sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CONTOS CORRENTES

O valor das luvas

(Alice Sampaio)

A mãe viu da escada quando o menino pegou as luvas que o amante esqueceu no chão da sala. Viu quando as escondeu no cós da calça e saiu apressado em direção ao jardim. Foi atrás. Ele já tinha desaparecido. A mãe não contava com isso. Era a primeira vez que o filho acordava antes da arrumação da sala. 

O fascínio do menino pelas luvas avançava junto com os ponteiros do relógio. Eram bonitas e incrementadas: couro preto vazado, acolchoado cinza nas palmas, correia de regulagem nos pulsos. Além de tudo, confortáveis e antiderrapantes: dava pra fazer saltos e curvas radicais. Diante dos outros, seu valor duplicava: faziam qualquer um se sentir campeão de MotoCross, mesmo que estivesse pilotando uma bicicleta.

Foi fácil adivinhar o que pedalava na cabeça dele: correr para impressionar a gata do grupo de bike. Se a mãe não agisse com rapidez e engenho, seria tarde. O menino daria as luvas de presente à namorada.   

Correu até a casa da garota, arquitetando histórias para resolver o problema sem se denunciar. Ninguém. Passou em frente ao ponto das bikes. Vazio. Foi ao clube. Nada.

A garotada estava na praça do condomínio vizinho. Era a primeira etapa do campeonato do bairro. O menino entrou calçado e pedalou com estilo. A notícia se propagou à velocidade da luz. No fim da manhã, meio bairro já tinha ouvido falar nas luvas importadas. Começaram a surgir compradores. Ele

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

AMOR PASSAGEIRO

Semanas atrás, fizemos aqui um desafio ao leitor: que selecionasse o conto de sua preferência no livro "Amor passageiro" e escrevesse uma resenha ou outro tipo de comentário ao conto escolhido. Recebemos, logo a seguir, um texto de Ernane Catroli do Carmo.
    .
Ontem, para nossa surpresa, foi o escritor Dênisson Padilha Filho que se manifestou, postando no Facebook um trecho do conto "Mais de mil quilômetros".

Certamente a intenção de Dênisson Padilha não foi responder à proposta que fizemos ao leitor, e sim destacar uma passagem que lhe tocou, mas sua iniciativa nos motivou a reafirmar o desfio. 


Quem quiser participar, pode enviar texto e foto para o e-mail menalton.braff@gmail.com, constando no assunto (para que não se perca entre outras mensagens) a informação: Desafio Amor passageiro.


Leia, a seguir, o trecho postado por Dênisson Padilha.

"O sol, quando o sol, atravessando o para-brisa, invadiu a boleia, iluminou a camisa azul de Hélio, com manchas escuras resultantes do suor e iluminou sua cabeça, grande e vermelha como um Sol. E então iluminou também o pavor em seus olhos brilhantes. O Sol. O mesmo sol que costuma reavivar as esperanças, quando estão prestes a sucumbir. O Sol, nascendo, parecia uma cabeça ruiva."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

CANTIGAS DE AMIGOS

TEMPOS MODERNOS
(Cássio Vasconcelos )
⠀⠀
"Toda essa coisa embaçada
Essa massa que vem, que passa
É como se não passasse ninguém
Andando feito robô
Na rua, no ônibus, no metrô
Que coisa mais feia, sem graça
Essa gente que não se olha, não diz oi, não se abraça
Que sina mais bizarra
Do coração sem conexão
A pulsar por uma única emoção
Contar e recontar os 'bytes'
Para não perder um só clique em 'apps' e 'sites'
Pare já este trem-bala
Que eu quero descer
Se não parar, eu pulo
Eu pulo, eu pulo
Não me ofereça a fragrância de uma rosa de metal
Seu perfume me faz mal
Se me oferecer, eu recuso
Eu recuso, eu recuso
Não me venha com um idílio virtual
Minha alma ainda é carnal
Se vier, eu esconjuro
Eu esconjuro, eu esconjuro"

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

ANOTE NA AGENDA!

O próximo lanamento do livro "Amor passageiro", de Menalton Braff, será em Serrana. Anote na
agenda!!!

A noite de autógrafos está marcada para o dia 20 de março, na Fundação Cultural de Serrana, no período das 19h, às 21h30.

Você é nosso convidado!

