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terça-feira, 28 de julho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? 10

Acesse a publicação original.   

Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online. Este ano, decidimos voltar a postar esses textos e hoje trazemos para vocês o de número 10.  Caso tenha interesse em ler os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1) / Literatura: o que é isso? (2)/
Literatura: o que é isso? (3)/ Literatura: o que é isso? (4)
Literatura: o que é isso? (5)/ Literatura: o que é isso? (6)
Literatura: o que é isso? (7) Literatura: o que é isso? (8)
Literatura: o que é isso? (9) 


O homem é um ser histórico e tudo aquilo que faz, o faz dentro da história. Esse axioma, entretanto, não significa, como queriam os iluministas do século XVIII, que o caminho da história seja uma progressão ao infinito. Todavia, se não há obrigatoriamente progresso, no sentido de que hoje seja melhor do que ontem e amanhã será melhor do que hoje, na linha da história sempre há mudanças que devem ser levadas em consideração.
Assim deve ser considerada a história da literatura. Ela é a expressão de seres individuais, que, por sua vez, estão inseridos em um momento e um espaço sociais, com seus valores, sua linguagem, suas técnicas, e tal relação se dá por confirmação, transformação ou negação das características da sociedade.
Na valoração de uma obra artística, e em particular da literatura, deve-se considerar quais as informações estéticas trazidas por ela. Há uma tendência, sobretudo na mídia, a considerar de valor apenas a obra que seja totalmente inovadora. E isso é um equívoco perigoso. Primeiro, por erigir em valor estético a novidade em si. Nem tudo que é novo só por ser novo é bom.
Nessa questão acima, deve-se levar em conta o binômio tradição x ruptura. A falta total de ruptura significa a ausência de informação estética, a criação de algo original. Mas a ruptura não pode ser a tal ponto radical que deixe de comunicar ou expressar algo para o receptor. A ruptura tem de se dar sempre dentro da tradição para que tenha valor. Alguma coisa da tradição precisa ser mantida para que haja a identificação do objeto. Mas com alguma originalidade, com algo de novo. E não se trata, então, de melhor ou pior, apenas de diferente.
Quando em fevereiro de 1922 realizou-se a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo, era o homem da carreta de boi que entrava na era industrial, e a arte que até então vigorava não podia mais satisfazer um homem diferente. Foram muitas as propostas de rompimento com o passado: uma nova visão do Brasil, como o indianismo crítico, o predomínio de temas urbanos, mas também novas formas de expressão, como a métrica e a rima, na poesia, que deixaram de ser obrigatórias.
Pois bem, houve ruptura, mas partindo da tradição, como o uso da linguagem, semântica, sintática e lexicamente. As estrofes deixaram de ser regulares, por exemplo, mas no poema continuaram a existir.
Ao se discutir o conceito de “pós-modernismo”, conceito tão vago quanto inadequado, para a caracterização da literatura que se faz nos dias atuais, tenta-se novamente uma unidade de tendência, como se fosse o surgimento de uma nova estética, mas isso é coisa do passado. Alguns autores ainda buscam pertencer a algum grupo, mas são tantos os grupos e é tal a diversidade interna dos mesmos, que já não podem representar uma linha de pensamento.

terça-feira, 21 de julho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (9)

Acesse a publicação original.   

Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online. Este ano, decidimos voltar a postar esses textos e hoje trazemos para vocês o de número 8.  Caso tenha interesse em ler os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1) / Literatura: o que é isso? (2)/
Literatura: o que é isso? (3)/ Literatura: o que é isso? (4)
Literatura: o que é isso? (5)/ Literatura: o que é isso? (6)
Literatura: o que é isso? (7) Literatura: o que é isso? (8)

No século XIX, a maior importância de um texto literário em prosa recaía no enredo. Como os fatos se articulavam, como eram resolvidos os conflitos, e os romancistas da época eram extremamente hábeis nessa urdidura. Já em fins desse século, com o início do Realismo, os fatos perdem importância, assumindo a primazia em uma obra a personagem. Em lugar do fato, agora o que mais interessa é como a personagem é construída e como é afetada pelo fato. É o início do que se convencionou chamar de romance psicológico. Está claro que tal tendência deve-se principalmente ao desenvolvimento das ciências da mente. Pode-se dizer, por exemplo, que Freud tem alguma responsabilidade por isso.

