segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

PARA LER NO CARNAVAL 2

Dando prosseguimento à série "Para ler no Carnaval", publicamos hoje "Anoitando", do livro À sombra do Cipreste, que deu a Menalton Braff o Prêmio Jabuti 2.000.

Anoitando 

- Satisfeita? - insiste Gaspar.
Confusa, Jandira ergue os ombros. Sorri. Responder o quê? Ainda há pouco era-lhe um estranho, sem história ou nome. Chegara de súbito com a promessa de transformar sua vida, antes mesmo de qualquer revelação. Sua presença é incômoda. Desprende-se de seus braços, tenta afastar-se.
Densa e macia a sombra começa a descer dos telhados vizinhos para inundar o quintal. Como remoto silêncio de um ermo escorrendo.
- Sei que há muito o que fazer, mas quando se tem por onde começar...
Interrompe-se desolado. Embaraço a esconder. Olha em volta, seu território, imagina a vida ali, transcorrente.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

PARA LER NO CARNAVAL 1


De hoje até terça, publicaremos contos de Menalton Braff para você ler durante o carnaval. O de hoje foi extraído do livro "A coleira no pescoço", editado pela Bertrand Brasil.

Homens magros


 Os olhos abertos de Serafim investigavam os silêncios da longa noite. Olhos parados, sem pestanejar, abertos até às lágrimas. Experimentou afastar-se das fartas carnes de Alzira e percebeu que o inverno finalmente havia chegado. Então era inverno, como já sabiam suas pernas finas e treinadas. Mesmo assim manteve-se distante, disposto ao sofrimento. Precisava agora ter certeza de que sobreviveria sem o calor da mulher. Era o que vinha pensando ultimamente porque a vida com tantas manchas escuras a contornar ia-se tornando uma tormenta, sem muito prazer. E o passado não se deixava apagar. Por mais que esfregasse, não desaparecia, cicatriz que se carrega para sempre.
A seu lado, solta redonda em todo o peso, Alzira ressonava as profundezas da vida. Serafim, por um instante, pensou tê-la ouvido falar: aquela respiração forte e sonora. Apurou seu ouvido no vazio, o nada. Com que sonhos dormia Alzira para que dormisse tão completamente? Esperou mais algum tempo, inteiro aberto, em silêncio, o pigarro a custo engolido. Ergueu a cabeça pouco mais de meio palmo, investigativo. Ela não se manifestava como um ser que vive, um ente. Era ali apenas um volume, peso e altura com a respiração forte e sonora.  

sábado, 25 de fevereiro de 2017

CARTA CAPITAL| A INVASÃO DOS PIGMEUS

Acesse a publicação original

A invasão dos pigmeus

Roberto Freire trouxe muito material para o Febeapá

Alô, Sérgio Porto, está fazendo muita falta seu Stanislaw Ponte Preta aqui na Bruzundanga. E isso, porque nossa ilha sofreu a invasão de uma multidão de pigmeus que têm dado matéria muito da boa para seu Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá). Pobres mortais, não damos conta nem da metade dos casos. Mas vamos citar um como exemplo.

Coisa de uma semana ali atrás, um país estrangeiro que fala a mesma língua que nós em parceria conosco resolveu atribuir um prêmio a uma das maiores glórias literárias de nossas pátrias. E por falar em língua e Bruzundanga, é bom lembrar que o inventor dessa última, também inventou o Policarpo Quaresma, aquele cidadão que propôs à Câmara Federal uma troca de nossa língua, alegando que é uma língua emprestada, para introduzirmos o tupi-guarani, incontestavelmente a língua primeva de nossa ilha. Acho que foi aí o início do Febeapá, não tenho certeza e preciso consultar alguém de maior saber histórico.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CONTOS CORRENTES

Como esta coluna abriu uma exceção e publicou uma crônica, comete agora outra exceção e publica o capítulo abaixo de um romance.



Lembranças vivas (das DesMemórias volume I)
                                                                                                                 

Márcia Denser

Tenho vívidas lembranças daquele sobrado da Rua Victor Hugo: tínhamos um porão mofado lotado de sacos de estopa cheios de retalhos (lá deviam desaguar todas as tapeçarias do Canindé, eu suponho) e ratos! A casa também era repleta de portas e janelas envidraçadas com a massa dos vidros soltando da moldura e, quando chovia, o telhado vazava como peneira, cobrindo o assoalho rangente de tábuas com bacias e panelas, ocasiões em que mamãe xingava e se lamentava minuciosamente: que mal eu fiz a Deus, que mal, Senhor?

O mais incrível é a descoberta dos odores da existência aos seis anos de idade (como um pequeno deus eu estava totalmente mergulhada nos fenômenos do mundo), deixando suas lembranças vivas e precisas – como marcas na pele –  até hoje, sessenta anos depois. Os cheiros de mofo, de chuva, de suor, de flores mortuárias, de massa de vidraceiro, de incenso, de fumaça, do nevoeiro ao amanhecer, e o mais imperioso - do mar, pois se fazia acompanhar do mormaço e do som ameaçador, do rumor, uma aproximação imensa, um horizonte, um pressentimento, uma excitação vertiginosa  a envolver corpo e alma para sempre.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

MENALTON FALA

Vez por outra, voltamos a publicar aqui este depoimento de Menaltn Braff sobre sua infância e sempre surgem pessoas que ainda não assistiram ou que querem "ver de novo".

O vídeo faz parte de uma série gravada pela Global Editora.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS


quando um amigo se vai
(Ricardo Lima*)

o silêncio que ampli a sala                            
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos

sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor

mas o amigo se foi.


* in "Desconhecer" (Ateliê Editorial, 2015)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

EXPLORE O BLOG DO MENALTON

Os leitores geralmente encontram o Blog do Menalton a partir do Facebook. Clicam em um link e chegam aqui para ler a postagem 'linkada'.  

Os mais curiosos dão uma 'fuçada' geral, mas dificilmente conseguem perceber a extensão do conteúdo.

Para facilitar os visitantes, resolvemos fazer uma postagem guia.

No alto, logo abaixo do cabeçalho, estão páginas com informações sobre cada um dos 23 livros já publicados pelo autor.

No centro, estão as postagens.