavra
cênica, passo a passo, sem cortinas.
O cego acalma a tonalidade
da pigmentação, sem pincéis,
escorrendo as tintas entre
dedos da palavra pictórica.
E enxerga ouvindo o silêncio
deixando que tudo se acerque
e venha beber em sua palma.
No cego a luz descansa.

*Publicado no livro "O Cego e a Natureza Morta",
Editora Ar do Tempo

terça-feira, 17 de abril de 2018

ORELHA

807 dias

Estes trinta contos que a Vanessa Maranha reuniu sob o título de "Oitocentos e sete dias", foram escritos com a já conhecida competência da autora para nos surpreender. O livro, dividido em duas partes, mantém o leitor numa incrível viagem pela vida de suas personagens, uma viagem que não é possível interromper.

Vai faltar o ar, muitas vezes, com a queda livre vertiginosa. Assim são seus contos: saltos no vazio, de onde a autora tenta resgatar o que nos resta de humanidade.

Nos dez contos da primeira parte, a autora explora aspectos grotescos do convívio humano, tendo como conto emblemático este formidável Castiços, em que uma família de brutos vê-se ligada aos senhores da terra. O final, nos moldes do realismo mágico ontológico, é inteiramente inesperado.

Do primeiro parágrafo do conto, extrai-se o fragmento abaixo:
Que o que vem de fora não presta. Que o chão bem plano é o melhor lugar para os pés, ainda que contrariados. Que não nos engraçássemos pelos chamamentos da casa senhorial; nosso merecimento, a colônia e os seus despojos. Que tatus éramos de origem, destinados ao rés do chão, depois à sua profundeza em cova e nada mais.

Mas tanto nestes como nos vinte contos da segunda parte, a impressão que nos fica é a de uma autora tecelã da linguagem, surpreendendo-nos em cada parágrafo com o insólito de suas combinações, com