No decorrer do século XX, o fulcro da literariedade, entretanto, vai mudando de lugar. E cada vez mais, a linguagem assume o papel principal nessa história. O tipo de discurso, os recursos de retórica empregados, e que são essenciais à linguagem poética, são também exigências (não tão radicais como na poesia) na prosa literária.

Entre as figuras, algumas das mais empregadas, estão:

Metáfora – uma palavra (substituta) é empregada no lugar de outra (substituída)

Ex.: “Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora.” por barco – Iracema, de José de Alencar

Aliteração –  a repetição de sons consonantais.

Ex.:  “… com talento de braços executavam, leigos, ledos, lépidos.” – Primeiras estórias, de J. Guimarães Rosa

Metonímia – entre a substituta e a substituída, existe uma relação real, que pode ser o efeito pela causa, a parte pelo todo, o lugar pelo produto, a matéria pelo artefato, e assim por diante.

Ex.: “… a aventureira se enamorou do redator de um jornal, que não tinha vintém…” por fortuna. – Relíquias de casa velha, de Machado de Assis

Sinestesia – cruzamento de sentidos ou apenas a troca de um por outro.

Ex.: “… o do café aquecia…” O cortiço, de Aluísio Azevedo.

E muitos outros recursos como a prosopopeia, a ambiguidade, o eufemismo, a antítese, a elipse, a ironia etc.

Lembremo-nos, mais uma vez, que o texto literário, antes de ser comunicação, é expressão e, como tal admite sempre mais de uma leitura. Isso entretanto, não significa qualquer leitura. Por essa razão é que se trata de um tipo de discurso em que cabem omissões (daquilo que fica para o leitor preencher,  cabem os sentidos contrários ao que está dito, o caso da ironia, cabem duplos sentidos, como na ambiguidade).


Tais recursos de retórica comparecem em maior ou menor quantidade no texto literário, dependendo do domínio que escritor tenha sobre eles e de sua inclinação maior ou menor para a linguagem poética.

terça-feira, 14 de julho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? ( 8)

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online. Este ano, decidimos voltar a postar esses textos e hoje trazemos para vocês o de número 7.  Caso tenha interesse em ler antes os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1) / Literatura: o que é isso? (2)/
Literatura: o que é isso? (3)/ Literatura: o que é isso? (4)
Literatura: o que é isso? (5/ Literatura: o que é isso? (6)
Literatura: o que é isso? (7)


Num romance, em que a extensão tanto do discurso quanto da efabulação, isto é, os fatos que encadeados darão um sentido lógico ao que se conta, deve haver alternância e equilíbrio entre dois modos, que na teoria da literatura são chamados de telling e showing (termos introduzidos na teoria pelo new criticism anglo-americano), que nada mais são do que contar e mostrar. Dificilmente um romance pode ser construído em um dos modos de maneira exclusiva. A cena (showing) como único modo, torna a narrativa cansativa e sem muita atração, pois é difícil que o narrador introduza nela digressões, reflexões, avaliações do que ocorre, elementos fundamentais em um bom texto narrativo.


Esses dois modos tem como resultado no texto o que se pode chamar de panorama (contar) e cena (mostrar).

Para exemplificar (uma cena):

O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado: o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquilo, sereno e calmo.

A Estefânia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:

− Eu, se fosse você, não comprava lá… É caro! Vai ao Bonheur des Dames… Dizem que tem coisas boas e é pechincheiro.

O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal.

(Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma)

(um panorama – resumo narrativo)

Os dois se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até à rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter sofrido algteração apreciável. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas fisionomias um terror, um espanto, alguma coisa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspensa no ar.

(Do mesmo romance)

Observe-se, neste segundo fragmento, que o narrador apenas diz que se despediram, mas o que disseram, quais seus gestos, nada disso nos é revelado, o que aconteceria em uma cena. A cena inclui detalhes e geralmente usa o discurso direto, que na literatura tradicional é sempre marcado por travessão.

No conto, dada sua exiguidade de fatos, personagens e extensão do texto, deve, segundo os clássicos do gênero, predominar a cena. Isso não quer dizer que o panorama não exista, mas contar um conto, em geral, tira-lhe a tensão dramática, uma de suas características.