"Amor passageiro" foi editado pela Reformatório e está à venda nos seguintes locais:

ONDE ENCONTRAR O LIVRO:
Loja virtual da Editora Reformatório
Loja física da livraria PARALER

Conheça um pouco desse livro que é o 25º de Menalton Braff, lendo, antecipadamente, um de seus contos:

Um caso de paixão

As perguntas assim como o doutor faz são irrelevantes, porque seguem um padrão. Com minhas 
respostas, o senhor não vai ficar sabendo muito de mim e de minhas razões para o crime que cometi. Melhor ligar um gravador para eu prestar meu depoimento, livre, corrido, de acordo com meu pensamento. Ah, já está ligado? Sei muito bem o que significa amor incestuoso, como sei também que a sociedade o recrimina, a lei o criminaliza e as religiões, todas elas, repudiam-no por ser pecado, apesar de que os filhos de Adão e Eva tiveram de fornicar para o crescimento da humanidade, não é mesmo, doutor? Pois de tudo isso eu sei, mas quem manda em mim é meu corpo, e o que me vem de fora não me abate: minha regência sou eu mesma. Algum problema com o gravador, doutor? Ah, não! Mas o senhor mexeu nele. Só o volume, então?! Bem, se o doutor não se importa, eu gostaria que fechasse aquela cortina ali atrás, porque o sol bate no vidro do armário e o reflexo me atrapalha a visão. Sim, muito obrigada. Então, tive o Ernesto com quinze anos de idade, e meu noivo, na época, devia andar futricando a vida de alguma outra adolescente neste largo mundo que ninguém podia imaginar onde fosse. Não, foi logo que eu falei da minha gravidez. Já no dia seguinte não apareceu.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

CARTAS DO INTERIOR


Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff.

Tílburi



Tem dias que me recolho em mim, então não tem jeito: fico estatuado num canto, revendo passagens do passado, do meu passado.

Do meu passado, o que mais frequente me chega, são minhas leituras. De temperamento ameno, às vezes arredio (quando minhas opiniões eram menosprezadas), mesmo assim nunca fui de entrar na roda de muitos amigos. Claro que já descobri a causa disso – quando estava começando a solidificar alguma amizade, lá vinha a notícia: mês que vem vamos de mudança para outra cidade – transferências do meu pai.

Talvez esta voracidade de leitor, acredito nisso, seja uma compensação para a falta de amigos. Em lugar de amigos, eu tinha personagens. Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Narizinho, Tarzã (ele também), um pouco mais tarde: Bentinho, Quincas Borba e Sofia, aquele Aires, tão elegante nos modos e no pensamento, e os dois irmãos gêmeos, a água e o vinho, ambos apaixonados pela Flora, era com pessoas assim, perdão, personagens, que passava as horas do dia e às vezes da noite também.
Foi nesta época, dos dez aos quatorze, mais ou menos, que me habituei com a ideia dos deslocamentos, sobretudo no Rio de Janeiro, quando a pessoa (quer dizer, personagem) não tivesse veículo próprio, alugava um tílburi por uma viagem.

Quando ingressei no Clássico, no Colégio Ruy Barbosa, de Porto Alegre (a escola não existe mais, hoje passa uma avenida por cima de seus alicerces enterrados) então quando iniciei o colegial, um professor de Português cujo nome já esqueci, mas me lembro de que ele fumava na sala de aula,

sábado, 16 de fevereiro de 2019

ORELHA

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros escritores, mitos deles publicados como orelhas.

UMA HORA ACABA

Sobre a competência narrativa da Vanessa Maranha muito já se falou, mas preciso continuar falando. Sobre sua competência linguística, por mais que se fale, fica-se em débito para com a autora.

O romance Contagem regressiva foi finalista do Prêmio SESC de Literatura e editado pelo Selo Off Flip, em 2014.

É de seu portal que transcrevemos este parágrafo de caráter epigramático; 

Uma hora acaba. A insônia, as tormentas, o aluvião, o tédio, a dor, o coração chagado. Uma hora isso de cismar entre pessoas sem ter o que dizer, nem querer dizer, nem saber o que e para que, isso de não gritar na hora certa, de me encolher e me distender em acrobacias para ser aceitável... Isso acaba. Vai um dia com o vento ou pelo ralo, na oblíqua intenção, no quadrado dessa minha queixa. Ou se volatiza no fogo-fátuo das coisas mortas. 

Só uma consciência muito aguda da condição humana tem o direito de dizer o que o narrador deste romance diz já na abertura de sua história. Sim, porque a despeito do estilo reflexivo e nervoso, em que mais importa a interioridade da personagem do que suas ações, apesar disso, existe uma história.

E a história que o narrador nos oferece é realmente uma contagem regressiva. A narrativa começa quando a vida já está perto do fim. Eis a primeira parte de uma estrutura em que fica invertida a