
Esta coluna reúne crônicas de Menalton Braff.
Tílburi
Tem dias que me recolho em mim, então não tem jeito: fico estatuado num canto, revendo passagens do passado, do meu passado.
Do meu passado, o que mais frequente me chega, são minhas leituras. De temperamento ameno, às vezes arredio (quando minhas opiniões eram menosprezadas), mesmo assim nunca fui de entrar na roda de muitos amigos. Claro que já descobri a causa disso – quando estava começando a solidificar alguma amizade, lá vinha a notícia: mês que vem vamos de mudança para outra cidade – transferências do meu pai.
Talvez esta voracidade de leitor, acredito nisso, seja uma compensação para a falta de amigos. Em lugar de amigos, eu tinha personagens. Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Narizinho, Tarzã (ele também), um pouco mais tarde: Bentinho, Quincas Borba e Sofia, aquele Aires, tão elegante nos modos e no pensamento, e os dois irmãos gêmeos, a água e o vinho, ambos apaixonados pela Flora, era com pessoas assim, perdão, personagens, que passava as horas do dia e às vezes da noite também.
Foi nesta época, dos dez aos quatorze, mais ou menos, que me habituei com a ideia dos deslocamentos, sobretudo no Rio de Janeiro, quando a pessoa (quer dizer, personagem) não tivesse veículo próprio, alugava um tílburi por uma viagem.
Quando ingressei no Clássico, no Colégio Ruy Barbosa, de Porto Alegre (a escola não existe mais, hoje passa uma avenida por cima de seus alicerces enterrados) então quando iniciei o colegial, um professor de Português cujo nome já esqueci, mas me lembro de que ele fumava na sala de aula,