Exemplo de cena:

Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado, que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeava, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.

− Olha o automóvel do outro dia.

− O caixa-d’óculos?

− Com uma bruta luva vermelha.

O caixa-d’óculos para o Buick de propósito na esquina da praça.

(Carmela. Novelas paulistanas. António de Alcântara Machado).

Observe-se, finalmente, a pobreza de detalhes no panorama, diferentemente da cena.

A literatura contemporânea vai anulando os limites propostos pelos clássicos, mas isso nem sempre dá bons resultados.

terça-feira, 7 de julho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (7)

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online. Este ano, decidimos voltar a postar esses textos e hoje trazemos para vocês o de número 7.  Caso tenha interesse em ler antes os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1) / Literatura: o que é isso? (2)/
Literatura: o que é isso? (3)/ Literatura: o que é isso? (4)
Literatura: o que é isso? (5/ Literatura: o que é isso? (6)

Literatura – Menalton Braff – Literatura: o que é isso? (7)


Todo texto, literário ou não, pressupõe uma voz que o produz. Tratando-se do texto literário, é necessário que se estabeleçam, para a melhor compreensão da literatura, algumas características dessa voz, os tipos que pode assumir, a posição de onde observa.
De uma maneira bastante simplificada, e não é outro o propósito num artigo de divulgação, podem-se dividir os narradores (os produtores da voz) em dois grupos principais: o narrador em terceira pessoa e o narrador em primeira pessoa.
Posto isso, é preciso uma aproximação maior a cada um dos grupos.
O narrador em terceira pessoa pode ser dividido em narrador onisciente, ou demiurgo, quando narra os fatos que vê do alto, dando conta de tudo, inclusive daquilo que não se vê, como os pensamentos e sentimentos das personagens.
Ex.: Rubião abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veio tirar de recordações antigas. Não eram belas, mas eram antigas, − antigas e enfermeiras, porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia curá-lo do presente. (Machado de Assis, Quincas Borba)
Ainda em terceira pessoa, o narrador pode ser observador, ou seja, só relata aquilo que se vê, os movimentos, aquilo que é externo das personagens.
Ex.: Em casa de Rita Baiana a animação era inda maior. Firmo e Porfiro faziam o diabo, cantando, tocando bestialógicos, arremedando a fala dos pretos cassanges. Aquele não largava a cintura da mulata e só bebia no mesmo copo com ela; o outro divertia-se a perseguir o Albino, galanteando-o afetadamente, para fazer rir à sociedade. (Aluísio Azevedo, O cortiço)
Não se pode esquecer que narrador e autor são duas entidades distintas. Os autores dos textos acima não existem mais, os narradores, uma criação literária, continuarão existindo enquanto houver alguém que leia os livros.
São também dois os tipos principais de narrador em primeira pessoa: o narrador protagonista e o narrador testemunha.
Tem-se o narrador protagonista quando a história for contada por sua personagem principal. A história é contada de dentro, e neste caso todos os fatos só podem ser relatados ou com a presença e o olhar do protagonista, ou com o relato que outra personagem lhe faça.
Ex.: Despertei com a voz do Marcos, dentro do meu ouvido: “Ignácio, foi tudo bem”. Os minutos tinham sido 9 horas. Novo mistério do tempo. Apaguei, acordei na UTI querendo fazer xixi, a bexiga cheia, doendo. Reclamei com voz pastosa, a enfermeira se impacientou: “Você está com sonda, não pode querer fazer xixi”.  (Ignácio de Loyola Brandão, Veia bailarina)
Quanto ao narrador testemunha, ele vê os fatos ou toma conhecimento dos mesmos, sem, contudo, participar deles, pelo menos de forma fundamental. Em outras palavras, o narrador testemunha emprega um “eu” narrador, para, contudo, contar a história de um “ele” protagonista.
Ex.: Uma tarde, ao recolher-me ao quarto para descansar, senti-me perturbado vendo diante de mim, encolhida em um canto, junto à cama, os olhos cheios de lágrimas, a figurinha esquálida de minha pequena amiga. Chorava mordendo as mãos, sacudida por soluços longos e repetidos. (Autran Dourado, Novelas de aprendizado)
Com esse parágrafo acima, inicia-se uma história em que Carolina exercerá o papel principal, mas a voz que conta é de seu amigo.
Evidente que formas mistas são possíveis e até frequentes numa mesma obra.
Para um autor é muito importante a escolha do ponto de vista certo: quem vai contar a história e de onde a observa.  

