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terça-feira, 14 de maio de 2019

ORELHA

Esta coluna reúne tetos de Menalton Braff sobre obras de outros escritores, alguns deles pulicados como orelhas.


Um poeta ao sul


Quando se descobre um poeta, ele já está há muito descoberto. Acabei de descobrir um poeta, um poeta com suas ferramentas afiadas, com seu itinerário escrito, com seu rumo traçado. Um poeta e muita ternura. Este poeta de pedigree, que para muitos pode ser velho conhecido, para mim foi um dos prêmios por haver viajado dia dois de novembro para Porto Alegre. Fabrício Carpi Nejar, ou apenas Carpinejar, com a humildade dos grandes, apresentou-se, mas apresentou-se mal, pois mal ouvi seu nome. Não se apresentou dizendo, como lhe era de direito, eu sou um dos grandes poetas da nova geração de poetas brasileiros. Quem viver, verá.


Um terno de Pássaros ao Sul, sua mais recente publicação, é um apelo. Do início ao fim o mesmo apelo "Volta ao pampa, pai." que retorna invertido no final "Volta ao pai, Pampa." É uma luta contra o tempo, a tentativa de cristalizar as relações, que no final se inverte. O que é o "pampa", de tantos significados no universo imagístico gaúcho? A querência, outra palavra de forte cheiro sul-riograndense, a vida, o tempo. Pai e pampa, a partir da inversão final, tem-se o direito de os confundir como uma coisa só, como a origem da vida, sua razão.

Há neste canto, que é Um terno de pássaros ao sul, um trabalho com a sonoridade das palavras que, se de um lado, traz-nos de volta o gosto simbolista pela musicalidade, por outro, principalmente no campo semântico, jogos e combinações inusitados, de extração surrealista. Os exemplos que seguem não demandaram trabalho profundo de pesquisa, mas apenas anotações ao sabor da leitura.

Aqui no rodapé dos potros e cargas do porto, Metáteses desse tipo, e na verdade, de gosto muito apurado, são um dos recursos utilizados por alguém que domina as técnicas da poesia, como o Fabrício.

E então esta jóia poética da página 27:

Tantas vezes caí
em teu lugar,
que descobri o inferno
ao repetir a salvação.
Tantas vezes caíste
Em meu lugar,
que descobriste a salvação
ao repetir o inferno.

É um jogo de paradoxos e inversões que se aproxima do quiasma, não fosse mais radical do que este ao opor em todos os sentidos filho e pai. Outro recurso de retórica empregado, são essas aproximações, que, sem serem a assonância, são-lhe contudo semelhantes. As palavras atraem-se pela semelhança como um calembur.

Confundia-se a força da estrada
com o estrado da forca.
ou
e remonto a versão da viagem
remota, sem entender quais
os motivos que apressaram as malas
e revolveram as gavetas do casaco.
Estaria aí a chave de seu parentesco com Salvador Dali?
E chega-se, por fim ao capítulo das aliterações. Este é um recurso que merece uma
atenção especial, pois se é das semelhanças sonoras que se faz o liame entre as palavras em
sua escolha paradigmática, a aliteração é um dos recursos mais freqüentes.
o vento inclinando
o bosque das bombachas.
A batina do sino

Este agora um verdadeiro calembur, porque "batina", se está no campo semântico do
sino, sintagmaticamente pediria "batida", e assim, neste jogo de atrações sonoras e
semânticas a poesia de Carpinejar mostra um jovem poeta amadurecido, porque consciente
dos recursos da língua, com uma sensibilidade viril que faz de seu lirismo um lirismo moderno, surpreendente.

sábado, 6 de outubro de 2018

ORELHA

Esta coluna reúne textos de Menalton Braff sobre livros de outros autores. Muitos deles foram publicados como orelhas.

Desproteção


Volto a me encontrar com a poesia do João Augusto, neste Sem a sombra de um guarda-chuva, e é um reencontro prazeroso. O poeta, percebe-se, é o mesmo, mas depois de um ano, pouco mais ou menos, sua poesia me dá a impressão de amadurecimento no melhor sentido do termo.

No plano da forma, encontra-se uma utilização mais rica dos recursos poéticos, dentre os quais se deve destacar a elaboração do verso. Quando se aboliu métrica e rima (Futurismo, Modernismo), muito poeta menor pensou que se abolia o ritmo e passou a cortar aleatoriamente suas frases pensando que fazia poesia com isso. O verso é uma unidade rítmica e não apenas a partição arbitrária da frase prosaica. Sem isometria, mas com ritmo, esse é o verso do João Augusto, que isso sim é poesia moderna. Suas metáforas continuam insólitas, chegando em muitos poemas a beirar o Surrealismo de forma natural, como uma necessidade de sua poesia. É o caso, por exemplo, do verso abaixo, de seu poema Realinhamento:

É reduzir o tempo e redobrar as roupas. 

