No ano passado, o professor doutor Franco Baptista Sandanello, da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Federal do Maranhão, publicou, em livro editado pela EDUFMA, um estudo acadêmico sobre "Domício da Gama e o Impressionismo literário no Brasil". Um dos capítulos desse livro foi dedicado à análise do romance "Bolero de Ravel".Já publicamos o texto neste blog, mas decidimos fazer uma nova postagem para os que ainda não leram e para os que, eventualmente, tenham interesse de ler outra vez.
Século XXI: os desdobramentos contemporâneos de Menalton Braff
O perceptivismo imediatista de Adelino é revisto pela prosa contemporânea de Menalton Braff ¹ que, Bolero de Ravel (2010), elabora uma relação como que negativa com o elemento visual, mediada por um narrador mal ajustado á vida e para quem o contato com o mundo exterior, simbolizado pela luz, constitui o maior dos males.
Seu enredo, como de praxe em narrativas impressionistas, pode ser sintetizado em poucas palavras: Adriano, homem de 35 anos sustentado pela família, vê sua vida entrar em crise ao perder seus pais em um acidente de carro.
Sua irmã, Laura, advogada como o pai e orgulho da casa, demanda metade de sua herança, ou, ao menos, que o irmão trabalhe e arque com suas próprias despesas. O resultado é desastroso, pois Adriano não consegue adaptar-se ao trabalho, horrorizado pela vida fora do quarto:
Abro os olhos como se fosse começar a viver outra vez. Abro com a vaga esperança de que ainda não saí de um sonho mal, por isso abro apenas uma fresta, com medo de que haja luz no quarto, e que a luz me fira como vem acontecendo ultimamente toda vez que abro os olhos. meu corpo quente muda de posição, protegendo-me, depois de ter visto a mancha clara do dia que nasce molhado nas trinchas da veneziana. (BRAFF, 2010, P. 19)
Nesta atmosfera de meia luz, o tempo torna-se relativo, submergindo-se em meio aos pensamentos do narrador: "A claridade escassa pode ser do dia que nasce. Ou morre. Vejo na parede o quadrilátero da janela com vestígios de uma luz azulada, mas que janela é esta que não vejo e não significo?" (idem,