terça-feira, 30 de junho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (6)

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  No mês passado, decidimos voltar a postar esses textos e  hoje trazemos para vocês o artigo número 6.  Caso queira ler primeiro os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1)
Literatura: o que é isso? (2)
Literatura: o que é isso? (3)
Literatura: o que é isso? (4)
Literatura: o que é isso? (5)

Literatura – Menalton Braff – Literatura: o que é isso? (6)


Os elementos da narrativa


A narrativa literária conta com alguns elementos que lhe são fundamentais. Nem sempre todos estão explícitos, mas a maioria deles comparece mesmo que implicitamente.

Personagens

São os seres cujas ações são relatadas no texto. O mais comum é tratar-se de seres humanos o que, entretanto, não é obrigatório.

As personagens podem ser enfocadas por dois ângulos principais: a) quanto à centralidade na história; b) quanto à densidade psicológica.

No primeiro caso, as personagens são divididas em:

Protagonistas – aquelas cujo destino é o objetivo da narrativa. Em geral, são personagens empáticas, isto é, aquelas com as quais o leitor se identifica, pelas quais ele torce, sofrendo com seus dissabores e alegrando-se com suas vitórias. O(s) protagonista(s) é (são) o núcleo central de toda narrativa literária.
Antagonista (s) – a função do obstáculo em um conflito. Cabe ao antagonista o papel de dificultar a luta do protagonista pela obtenção dos objetos de seu desejo. Em geral, o leitor descarrega nesta personagem seus sentimentos como a raiva e o desejo de que o antagonista seja castigado.
Coadjuvantes – são personagens muitas vezes necessárias ao desenvolvimento de uma narrativa, mas apenas contracenam com as demais sem exercer um papel central. Existem na medida em que surja a necessidade de dar vida à história, mas sua importância é secundária e seu destino pode ser desconsiderado.
Difícil encontrar uma obra que seja de trânsito geral para exemplificação, arrisquemos, entretanto, um romance bastante conhecido: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

O protagonista seria o Bentinho, aliás, também narrador. Ele é o centro da história que ele mesmo narra. É seu destino que pretendemos conhecer. Antagonista é a Capitu, pelo menos na aparência, pois no final é a oposição entre os dois, causada por um ciúme que jamais se saberá se com ou sem fundamento, que terá como resultado a velhice solitária. O tio de Bentinho, o pai da Capitu e outros mais seriam apenas coadjuvantes.

No segundo caso, podemos dividir as personagens em:

Personagem redonda – aquela com maior riqueza psicológica, cujo comportamento pode surpreender. A personagem redonda pode arrepender-se, hesitar, ter dúvidas, enfim, seu comportamento aproxima-se do comportamento dos seres vivos.
Personagem plana – aquela cujo comportamento é sempre previsível, não se transforma, pouco se sabe de sua vida interior. Uma sub-categoria da personagem plana é o tipo, muito utilizado em textos humorísticos. O tipo, em geral, é criado procurando-se efeitos ridículos.
E continuando com o velho Machado para exemplificação: Bentinho é personagem rica psicologicamente. Ele tem avanços e recuos, transforma-se no decorrer da narrativa e não tem comportamento previsível. Exemplo disso é a cena em que envenena o café com que pretende matar a esposa, mas se arrepende e joga tudo fora. Como personagem plana, o melhor exemplo do romance é o agregado, o José Dias. Ele é sempre subserviente e superlativo, não muda.

terça-feira, 23 de junho de 2020

LITERATURA – MENALTON BRAFF – LITERATURA: O QUE É ISSO (5)?

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  No mês passado, decidimos voltar a postar esses textos e  hoje trazemos para vocês o artigo número 5.  Caso queira ler primeiro os artigos anteriores, clique nos links a seguir:
Literatura: o que é isso? (2)

Literatura – Menalton Braff – Literatura: o que é isso? (5)


Os elementos da narrativa

11/07/2015 – A narrativa literária conta com alguns elementos que lhe são fundamentais. Nem sempre todos estão explícitos, mas a maioria deles comparece mesmo que implicitamente.