Não se deve esquecer que literatura não é comunicação, mas expressão. Para aqueles habituados a uma leitura referencial, de primeiro nível, é necessário que se diga que a poesia deve afetar o leitor, não como lição, mensagem ou qualquer outro dos equívocos que correm por aí. Não há uma aparente relação entre as partes do eixo sintagmático, mas a leitura profunda vai revelar que reduzir o tempo

quarta-feira, 14 de março de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

Burlesco*
(João Augusto)

A humanidade é uma graciosa farsa
Mas os chimpanzés são mais ousados
Porque troçam e pilham
Animais enjaulados
Nem troçamos nem pilhamos
Repetimos os monos e rimos
Mais com as sobrancelhas

Que dão guarda ao coração
Olhos de anfíbios
Que expelem veneno
Tão natural e abundante
Como a saliva que pulsa
Em minha sua boca
Cheia de dentes
Esperando a cortina
A encerrar o copo
De alucinações


*Este poema está no livro Sem sombra de um guarda-chuva. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

ESPETÁCULO DA SEMANA

O Blog do Menalton, de literatura, abre hoje um espaço para o teatro. 

O propósito é avisar, para que ninguém perca, que amanhã, às 20h, o poeta e cronista Fabrício Carpinejar apresenta seu espetáculo O amor não é para os fracos, no Teatro Municipal de São Carlos. 

O talk show desvenda com humor e provocação os conflitos dos relacionamentos amorosos contemporâneos: "de onde vem o excessivo medo masculino de broxar", “como a mulher cura a depressão comprando sapatos?". 

Ficou curioso? Compre já o seu ingresso.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SOBRE O LIVRO "ETERNIDADES NA PALMA DA MÃO"

E por falar em eternidade


Tenho aqui, à minha frente, as laudas do livro Eternidades na palma da mão, da Mara Senna, quem me concedeu o privilégio desta leitura prévia. Este é seu terceiro livro de poemas. Luas novas e antigas, o primeiro, já vem com o carimbo de alta qualidade poética, sem os canhestros titubeios de uma estreia. Mas aquilo que eram qualidades humanas e literárias, no livro anterior, veio ainda com mais força em seu segundo livro, Ensaios da tarde, quando a poeta já se firmava como uma das mais brilhantes estrelas do cenário literário ribeirão-pretano.

Há neste novo livro, em que a eternidade cabe na palma da mão, um afinamento instrumental que só confirma a Mara como uma das mais felizes expressões poéticas das novas gerações literárias brasileiras. A delicadeza das ideias aliada ao modo delicado de dizer, eis o feliz encontro entre os planos do conteúdo e da forma, que é a condição para que se atinja a essência da poesia, como é o caso da Mara.

A dor ou as dores da existência, o sentido de incompletude da vida, o anseio por chegar  além do ramerrão do dia a dia, resulta um certo tom melancólico que perpassa por boa parte de seus poemas.
  Porém, para as coisas não vividas,/ mas tão ardentemente desejadas,/ só consegui inventar desculpas/ esfarrapadas,/ e estendo a elas/ essas mãos vazias de eternidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CANTIGAS DE AMIGOS

Da poeta paulistana Ruth do Carmo, o poema abaixo:

ESCRITOS  (2012)

Avó
Hoje refaço seus passos
em sentido contrário,
mas  na mesma calçada.

A fábrica para onde vou é outra.
Seu tecido é feito de gente,
de meu tear devem sair palavras.
(04-09-2012)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CANTIGAS DE AMIGOS

Poema de Vasco Pereira de Oliveira, o premiado poeta de Sertãozinho.

O fim

Quero sim
que o fim seja assim
um átimo sem susto
sem aves voando da árvore
sem fé, orvalho, prece
exumação de cadáver
flores murchas
fumaça de cigarro
um vapt sem vupt
quero sim
que seja assim
sem reticências

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

FRASE

“... não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto, nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) – diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder.”
 (Aristóteles, Poética)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

CANTIGAS DE AMIGOS

Poema da gaúcha Lila Ripoll, extraído de suas Obras Completas, publicadas , em 1998 pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grane do Sul.

Cinzas

Cingida por sete palmas,
descerei à terra, um dia.
Violetas roxas no peito,
fronte branca e alma fria.

Cabelos longos caídos
e arrastados pelo vento.
Em todo o corpo um espanto
e um lúcido entendimento.

Teu claro nome sonoro
entre os lábios, apertado.
Luas negras nos meus olhos.
E um segredo inconfessado.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

BERTOLT BRECHT

"Infeliz é o povo que precisa de heróis".                                                 (Bertolt Brecht)

Perguntas de um operário que lê

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CANTIGAS DE AMIGOS


Lila Ripoll
Conheci Lila Ripoll nas ruas de Porto Alegre. Conheci de vista, de vê-la passar apontada pelas pessoas: Tá vendo aquela mulher baixinha? É a poeta.

E por onde passava, Lila deixava uma poeira de luz, que transformava o ambiente e nos iluminava. Forte, militante política, respeitada, era, ao lado de Mário Quintana, uma das glórias poéticas do Rio Grande do Sul.

Mas a Lila, que nasceu em 1905, espalhou seus cantares até 1967, e sumiu. Poucas pessoas hão de lembrar-se das suas intervenções políticas tanto quanto de sua poesia.

