sábado, 23 de junho de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros escritores, a maioria deles publicados como orelhas. 

HERMES: MENSAGEIRO MENSAL

Impossível ler este Notícias Poéticas sem ver a mão de Eliane Ratier, que o tece. Muito difícil separar a poeta da poesia. O sorriso é o mesmo e mesma é sua maneira de encarar a vida.

Notícias Poéticas é um livro programático, que obedeceu a um projeto de enviar aos leitores notícias sobre cada um dos meses do ano, com suas características, com o que significa para o público, mas notícias em forma de poesia. Ele resulta de uma coleção muito bem guardada por sete anos, o mesmo tempo que Jacó serviu Labão, pai de Raquel.

De sua leitura, resultam algumas conclusões, e a primeira delas é o forte predomínio da função conativa da linguagem, num processo de interlocução que atrai o receptor para que se torne cúmplice da mensagem. Conselhos, admoestações, palavras de otimismo, são matérias constantes na poesia de Eliane Ratier.

Em janeiro de 2008, temos um poema que se inicia com o verso Olá amigos para terminar com Excelente janeiro para vocês! Em 2011, o mesmo mês começa com Olá, amigos! para terminar Aguardo vossas boas notícias. Este recurso poético torna o leitor um participante da poesia, retirando-lhe o comodismo da passividade de um receptor distante.

Em 2012, ainda no mês de janeiro, finalmente a autora confessa: E o núcleo imutável de mim é feito do mais/ puro otimismo. Admoestações ao trabalho, certo triunfalismo, como em Aproveitemos o que
temos/ saúde, paz, amor e amizade/ pois temos em abundância./ Salve! são matérias de que se forma ao correr do livro esta poesia/recado.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

CONTOS CORRENTES

Cali Cool sem noção

(Shellah Avellar)


Cali Cool é destas moças sestrosas, que andam naturalmente mostrando e fazendo exaltar seu rebolado.

Cali Cool é loura, ou ao menos assim se apresenta para o mundo, que é o que parece mais gostar de fazer, e o faz mesmo com gosto, para não deixar pedra sobre pedra quando passa.

Fala, assim, como um trio elétrico, sem se importar se está incomodando os outros ou outras simples mortais que por ali tentam se concentrar, ou viver sua vidinha em paz.

Cali Cool vende, troca, sapateia e pratica malabares nos faróis.

Cali Cool se vira nos quarenta???

Cali Cool poderia ser feliz, se não tivesse tanta vontade de parecer feliz e bem resolvida.

Cali Cool conta sua vida inteira com detalhes, mesmo para quem não tem interesse nenhum em ouvi-la.

Cali Cool abre os olhos, e bem cedinho, pela manhã, já pega seu celular amigo, que parece colado à sua orelha, e vai, toc-toc, caminhar pelos corredores e pelas varandas para mostrar que é hiperativa e competente, falando bem alto e em mau tom.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Estrelar
(Cristina Gama)

Tão cheios de vaidade estes entes humanos, tão perpassados de fatos,
e eu toda branca e pura, como nunca tivesse sido soterrada,
como se nunca tivesse visto um fantasma, socada pelo peso da ternura!
Lá vão eles bravos, inteiros, 
com mil páginas de histórias!


E eu, coágulo, bruma e aço na forma intocada,
anêmona procurando o contato do átomo, da substância!
que páginas limpas tenho sujado de tinta,
ferido o espaço sagrado com desculpas pequenas!

Quero com loucura, com urgência, um elo completo com a Vida,
quero-a o centro do Universo, o berço fantásticos das criaturas,
nomenclatura futura de todas as metafísicas, de toda aparência desnuda!
(Vê-la pesadelo e enterro de caveiras é cegueira absurda)
A vida? uma estufa das estrelas, uma lupa das alturas!
E creiam ou não creiam, ó esterco de desespero, ó abraço de ventura,
nós, os passageiros, não o arame de areia, mas o sangue e a seiva,
desta cósmica estrutura.

terça-feira, 19 de junho de 2018

INÉDITOS

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre cada um de seus livros ainda inéditos.

Tocata e fuga a quatro vozes


Em 2015 fui surpreendido por um convite inusitado: visitar um presídio de Readaptação para a vida em sociedade – um regime bem diferente do que sempre imaginei ser o ambiente nas penitenciárias. Um grupo de vinte e dois detentos, pertencentes a um grupo de leitura, havia lido Que enchente me carrega? e queriam conversar com o autor, que souberam ser da região.

A recepção foi alegre, com os funcionários e o Diretor muito receptivos, uma mesa com salgadinhos e refrigerantes, tudo isso enquanto os detentos passavam conversando e rindo para a biblioteca. Biblioteca, sim. Em um canto observei as mesas de leitura, porque as cadeiras estavam colocadas em fileiras ao rés das paredes e ocupadas pela turma toda com seus uniformes.

O Diretor me pediu que não fotografasse os rostos. Eles não deveriam ser
identificados em uma rede social.

Por mais de uma hora falei sobre o romance, sua gênese, sua estrutura, a técnica narrativa empregada (predominância do fluxo de consciência).

segunda-feira, 18 de junho de 2018

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas inéditas de Menalton Braff.

QUANTO MAIS, PIOR

Uma das maiores ambições do homem desde que se reconheceu como gente e descobriu que isso também significava finitude foi o desejo de descobrir um modo de se tornar eterno. A busca pelo elixir da longa vida gastou anos de experiências de alquimistas; a procura pela fonte da juventude moveu fortunas e vidas em volta do mundo. Tudo valia, até mesmo gerar filhos para neles se eternizar.

Com a invenção da fotografia já se alcançava uma cópia do indivíduo que as futuras gerações reconheceriam como alguém que existiu, guardando, portanto, uma lembrança da imagem do antepassado.

Mas a fotografia conquistou técnicos, artistas, pessoas que, por profissão, aperfeiçoavam a imagem, seja pela escolha de ângulos esteticamente mais desejáveis, seja pela luminosidade escolhida, sua direção, o que iluminar mais, ou menos, tudo isso com a competência profissional, que se desenvolvia.

Então, era prazeroso receber a fotografia de um amigo, aquelas palavras carinhosas registradas em diagonal em cima da foto, “do seu eterno admirador” etcétera e tal. Anos depois, quando a saudade apertava, abriam-se os álbuns e em cada folha uma lembrança, uma alegria renascida, a certeza de que uma amizade pode ser eterna, mesmo que seja nessa metonímia dos seres.