Personagens

São os seres cujas ações são relatadas no texto. O mais comum é tratar-se de seres humanos o que, entretanto, não é obrigatório.

As personagens podem ser enfocadas por dois ângulos principais: a) quanto à centralidade na história; b) quanto à densidade psicológica.

No primeiro caso, as personagens são divididas em:

Protagonistas – aquelas cujo destino é o objetivo da narrativa. Em geral, são personagens empáticas, isto é, aquelas com as quais o leitor se identifica, pelas quais ele torce, sofrendo com seus dissabores e alegrando-se com suas vitórias. O(s) protagonista(s) é (são) o núcleo central de toda narrativa literária.
Antagonista (s) – a função do obstáculo em um conflito. Cabe ao antagonista o papel de dificultar a luta do protagonista pela obtenção dos objetos de seu desejo. Em geral, o leitor descarrega nesta personagem seus sentimentos como a raiva e o desejo de que o antagonista seja castigado.
Coadjuvantes – são personagens muitas vezes necessárias ao desenvolvimento de uma narrativa, mas apenas contracenam com as demais sem exercer um papel central. Existem na medida em que surja a necessidade de dar vida à história, mas sua importância é secundária e seu destino pode ser desconsiderado.
Difícil encontrar uma obra que seja de trânsito geral para exemplificação, arrisquemos, entretanto, um romance bastante conhecido: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

O protagonista seria o Bentinho, aliás, também narrador. Ele é o centro da história que ele mesmo narra. É seu destino que pretendemos conhecer. Antagonista é a Capitu, pelo menos na aparência, pois no final é a oposição entre os dois, causada por um ciúme que jamais se saberá se com ou sem fundamento, que terá como resultado a velhice solitária. O tio de Bentinho, o pai da Capitu e outros mais seriam apenas coadjuvantes.


No segundo caso, podemos dividir as personagens em:


Personagem redonda – aquela com maior riqueza psicológica, cujo comportamento pode surpreender. A personagem redonda pode arrepender-se, hesitar, ter dúvidas, enfim, seu comportamento aproxima-se do comportamento dos seres vivos.
Personagem plana – aquela cujo comportamento é sempre previsível, não se transforma, pouco se sabe de sua vida interior. Uma sub-categoria da personagem plana é o tipo, muito utilizado em textos humorísticos. O tipo, em geral, é criado procurando-se efeitos ridículos.
E continuando com o velho Machado para exemplificação: Bentinho é personagem rica psicologicamente. Ele tem avanços e recuos, transforma-se no decorrer da narrativa e não tem comportamento previsível. Exemplo disso é a cena em que envenena o café com que pretende matar a esposa, mas se arrepende e joga tudo fora. Como personagem plana, o melhor exemplo do romance é o agregado, o José Dias. Ele é sempre subserviente e superlativo, não muda.

braff2* Menalton Braff é escritor, com 21 obras publicadas e colunista da revista Carta Capital


quinta-feira, 18 de junho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (4)

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  No mês passado, decidimos voltar a postar esses textos e  hoje trazemos para vocês o artigo número 4.  Caso queira ler primeiro os artigos anteriores, clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1)
Literatura: o que é isso? (2)
Literatura: o que é isso? (3)