Finalmente o Instituto Estadual do Livro, em 1998, assumiu seu papel e publicou a obra completa da poeta.

Não é coincidência ter morrido três anos depois do golpe militar, que a abalou inclusive com uma prisão.





domingo, 8 de setembro de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA (8)


Flädie Hotels - Sweden
Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,
12 de agosto de 1904
Quero conversar de novo com o senhor por um momento, meu caro Kappus, embora não possa dizer quase nada que o ajude, quase nada de útil.
O senhor teve muitas e grandes tristezas que passaram. E diz que mesmo esta passagem foi  difícil e perturbadora. Mas, por favor, avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se
transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste. Só são ruins e perigosas as tristezas que
carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se acumulam no íntimo e  constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

TEXTO DE AMIGO

O texto abaixo é do filósofo Matheus Arcaro.

Eu sou poeta
Há tempos a palavra “artista” vem sendo banalizada de tal modo que mesmo os atores televisivos mais medíocres são assim denominados pela imprensa e pela massa em geral. É bem provável que se perguntarmos a uma dançarina de boate qual é a sua ocupação, ela responda que é artista. E pensar que tal palavra já serviu a Homero, Michelangelo, Beethoven, Kafka...
Na mesma esteira, o termo “poeta” também vem sendo futilizado; apropriam-se dele de maneira a utilizá-lo gratuitamente.

De fato, impressiona-me como alguns se auto intitulam "poetas" com tanta facilidade. Acreditam que estejam fazendo poesia rimando "amor" com "dor" ou descrevendo cenas bucólicas e situações de paixão. Creio que a poesia é uma das mais viscerais expressões artísticas. Por isso, ela requer um trabalho árduo; um trabalho de ourives para lapidar cada verso, cada palavra, cada espaço em branco. E o material a ser lapidado corresponde à bagagem emocional, intelectual e, principalmente, cultural do poeta. É simples pensarmos isso recorrendo a uma analogia: como o artesão conseguiria criar uma joia se a sua matéria prima é o latão?

sábado, 4 de maio de 2013

O GÊNIO ESQUECIDO

SOUSÂNDRADE


Biografia: Joaquim de Sousândrade  (1833 - 1902)

Joaquim de Sousa Andrade, nascido na vila de Guimarães, no Maranhão, formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde fez também o curso de engenharia de minas. Republicano convicto e militante, transfere-se, em 1870, para os Estados Unidos. Morando em Nova Iorque, funda o periódico republicano "O Novo Mundo", publicado em português.
Retornando ao Maranhão, comemora com entusiasmo a Proclamação de República. Dedica-se ao ensino de Língua Grega no Liceu Maranhense e passa, no final da vida, por enormes dificuldades financeiras. Morre em São Luís, abandonado, na miséria e considerado louco. Sua obra foi esquecida durante décadas. Resgatada no início da década de 1960, pelos poetas Augusto e Haroldo de Campos, revelou-se uma das mais originais e instigantes de todo o nosso Romantismo. Em Nova Iorque, publica sua maior obra, o poema longo O Guesa Errante (1874/77), em que utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e de metáforas vertiginosas, que só foram valorizados muito depois de sua morte. Em 1877, escreveu: "Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci - decepção de quem escreve 50 anos antes".

Clique para ler um poema  de Sousândrade

quinta-feira, 4 de abril de 2013

TEXTOS DE AMIGOS

O poema que segue está no livro Canção dentro da Noite, de meu amigo Ronaldo Cagiano, poeta e contista dos mais prestigiados do país.

               A Rua

A rua sem ninguém, um rio seco,
escuro corredor de muitos ventos.
           Ciro José Tavares



A rua está ausente e longínqua,
como uma estepe inatingível,
sobre cicatrizes de antigas procissões
e revolvida pelo séquito
de solenes funerais.

quinta-feira, 7 de março de 2013

TEXTOS DE AMIGOS

O poema que segue é de minha querida amiga Cecília Figueiredo, de Ribeirão Preto.


TODOS OS AMORES CONFESSÁVEIS OU NÃO
Cecília Figueiredo

Todos os amores confessáveis são sãos,
libertos dos grilhões,
são da libélula, a liberdade da asa,
do leite, a lícita vontade,
os possuidores de qualquer razão,
houvesse ou não razão,
mas não querem a razão,
querem a vida...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

TEXTOS DE AMIGOS


                           O poema abaixo é da minha amiga Mara Senna, poeta premiada de Ribeirão Preto, autora dos livros Luas novas e antigas e Ensaios da tarde.
  Fadiga

As palavras úmidas
regurgitam
lúbricas,
cálidas,
urgentes.
Reclamando ouvidos,
revelando segredos,
serpenteiam em formas
túrgidas,
loucas,
lascivas.
Esgotam-se em salivas.
E, por fim,
fatigadas,
roucas,
passivas,
vêm repousar
no suor,
no sêmen,
no sono
e
no silêncio.

in Ensaios da Tarde, 2012.

Menção Honrosa no Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody, Paraná (2010).

segunda-feira, 19 de março de 2012