Além de ocorrer dentro da história da humanidade, a literatura tem também sua história particular. E isso implica as transformações por que passa tanto por influxo das transformações sociais quanto como resultado de forças endógenas que atuam no sentido dessas mudanças.
Apesar da inelutabilidade do fenômeno acima, e em oposição a ele, é dentro de uma tradição inegável que se dão as transformações. Tradição e ruptura atuam no sentido de aceitar as mudanças sem tirar os pés de certos elementos estabilizadores.
Desde os primórdios da literatura, e para que ela fosse compreendida como tal, cristalizaram-se os gêneros dentro dos quais ela passava a ter existência. Na Antiguidade, os textos literários eram classificados em lírico, épico e dramático. Com algumas modificações, tal classificação persiste até os dias atuais.
Como gênero lírico, deve entender-se aquele em que se fala de sentimentos, emoções do próprio emissor, ou aquele em que este enuncia uma visão particular, a sua, a respeito da vida.
No gênero épico, o emissor ausente canta as glórias (geralmente guerreiras), os grandes feitos, de uma cidade, uma nação, um povo, enfim. O épico sempre fala do passado, daquilo que já ocorreu, e, diferentemente do lírico, que explora a interioridade do emissor, uma primeira pessoa, o épico vai narrar uma terceira pessoa, aquilo que ocorre fora do emissor. E tem sempre um caráter narrativo.
Quanto ao gênero dramático, pode-se dizer que é aquele em que o texto é vivido no palco. Com exceção do coro, do teatro grego, o gênero dramático não é narrado mas vivido. Seu texto, mesmo quando escrito, é para ser falado, sua forma final é a voz dos atores.
Ora, na Antiguidade, tanto o texto lírico quanto o épico eram produzidos em versos, uma das grandes mudanças que vão ocorrer com o tempo: o texto literário em prosa.
Saltando por sobre séculos, talvez milênios, nos dias atuais os gêneros, com todas as restrições que se possam fazer, vão resumir-se em: a) textos em versos, ou gênero poético (ora mais lírico, ora mais épico); b) textos em prosa: romance, novela, conto; c) texto dramático; comédia, drama e tragédia.
Há uma tendência contemporânea para a dissolução dos limites entre os gêneros, havendo prosa poética, por exemplo, em que se abole a narrativa, que era característica do texto em prosa.
O romance, como gênero narrativo, conta com elementos, senão obrigatórios, pelo menos essenciais, que poderão ser descritos em outra oportunidade. Ele é constituído de um conflito nuclear, rodeado de conflitos secundários, mas todos imbricados com o conflito central. São as histórias de maior extensão.
A novela, segundo alguns teóricos, é formada por conflitos sucessivos e apenas justapostos, sem que as ações do primeiro conflito impliquem o segundo. Como exemplo a novela Noite, de Erico Verissimo.
Como conto, entende-se o texto curto, conflito único, com extrema economia de meios. A linguagem é mais tensa e aproxima-se da poesia. Não se pode dizer que a extensão seja o único critério para a classificação do conto, mas não há dúvida de que é o critério principal.
* Menalton Braff é escritor, com 21 obras publicadas e colunista da revista Carta Capital

quinta-feira, 11 de junho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (3)


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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  No mês passado, decidimos voltar a postar esses textos e  hoje trazemos para vocês o artigo número 3.  Caso queira ler primeiro os artigos anteriores, 
clique nos links a seguir:

Literatura: o que é isso? (1)
Literatura: o que é isso? (2)

Literatura: o que é isso? (3)


Mas dizer que a ficcionalidade (e isso desde o Círculo Línguístico de Praga − década de 1930, principalmente) é fundamental para que se conceitue o que os formalistas chamaram de literariedade não é suficiente. Existem outros componentes que nos ajudam a enformar o conceito de literatura pelo menos aproximadamente. Ou seja, são vários os elementos que nos ajudam a identificar a linguagem literária.
Como arte da palavra, na literatura a palavra não é mais apenas o suporte da ideia, ela é a matéria de que se faz a arte. Jean-Paul Sartre, num belíssimo ensaio sobre o assunto, construiu a metáfora da vidraça. A língua pragmática, da informação, que alguns autores designam por sistema modelizante primário, seria como o vidro transparente. Ele não deve aparecer, mas permitir que a visão o atravesse para perceber o que existe além dele. A língua da literatura, sistema modelizante secundário, é como o vidro colorido e decorado. Antes de se perceber o que está além do vidro, é a ele mesmo que se presta atenção.
Segue-se daí que, na qualidade de matéria com que se constrói a arte, o texto literário valoriza a sonoridade, o colorido, da palavra, sua musicalidade, o ritmo de suas frases. Em “Vozes veladas, veludosas vozes”, por exemplo, num verso do simbolista Cruz e Sousa, a aliteração (a reiteração do fonema /v/) cria com o som das palavras uma aproximação com a ideia de “voz”. Ou seja, na escolha dos vocábulos, neste como em outros casos (tanto na poesia quanto na prosa) o som importa e deve ser levado em conta. O autor literário sabe disso e faz o melhor (ou nem tanto) uso desse recurso, de acordo com seu domínio da linguagem. Um exemplo de ritmo na prosa, que, neste caso já se pode considerar como métrica (própria da poesia tradicional), é o parágrafo abaixo, extraído de Manuelzão e Miguilin, de João Guimarães Rosa:
O nome desse vaqueiro, ele mesmo não dizia: − O meu nome a ninguém conto, pois o tenho verdadeiro. Se o meu nome arreceberem, sina e respeito eu perdo. Me chamem de nada, até saberem: se sou tolo, se sou ladino. Enquanto eu não tiver nome, me chamem só de Menino…
É evidente que o abuso na utilização de um mesmo recurso em lugar de acrescer o encanto de um texto pode torná-lo aborrecido. Assim são os excessos.
Mas existem outras figuras de retórica a que um autor de literatura pode (e deve) lançar mão. É o caso, por exemplo, dá ironia, de que Monteiro Lobato nos dá um ótimo exemplo em seu conhecido conto Negrinha:
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
E isso depois de ter colocado um ovo fervendo à força na boca de sua pequena escrava.
Recursos como eufemismos, ambiguidades, elipses, sinestesia e muitos outros são elementos com que conta o autor de texto literário. (Continua)




terça-feira, 2 de junho de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (2)

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Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  No mês passado, decidimos voltar a postar esses textos e  hoje trazemos para vocês o artigo número 2.  Caso queira ler primeiro o artigo anterior, clique aqui.

Literatura, o que é isso? (2)

26/12/2014 – A palavra “literatura”, do latim litteris, é de surgimento mais ou menos recente, século XVIII, e seu emprego não era o mesmo dos dias atuais. Edward Gibbon (1737/1794), um lord britânico, depois de muitas viagens de pesquisas, escreveu o livro Declínio e Queda do Império Romano, obra fundamental para os estudiosos da História Antiga, e com a qual foi considerado um literato. Ora, sua obra foi de História, mas naquele século considerava-se literato o autor com vasta cultura, como foi o caso de Gibbon, e que tivesse um estilo elegante, agradável à leitura. E literato, por óbvio, produzia literatura.

Grandes polêmicas a respeito da questão literária durante o final do século XIX vão desembocar nos primórdios do século XX no grupo chamado de Formalistas Russos, preocupados em delimitar conceitos, estabelecer princípios para novos estudos que então tomavam corpo: os estudos literários. Já Henry James (1843/1916), escritor americano naturalizado britânico, ao prefaciar alguns de seus próprios romances, dava início ao que seria mais tarde conhecido como Teoria da Literatura.

terça-feira, 12 de maio de 2020

LITERATURA: O QUE É ISSO? (1)

Entre 2014 e 2016, Menalton Braff produziu uma série de artigos sobre Literatura a pedido do jornal Celulose Online.  A partir de hoje, postaremos esses textos aqui, todas as semanas.


Literatura - Menalton Braff  -  Literatura: O que é isso?


Uma das perguntas mais difíceis de se responder (pelo menos em poucas palavras) é a do título acima. E isso por diversas razões. Uma delas é o fato de ser um conceito histórico, isto é, o que se pensa como sendo literatura não tem sido sempre a mesma coisa. O que se tem por literatura ontem pode não ser mais hoje; e textos que nasceram com outra finalidade que não a literária, atualmente são lidos como literatura. Outra razão da dificuldade é a variedade de correntes críticas, em alguns pontos coincidentes, em outros divergentes.
Apesar de todas as dificuldades, vamos tentar neste espaço, encontrar algumas respostas que sejam mais consensuais, que permitam distinguir um texto literário de um texto não literário. E isso, é óbvio, de acordo com parâmetros contemporâneos.
Em que pese o fato de ser uma impropriedade vocabular, devemos buscar o início da literatura, isto é, seu gênese, em períodos os mais afastados de que temos notícias. Logo, precisamos recuar na História até o homem da caverna. Lá vamos encontrar as primeiras narrativas, histórias com que os mais velhos (portanto, mais experientes) procuravam educar as crianças. Essa foi nossa primeira escola: um adulto, sentado ao pé da fogueira, e, cercado por meninas e meninos, narrava fatos exemplares do dia a dia, com o intuito de os preparar para a sobrevivência. Tais narrativas, que de literárias eram apenas o gérmen inicial, justificavam-se porque o conhecimento abstrato é facilmente esquecido, ao passo que a memória torna-se muito mais eficiente ao guardar uma história. Ressalte-se que tais histórias tinham uma finalidade educativa e não artística.
Além disso, eram textos orais, que não se fixavam, sendo a literatura oral, sem letra ou littera, apenas uma designação de caráter histórico e não pragmático.
Bem mais tarde, pode-se dizer que nas civilizações mais antigas e mesmo na antiguidade clássica, tanto a prosa quanto a poesia mantinham ainda seu caráter educativo. O poeta era uma espécie de profeta, aquele que deveria educar o povo. Num patamar bem superior àquele do home da caverna, mas mantendo muito das finalidades primevas. O mesmo acontecia com textos narrativos, que, na verdade, tinham como objetivo a instrução, a educação do povo. Tais formas textuais foram intensamente utilizadas pelos sacerdotes da antiguidade, quando se propunham a educar o povo rude, incapaz de assimilar conceitos abstratos.
O que se convencionou chamar de primeira manifestação literária narrada, foi o Decamerom, de Giovanni Boccaccio, escrito entre 1348 e 1353. Nos cem contos de que se compõe o livro, não se encontram histórias exemplares, que sirvam de modelo ao povo, que o instruam a respeito do que quer que seja, que propaguem qualquer tipo de conhecimento. São histórias para o puro deleite da leitura.
Dado este início do que se pode chamar com propriedade de literatura, e por uma questão de espaço, precisamos interromper aqui nossa dissertação, que pretendemos continuar no próximo mês.
Uma observação final: no início precisamos desta discussão conceitual, mais árida, menos atrativa, mas isso para evitar, no futuro, incompreensões possíveis. Quando se falar do que é e do que não é literatura, será bem mais fácil o entendimento.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

LITERATURA: O QUE É ISSO? (6)

Publicamos hoje o 6ª artigo sobre Literatura escrito por Menalton Braff para o site Celulose Online. Acesse a publicação original.

Literatura: o que é isso?

10/10/2015 – Como vimos anteriormente, a narrativa literária é constituída, explícita ou implicitamente, de alguns elementos que lhe são indispensáveis. No artigo anterior, mesmo que sucintamente, foi feita uma descrição do elemento Personagem.

Uma vez que narrativa é o relato de uma sequência de ações de alguma maneira articuladas entre si, e uma vez aceita essa definição, pode-se então afirmar que toda ação transcorre no tempo, sendo este um dos elementos da narrativa literária.

Há muitas maneiras de se trabalhar o tempo e outras tantas maneiras de enfocá-lo.

terça-feira, 17 de março de 2015

LITERATURA: O QUE É ISSO? (4)


O jornal Celulose Online publica a quarta parte do texto de Menalton Braff sobre Literatura. A primeira parte foi postada neste blog no dia 22 de novembro, a segunda no dia 28 de dezembro de 2014 e a terceira no dia 31 de janeiro de 2015.

Literatura: o que é isso? (4)

Além de ocorrer dentro da história da humanidade, a literatura tem também sua história particular. E isso implica as transformações por que passa tanto por influxo das transformações sociais quanto como resultado de forças endógenas que atuam no sentido dessas mudanças.
Apesar da inelutabilidade do fenômeno acima, e em oposição a ele, é dentro de uma tradição inegável que se dão as transformações. Tradição e ruptura atuam no sentido de aceitar as mudanças sem tirar os pés de certos elementos estabilizadores.
Desde os primórdios da literatura, e para que ela fosse compreendida como tal, cristalizaram-se os gêneros dentro dos quais ela passava a ter existência. Na Antiguidade, os textos literários eram classificados em lírico, épico e dramático. Com algumas modificações, tal classificação persiste até os dias atuais.
Como gênero lírico, deve entender-se aquele em que se fala de sentimentos, emoções do próprio emissor, ou aquele em que este enuncia uma visão particular, a sua, a respeito da vida.